Uma nova biografia lançada na Lituânia revela a trajetória do Cardeal Sigitas Tamkevičius na luta contra a perseguição religiosa da União Soviética. O livro narra como o religioso liderou publicações clandestinas, sobreviveu a interrogatórios agressivos da KGB e enfrentou anos de trabalhos forçados em campos de concentração e no exílio na Sibéria até a conquista da liberdade em 1988.
Como funcionava a publicação clandestina criada pelo cardeal?
Em 1972, Sigitas Tamkevičius fundou a Crônica da Igreja Católica na Lituânia. O objetivo era registrar, de forma estritamente factual, as prisões de fiéis, o confisco de bens religiosos e as tentativas soviéticas de controlar a fé alheia. Os relatórios eram datilografados em segredo e microfilmados. Esses negativos eram escondidos em objetos comuns, como capas de livros ou lanternas, e enviados para o Ocidente. Lá, o conteúdo era traduzido e divulgado por rádios internacionais, desmentindo a propaganda soviética de que havia liberdade religiosa por trás da Cortina de Ferro.
De que maneira a KGB tentou extrair informações do religioso?
Durante sua prisão em 1983, o então padre Tamkevičius foi submetido a intensas pressões psicológicas. Em um dos episódios mais dramáticos relatados na biografia, ele recorda ter recebido chá e biscoitos de um interrogador. Após beber o líquido, ele perdeu a consciência por cerca de oito horas, acordando tonto e sendo questionado com raiva sobre documentos do seminário clandestino. Ele acredita que foi dopado pelos agentes secretos, mas a estratégia falhou, pois a fúria dos oficiais indicava que ele não revelou nenhum segredo enquanto estava sob o efeito da substância.
Como era a rotina de trabalho nos campos soviéticos?
Condenado a regime estrito nos Montes Urais, Tamkevičius enfrentou condições severas. Sua primeira função foi descascar batatas em águas quase congeladas, tarefa que temia prejudicar sua saúde permanentemente. Depois, atuou na metalurgia recolhendo sobras de tornos. A alimentação era baseada em sopas ralas e peixes excessivamente salgados que podiam estar guardados há anos. Com o tempo, ele foi designado para a cozinha do campo, onde usava sua criatividade para tratar e fritar os peixes à noite, tentando garantir uma refeição minimamente digna para os outros prisioneiros.
Qual foi o impacto dessa experiência na visão de mundo do cardeal?
Para Tamkevičius, os mais de cinco anos em cativeiro foram um período de profunda reflexão sobre a natureza humana. Ele observou como a ausência de princípios morais e espirituais levava ao egoísmo e à ganância dentro das prisões. Ao questionar a si mesmo sobre o que o levou àquele sofrimento, concluiu que sua prisão era resultado direto de seguir sua consciência e não comprometer sua fé diante da opressão. Ele foi libertado em 1988, pouco antes de a Lituânia restaurar sua independência em 1990, tornando-se uma voz fundamental para a história da resistência católica.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.