O mercado de criptomoedas entra em agosto com sinais de recuperação, mas ainda enfrenta um cenário macroeconômico desafiador. O Bitcoin (BTC) voltou a negociar acima de US$ 60 mil em julho, enquanto os investidores passaram a buscar projetos com catalisadores próprios, como atualizações de rede, crescimento de receita, adoção institucional e pedidos de ETFs.
Analistas da Bitso e da Coinext indicaram nove criptomoedas para acompanhar ao longo de agosto de 2026. Bitcoin, Ethereum (ETH), Solana (SOL), USD Coin (USDC) e XRP formam a seleção da Bitso. A Coinext, por sua vez, escolheu Solana, Hyperliquid (HYPE), Bittensor (TAO), Render (RENDER) e Aave (AAVE).
A presença da USDC mostra que as listas não funcionam apenas como uma projeção de valorização. A stablecoin aparece como instrumento de proteção e gestão de liquidez durante períodos de volatilidade.
Bitso destaca Bitcoin, Ethereum, Solana, USDC e XRP
O Bitcoin abre a lista da Bitso como a principal referência do mercado. Julián Colombo, diretor sênior de Políticas Públicas e Estratégia para a América do Sul na Bitso, destaca que a criptomoeda recuperou parte das perdas registradas no segundo trimestre e mostrou maior resistência às incertezas macroeconômicas durante julho.
O executivo associa a recuperação à retomada gradual do interesse pelos ETFs de Bitcoin e à manutenção da demanda institucional. O ativo, contudo, continua sensível às decisões do Federal Reserve e aos indicadores de inflação e emprego nos Estados Unidos.
Para a Bitso, o Bitcoin oferece maior liquidez e menor risco relativo em comparação com as altcoins. Essa característica pode atrair investidores que querem exposição ao setor sem assumir os riscos específicos de protocolos menores.
A análise também identifica uma melhora na estrutura técnica do BTC. Colombo avalia que o mercado pode passar por um período de consolidação antes de tentar movimentos mais fortes de alta.
O risco macroeconômico permanece como a principal ameaça à tese. Juros elevados, redução da liquidez internacional ou novas saídas dos ETFs podem limitar a recuperação do Bitcoin durante agosto.
Ethereum mantém liderança em tokenização e stablecoins
O Ethereum ocupa a segunda posição na seleção da Bitso. A empresa considera que a rede combina fundamentos sólidos, adoção institucional e uma infraestrutura consolidada para aplicações financeiras baseadas em blockchain.
A expansão dos mercados de tokenização, stablecoins e finanças descentralizadas sustenta a tese. O Ethereum concentra parte relevante dos ativos tokenizados e mantém um amplo ecossistema de protocolos, desenvolvedores e ferramentas.
Colombo também destaca o desenvolvimento contínuo da rede e as melhorias de escalabilidade. Soluções de segunda camada reduzem custos e ampliam a capacidade de processamento, embora também levantem discussões sobre quanto valor econômico retorna para a camada principal.
A Bitso acredita que o mercado pode voltar a privilegiar redes que apresentam utilidade, atividade econômica e geração de receita. Nesse cenário, o ETH aparece como um dos principais candidatos a liderar uma eventual recuperação das altcoins.
O ativo ainda enfrenta concorrência de redes como Solana e de blockchains especializadas. Além disso, o crescimento do ecossistema nem sempre produz valorização imediata do token, especialmente quando o mercado reduz sua exposição ao risco.
Solana aparece como aposta em crescimento
A Solana representa a única escolha em comum entre Bitso e Coinext. Para Colombo, a rede mantém uma das maiores taxas de crescimento entre as blockchains de primeira camada.
A combinação entre velocidade, custos reduzidos e expansão do ecossistema continua atraindo projetos de pagamentos, DeFi e ativos tokenizados. A Bitso também aponta a Solana como uma das principais alternativas ao Ethereum para aplicações que exigem grande capacidade de processamento.
O desempenho da SOL dependerá, em parte, do apetite por risco. Caso o mercado retome a procura por altcoins em agosto, a Bitso acredita que o ativo pode figurar entre os principais beneficiados.
A rede também ganhou acesso ao mercado institucional por meio de ETFs nos Estados Unidos. Os produtos spot de Solana ultrapassaram US$ 1 bilhão em ativos sob gestão em maio, segundo um balanço divulgado pela Solana Foundation.
Quem também acredita na Solana é Matias Part, analista da Bitget, para ele quando o capital institucional começa a migrar de Bitcoin e Ethereum para altcoins, Solana costuma ser uma das primeiras beneficiadas por sua elevada liquidez e capacidade de absorver grandes fluxos de recursos.
USDC oferece proteção, não valorização
A USD Coin ocupa uma posição diferente na lista. Como a USDC busca manter paridade com o dólar, os investidores não compram o ativo com a expectativa de valorização semelhante à do Bitcoin ou das altcoins.
A Bitso destaca a stablecoin como uma ferramenta para preservar capital, administrar liquidez e movimentar recursos entre diferentes criptomoedas. O investidor também pode usar USDC para reduzir temporariamente sua exposição à volatilidade sem retirar os recursos do ecossistema.
O uso de moedas estáveis em pagamentos internacionais, remessas e operações institucionais reforça a relevância da USDC. A integração com empresas financeiras também ampliou as possibilidades de uso além da negociação de criptoativos.
A estabilidade de preço não elimina os riscos. O investidor continua exposto ao emissor, à qualidade das reservas, aos contratos inteligentes e às regras regulatórias aplicadas às stablecoins e às plataformas que oferecem rendimento sobre esses ativos.
XRP mira pagamentos internacionais
O XRP fecha a seleção da Bitso como uma aposta relacionada à infraestrutura de pagamentos internacionais. Colombo afirma que a procura por soluções de liquidação transfronteiriça continua sustentando a tese para o ativo.
O analista também cita a expectativa de maior clareza regulatória nos Estados Unidos. O XRP registrou desempenho relativo superior durante parte da recuperação de julho, segundo a avaliação da Bitso, o que indicou uma retomada do interesse pela narrativa de pagamentos globais.
A integração entre blockchain e instituições financeiras tradicionais pode abrir novas oportunidades para o ecossistema do XRP. O ativo também ganhou instrumentos de investimento regulados, que ampliaram seu acesso a investidores profissionais.
A adoção de uma rede ou de uma solução da Ripple, entretanto, não produz necessariamente uma demanda proporcional pelo XRP. O investidor precisa diferenciar o crescimento da infraestrutura do impacto econômico direto sobre o token.
Coinext aposta em infraestrutura, inteligência artificial e DeFi
A equipe de Research da Coinext adotou um critério mais concentrado em eventos previstos para os próximos meses. A empresa procurou projetos com atualizações técnicas, produtos institucionais, atividade econômica e mecanismos de geração de receita.
A seleção reúne Solana, Hyperliquid, Bittensor, Render e Aave. A Coinext afirma que os cinco ativos combinam eventos verificáveis no horizonte próximo, atividade on-chain e algum grau de interesse institucional.
A casa também divulgou um balanço de suas escolhas para julho. Segundo os cálculos da própria Coinext, a Ondo Finance (ONDO) liderou a lista anterior com alta de 28%. Chainlink (LINK) subiu 12,7%, enquanto Pendle (PENDLE) avançou 4%.
Stellar (XLM) e Injective (INJ) encerraram o período com quedas de 2,5% e 2,2%, respectivamente. O resultado reforçou, na avaliação da equipe, a necessidade de buscar ativos com catalisadores específicos em um mercado que ainda não apresenta uma recuperação uniforme.
Agave 4.2 coloca Solana no centro das atenções
A Coinext também colocou a Solana em sua lista por causa da atualização Agave 4.2. A Solana Foundation recomenda que os validadores adotem a nova versão em agosto, com o início das ativações previsto para a semana de 17 de agosto.
O Agave 4.2 pretende reduzir o tempo dos slots de 400 para 200 milissegundos, elevar o tamanho máximo das transações de 1.232 para 4.096 bytes e iniciar uma redução de 90% nos custos de armazenamento da rede.
A atualização também inclui o código necessário para testar o Alpenglow, novo sistema de consenso que pretende reduzir a finalidade das transações para aproximadamente 150 milissegundos.
A Solana Foundation, no entanto, esclarece que o Agave 4.2 não ativará o Alpenglow na rede principal. A equipe espera realizar essa ativação no Agave 4.3, atualmente previsto para outubro de 2026.
Na análise técnica enviada ao Cointelegraph Brasil, a Coinext identificou suporte para a SOL entre US$ 73 e US$ 74 e resistência entre US$ 78 e US$ 81. Um rompimento dos US$ 81 poderia abrir espaço para um teste entre US$ 96 e US$ 101, segundo a casa.
A Coinext ressalta que a atualização não garante a valorização da SOL. A rede ainda precisará executar o cronograma sem atrasos ou problemas técnicos, enquanto o mercado precisará recuperar o apetite pelas altcoins.
Hyperliquid ganha força com derivativos ligados a RWAs
A Hyperliquid aparece como a escolha da Coinext e também da Bitget para o setor de derivativos descentralizados. A plataforma opera um livro de ofertas on-chain em sua própria blockchain e concentra parte relevante do mercado de contratos perpétuos descentralizados.
Em julho, os contratos ligados a ativos do mundo real, como ações, índices e commodities, passaram a responder por mais da metade do volume semanal da plataforma. Dados divulgados no mercado apontaram cerca de US$ 26 bilhões em negociações e uma participação próxima de 54% do volume total da Hyperliquid.
A expansão mostra que a plataforma começou a captar uma demanda que vai além dos contratos de criptomoedas. Traders passaram a usar a infraestrutura para negociar exposições sintéticas a instrumentos financeiros tradicionais durante períodos mais amplos.
A HYPE também ganhou três produtos negociados em bolsa nos Estados Unidos. A Bitwise lançou seu ETF em maio, enquanto a Grayscale oferece um ETF de HYPE com staking. A 21Shares completa o grupo citado pela Coinext.
A equipe de Research também destaca o mecanismo que usa parte das taxas da plataforma para recomprar HYPE no mercado. Quanto maior o volume de negociação, maior pode se tornar a demanda gerada por esse sistema.
No campo técnico, a Coinext identifica suporte entre US$ 57 e US$ 58 e resistência entre US$ 62 e US$ 65. O rompimento dos US$ 65 poderia levar o token a testar US$ 70 e, posteriormente, a região de sua máxima histórica.
A Hyperliquid ainda concentra riscos importantes. A atividade com derivativos envolve alavancagem, liquidações e dependência de oráculos. O protocolo também enfrenta questionamentos sobre descentralização, governança e enquadramento regulatório dos contratos ligados a ativos tradicionais.
Sua exchange de contratos perpétuos gera receitas consistentes, adota um mecanismo deflacionário de queima de tokens e vem ampliando sua participação de mercado mês após mês. Diferentemente da maioria das altcoins, não enfrenta grandes desbloqueios de tokens de investidores iniciais que possam aumentar a pressão vendedora. Vale destacar, porém, que o ativo já acumulou uma forte valorização, tornando sua entrada mais cara do que há alguns meses”, disse o analista da Bitget
Bittensor aposta na união entre blockchain e IA
Matias Part da Bitget também afirma que a Bittensor (TAO) é a criptomoeda com o catalisador mais concreto para agosto: a SEC tem uma janela de decisão neste mês sobre os ETFs spot apresentados pela Grayscale e pela Bitwise.
Ele também destaca que ela é a principal rede de inteligência artificial descentralizada, inserida na narrativa mais forte do ano, e chega a esse momento com uma oferta bastante restrita: as emissões diárias foram reduzidas pela metade, enquanto uma parcela significativa dos tokens em circulação permanece bloqueada.
Trata-se de uma aposta de alto beta na narrativa de IA — se esse tema perder força, o TAO tende a sofrer mais do que a média do mercado. Ainda assim, o evento regulatório de agosto o coloca no radar dos investidores.
A Coinext também escolheu a Bittensor como sua principal exposição à narrativa de inteligência artificial descentralizada. A rede organiza diferentes sub-redes, conhecidas como subnets, que recompensam participantes pela oferta de modelos, dados e capacidade computacional.O protocolo busca criar um mercado aberto para serviços de IA. Desenvolvedores e operadores competem por recompensas em TAO de acordo com as regras e métricas de cada subnet.
O interesse institucional forma parte da tese. A Grayscale administra um trust de Bittensor e protocolou documentos para transformá-lo em um produto negociado na NYSE Arca. O registro apresentado à SEC mostra que o fundo pretende manter TAO diretamente.
A Bitwise também registrou um fundo com exposição ao ativo. A Coinext considera que o avanço desses produtos pode ampliar o acesso institucional ao TAO, mas os pedidos ainda não asseguram aprovação, lançamento ou entrada de capital.
Na análise técnica, a casa coloca o principal suporte entre US$ 160 e US$ 200. O TAO precisaria superar a região de US$ 220 a US$ 225 para buscar níveis mais elevados. A Coinext enxerga espaço para um teste entre US$ 352 e US$ 396 caso o token confirme esse rompimento.
O projeto ainda enfrenta desafios para medir a demanda econômica de suas subnets. As metodologias que calculam receitas de serviços de IA apresentam diferenças relevantes, o que exige cautela ao comparar emissões de tokens, uso da rede e receita externa.
Render expande infraestrutura de GPUs
A Render representa a segunda aposta da Coinext no setor de inteligência artificial. A rede conecta criadores e desenvolvedores que precisam de processamento gráfico a operadores que possuem capacidade ociosa de GPU.
O protocolo usa o mecanismo Burn-and-Mint Equilibrium. Os usuários queimam RENDER para pagar pelo processamento, enquanto a rede emite recompensas para os operadores que executam as tarefas.
A Coinext destaca o avanço da migração do token antigo na Ethereum para o RENDER nativo da Solana. A Render Foundation iniciou a mudança de sua infraestrutura principal em 2023 para reduzir custos e ampliar a capacidade de liquidação das tarefas.
Outro catalisador vem da proposta RNP-023. A comunidade aprovou a integração da Salad Network como uma subnet exclusiva da Render. A parceria pode acrescentar dezenas de milhares de GPUs e expandir a capacidade disponível para cargas de inteligência artificial e computação distribuída.
Na avaliação técnica da Coinext, o RENDER encontra suporte entre US$ 1,40 e US$ 1,43. A primeira resistência aparece perto de US$ 1,51. Um rompimento acompanhado de volume poderia levar o ativo para a faixa entre US$ 1,58 e US$ 1,70.
A expansão da capacidade não garante aumento equivalente na demanda. A Render precisará atrair usuários e tarefas suficientes para remunerar a infraestrutura adicional e sustentar a queima de tokens.
Aave fecha lista com crédito descentralizado e RWAs
A Aave completa a lista da Coinext como a principal aposta no mercado de empréstimos descentralizados. O protocolo permite que usuários depositem ativos para obter rendimento ou usem garantias para tomar empréstimos por meio de contratos inteligentes.
A Coinext destaca o Aave V4, que adotou uma arquitetura modular baseada em hubs e spokes. A documentação oficial do protocolo registra o lançamento da versão na rede principal da Ethereum em 30 de março de 2026.
A expansão para a Avalanche também entrou no radar. A comunidade discutiu uma implantação apoiada por até US$ 15 milhões em incentivos condicionados a metas de crescimento. A iniciativa ainda precisava cumprir as etapas de governança e ativação previstas pelo protocolo no momento da análise.
A plataforma Horizon fortalece a tese institucional. O produto permite que participantes qualificados usem ativos do mundo real como garantia para obter empréstimos em stablecoins. O Horizon ultrapassou US$ 500 milhões em valor bloqueado em maio, de acordo com uma atualização da Aave Labs.
A Coinext também cita o modelo “Aave Will Win”. A proposta direciona ao tesouro da organização autônoma descentralizada as receitas dos produtos que usam a marca Aave, embora a comunidade ainda discuta definições, deduções e mecanismos de fiscalização.
No campo técnico, a casa aponta suporte entre US$ 88 e US$ 90 e resistência entre US$ 103 e US$ 112. O rompimento da região de US$ 112 poderia abrir caminho para um teste dos US$ 120.
O AAVE continua sujeito aos riscos típicos do setor de DeFi, como falhas em contratos inteligentes, problemas com oráculos, liquidações em cascata e perda de liquidez. A expansão para ativos do mundo real também acrescenta riscos jurídicos e de contraparte.