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A jornada de Ulisses, protagonista da epopeia Odisseia, atribuída ao poeta grego Homero, é uma narrativa rica em elementos que podem ser aproveitados na criação de histórias em quadrinhos, tal como o projeto em questão, analisado por aqui, com roteiro de Silvana Salerno e ilustrações de Jefferson Costa, lançado pela FTD em 2010, com foco pedagógico, mas que pode ser material divertido para quem curte o gênero. A trajetória clássica, que narra o retorno de Ulisses para Ítaca após a Guerra de Troia, repleta de aventuras, desafios e transformações, oferece diversos aspectos que podem ser transpostos de maneira emocionante para o formato das HQs, suporte que possui características visuais e dinâmicas. Primeiramente, a estrutura narrativa da Odisseia permite uma adaptação fluida ao formato por possui uma divisão clara em episódios e caráter episódico, o que se encaixa bem na disposição em quadros e páginas das histórias em quadrinhos. Os encontros de Ulisses com criaturas fantásticas, deuses e outros personagens, como o Ciclope Polifemo, as Sereias e a deusa Circe, proporcionam tramas que podem ser abordadas em edições distintas ou em arcos narrativos, permitindo uma exploração visual rica e emocionante dos conflitos enfrentados pelo herói.
Outro ponto importante é a representação gráfica dos personagens e ambientes. Ao passo que cada tradução é lida, na era de lançamento do tão esperado filme homônimo de Christopher Nolan, as versões em quadrinhos permitem uma interpretação visual peculiar do universo homérico. Os cenários magníficos, tais como o encontro com Polifemo, o palácio de Odisseu em Ítaca e Hades, o temeroso mundo dos mortos, são recursos que podem ser explorados artisticamente, trazendo uma nova vida ao ponto de partida tão retomado por diversas estruturas semióticas ao longo do tempo. Aqui, o ilustrador utiliza sabiamente elementos estilísticos que refletem aquilo que conhecemos pela cultura da Grécia Antiga, enriquecendo ainda mais a experiência visual do leitor. Nessa versão, a inserção do verde e seus diversos tons embasam a paleta escolhida por Costa, artista também focado na sobreposição de imagens e em uma movimentação bastante expressiva no interior dos quadros, transmitindo a ideia de agitação que caracteriza a pavimentação frenética dos caminhos percorridos por Ulisses.
Ademais, a relativa profundidade psicológica dos personagens do poema é um elemento que pode ser explorado de maneira significativa nas HQs. Silvana Salerno traz isso na tradução, compondo um Ulisses que é uma figura complexa, moldada não apenas por suas aventuras físicas, mas também por seus dilemas morais e emocionais. A Odisseia em Quadrinhos, em suas nuances didáticos e diletantes, tem a capacidade de apresentar os sentimentos, dúvidas e transformações internas do protagonista por meio da linguagem visual e textual, permitindo uma conexão mais íntima entre o leitor e o protagonista. A luta de Ulisses contra seus próprios demônios, sua lealdade à família e sua busca incessante por identidade e lar são temas universais que ressoam com o público contemporâneo, numa história que aborda questões profundas sobre a condição humana, como a luta pela sobrevivência, as adversidades da vida e a busca pela sabedoria e virtude, temas que são atemporais e podem transitar facilmente entre gerações, tornando-se particularmente relevantes em uma era de mudanças rápidas e constantes, por isso, constantemente em retorno para o nosso cotidiano.
Zeus, por aqui, é menos impiedoso, traduzido para demonstrar maior piedade pelo herói que tem suas virtudes, mas está longe de ser perfeito. A versão também opta por delinear, de maneira mais abrangente que outras publicações, a saga de Telêmaco. Tudo isso, em meio ao processo de estabelecimento do verde como tom predominante da paleta de cores. A história da Odisseia, como já delineado em outros textos por aqui, é repleta de simbolismos que remetem à busca do herói, à jornada e às transformações que ocorrem ao longo desse percurso. Na representação visual, por sua vez, os tons verdes, em particular, podem adquirir significados profundos dentro desse contexto. Não estão dispostos aqui aleatoriamente. Vou explicitar mais, venham comigo.

Os tons verdes estão intimamente associados à natureza, à renovação e ao crescimento, assim como à ambivalência entre vida e morte. Na HQ essas cores são utilizadas para representar a vasta relação de Odisseu com o mundo natural que o rodeia. O mar, fundamental na jornada do herói, pode ser retratado com um verde profundo, simbolizando tanto a beleza serena quanto os perigos ocultos que ele representa. Esse uso do verde no ambiente marinho sugere que a jornada do protagonista não é apenas uma viagem física, mas também uma análise de sua psique, onde cada onda e cada tempestade refletem os conflitos internos do personagem. Além disso, a vegetação e a terra natal de Ulisses, Ítaca, podem ser retratadas em diversas nuances de verde, enfatizando a importância da conexão com a terra e a nostalgia pela casa. A representação de Ítaca com uma paleta verdejante evoca um senso de esperança e de acolhimento, contrastando com os desafios esverdeados que o herói enfrenta em sua jornada. O verde, nesse sentido, se torna um símbolo da resistência e da vontade de retornar ao lar, reforçando a ideia de que a busca por identidade e pertencimento é uma constante na experiência humana.
Entretanto, o verde também pode aludir a aspectos mais obscuros da natureza humana. Vejamos: a cor pode ser utilizada para retratar os seres mitológicos e as situações desafiadoras que ele encontra, como a sedução das sereias ou os perigos da ilha de Circe. Nesses casos, o verde pode sugerir um sentido de ilusão ou de engano, representando tanto a atração quanto os riscos associados a essas experiências. Isso proporciona uma camada de complexidade à narrativa, mostrando que as belezas da jornada também carregam consigo armadilhas e desafios a serem superados. Outro aspecto a ser considerado é o simbolismo do conselho e da sabedoria que Ulisses busca ao longo de sua jornada. O verde pode ser utilizado em personagens que oferecem orientações ou que simbolizam crescimento espiritual, como as deidades femininas que aparecem na obra. Cores suaves e verdes podem transmitir uma sensação de paz e reflexão, sugerindo que o conhecimento e a compreensão são essenciais para superar os obstáculos. É o que nós leitores, ao longo das 112 páginas dessa tradução, encontramos.
Outro elemento estético, além do flashback utilizado na abertura, algo menos comum em publicações que procuram tornar a jornada de Ulisses em traduções um relato linear e mais simples, é a questão da movimentação, algo também presente em outros materiais, mas aqui traçado de maneira muito especial, como mencionado anteriormente. Ao mesclar texto e imagem, um dos aspectos mais fascinantes dessa forma de arte é a movimentação, que não se limita apenas à ação dos personagens, mas envolve uma série de elementos que contribuem para a fluidez da leitura e para a emoção que a obra transmite. Os quadrinhos têm a capacidade de condensar o tempo e o espaço, permitindo que os leitores percorram diferentes momentos da narrativa em páginas ou painéis criados com um ritmo próprio. Por meio de técnicas como o uso de linhas de movimento, onomatopeias e expressões faciais, os artistas conseguem transmitir a velocidade e a intensidade das ações. A utilização de linhas dinâmicas por aqui sugere movimento e energia, nos levando a sentir a ação quase que palpavelmente. Essas informações visuais sobre a movimentação ajudam a criar uma experiência imersiva, onde o leitor se sente parte da ação. Para iniciados na Odisseia, ótimo. Para quem não a conhece, uma boa iniciação.

É preciso destacar, caro leitor, que além da função narrativa, a estética da movimentação em quadrinhos é fundamental para a identidade do estilo do artista. Apesar de experiente, Jefferson Costa possui menos publicações que o merecido, ao menos conforme as pesquisas realizadas logo após o acesso ao material que ele assina. Mesclando o introspectivo, o “dramático” e o épico em sua tradução, o autor leva em consideração outro aspecto importante: a composição do painel e o uso do espaço. A disposição dos personagens e o ângulo das cenas podem influenciar a percepção do movimento, por isso, Odisseia em Quadrinhos traz painéis maiores, aqueles que podem ser utilizados para destacar uma ação dramática, enquanto os painéis menores representam movimentos rápidos e sequenciais, criando um efeito quase cinematográfico. A transição entre os painéis também é crucial, pois nós leitores geralmente somos levados a nos conectar com os eventos e a interpretar o ritmo da ação a partir desses cortes.
Além disso, para encerrarmos, a movimentação não se restringe apenas à ação física, mas também se relaciona com a dinâmica emocional dos personagens. As expressões faciais e as posturas corporais são cruciais para comunicar sentimentos, permitindo que o leitor compreenda as nuances da narrativa de maneira visual. Uma simples mudança na posição de um personagem ou um olhar mais intenso pode carregar uma carga emocional que dialoga diretamente com a ação que se desenrola na página. Ulisses, Telêmaco, Penélope e os demais personagens estão todos delineados na tradução com traços retos, expressões de caráter assimétrico, num estilo diferente de outras versões conferidas ao longo de minha jornada em torno das transformações da poesia homérica em imagens. Em linhas gerais, a função e a estética da movimentação nos desenhos elaborados em Odisseia em Quadrinhos são elementos que contribuem para a construção da narrativa, a identificação do estilo artístico e a experiência do leitor.
Odisseia em Quadrinhos (Brasil, Março de 2010)
Roteiro: Silvana Salerno
Arte: Jefferson Costa
Editora: FTD
Páginas: 112