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segunda-feira, julho 6, 2026

Fragmentação geopolítica leva a número recorde de conflitos

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Antes mesmo de Donald Trump ter lançado os EUA em uma guerra contra o Irã, o ambiente geopolítico global já era o mais instável desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A paz no mundo deteriorou-se pelo 12º ano seguido em 2025, refletindo a crescente interferência de Estados estrangeiros em conflitos internos, resultando em mais de 181 mil mortes, segundo dados do Institute for Economics & Peace (IEP). Em paralelo, houve uma aceleração do rearmamento global, com destaque para a presença cada vez maior da inteligência artificial na infraestrutura bélica e no uso de drones, que se tornaram a arma definidora da guerra moderna.

O impacto da violência dos conflitos internos e entre Estados na economia global foi de US$ 21,8 trilhões em termos de paridade do poder de compra (PPC) em 2025, o equivalente a 10,5% do PIB global – uma alta anual de 3,2%, segundo o Índice Global da Paz (GPI) do IEP. Mas esse impacto é bastante assimétrico, com o custo econômico nos 10 países mais afetados pela violência alcançando, em média, 23,4% do PIB na Rússia, Sudão, República Democrática do Congo, Ucrânia, Israel, Sudão do Sul, Afeganistão, Iêmen, Síria e Mali. Nos 10 países menos afetados esse impacto foi de apenas 2,2% do PIB – a maioria países ricos da Europa Ocidental.

Em um sinal da deterioração da percepção da paz global, foram justamente as nações “mais pacíficas” da Europa Ocidental e Central que mais aumentaram os gastos militares no último ano. No total global, os gastos militares somaram US$ 2,9 trilhões em 2025 – o equivalente a 2,5% do PIB global -, um aumento de 2,9% em termos reais. Os cinco países que registraram as maiores variações nos gastos militares são todos membros da Otan e com fronteiras próximas à guerra em curso na Ucrânia: Dinamarca, Noruega, Lituânia, Bélgica e Suécia. Coletivamente, os aliados europeus aumentaram os gastos com defesa em aproximadamente 20%.

A invasão da Ucrânia pela Rússia inverteu uma tendência de 15 anos de diminuição do nível médio de militarização dos países, segundo o GPI. Fora da Europa, observa-se também um crescimento contínuo dos orçamentos de defesa na China e na Índia e uma proliferação global de sistemas de armas avançados e pesados. Tudo isso sugere continuidade do impulso nos gastos militares globais.

A campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã introduziu uma nova camada de instabilidade no Oriente Médio. A guerra lançada por Trump é o mais recente exemplo de crescente internacionalização dos conflitos. Nos últimos cinco anos, 103 países estiveram envolvidos, em algum grau, em conflitos externos, ante 59 em 2008. Na avaliação do IEP isso reflete uma transformação estrutural do sistema internacional com a expansão em número e crescente influência das nações de potência média, cujo número quase dobrou desde o fim da Guerra Fria, de nove em 1991 para 16 em 2024, enquanto o número de potências emergentes triplicou no mesmo período. Essa expansão significa uma redistribuição da influência global, que se distancia das tradicionais grandes potências europeias e se desloca para um conjunto mais diversificado de atores no Oriente Médio, na região da Ásia-Pacífico e na América Latina. A participação das grandes potências europeias no PIB global também encolheu drasticamente desde 1991.

Essa mudança ocorre em um contexto de fragmentação geopolítica e esvaziamento das instituições multilaterais, do Conselho de Segurança da ONU à Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse é um efeito colateral da teimosa resistência de longa data das potências tradicionais às demandas de reformas das instituições para dar mais peso às potências médias emergentes – uma pauta defendida pelo Brasil desde meados da década de 1990. A influência de potências médias em ascensão não se limita às considerações tradicionais de segurança. Países como Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Brasil estão moldando cada vez mais os fluxos comerciais globais, o financiamento para o desenvolvimento, as narrativas culturais, o apoio militar e diplomático e as instituições internacionais.

É nesse cenário de fragmentação geopolítica e de conflitos globais em número recorde que o mundo observa um alarmante crescimento da infraestrutura bélica habilitada por IA, com os drones se consolidando como arma definidora nos conflitos armados atuais. Os riscos geopolíticos hoje superam os níveis da Guerra Fria, impulsionados pelo aumento dos gastos militares, redução do papel das instituições multilaterais, escalada das restrições comerciais e crescente competição entre grandes e médias potências.

O dinheiro das armas compete com o do combate ao aquecimento global, ameaça existencial ao planeta, que não cresce à altura das necessidades. O montante anual de US$ 1,3 trilhão que os países desenvolvidos se recusam a aportar para financiar ações de mitigação e adaptação climática nos países em desenvolvimento é bem menor do que os recursos que vão para armas de destruição.

[Fonte Original]

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