- Author, Jessica Parker
- Role, Correspondente da BBC News em Berlim
- Reporting from, Querfurt, Alemanha
- Published
Tempo de leitura: 7 min
Um partido que quer cortar o financiamento da arte “anti-alemã” e ensinar menos sobre Hitler às crianças, como parte de uma agenda “patriótica”, poderá em breve chegar ao poder em um Estado da Alemanha.
Em seu manifesto, a legenda descreve a cultura da memória alemã — como são chamadas em português as políticas e práticas educacionais usadas para manter viva a lembrança dos crimes cometidos durante o nazismo no país —como um “complexo de culpa”.
Trata-se de uma afirmação profundamente controversa em um país onde o enfrentamento dos crimes nazistas é visto há muito tempo como o alicerce moral da nação.
Num comício eleitoral na cidade de Querfurt, Gerd, de 70 anos, prendeu uma pequena bandeira alemã desfiada nas alças de sua scooter de mobilidade.
Não se pode “apagar” a história, diz o apoiador do AfD, mas “a Segunda Guerra Mundial não tem mais nada a ver conosco”.
Gerd acredita que é importante olhar tanto para o futuro quanto para a história anterior à era nazista, quando as terras de língua alemã eram conhecidas como um lugar de “poetas e pensadores”.

Caso chegue ao poder, a AfD quer mudar a forma como a história alemã é ensinada na Saxônia-Anhalt, um Estado localizado na região centro-leste do país.
O governo também se comprometeu a hastear a bandeira alemã todos os dias da semana nas escolas públicas e a preservar melhor os memoriais de guerra em homenagem aos soldados alemães.
A inteligência interna descobriu que a seção local do partido era antidemocrática e que seus objetivos eram permeados por uma “ideologia racista”. A AfD geralmente rejeita essas classificações como difamações politizadas.
O objetivo do partido é conquistar votos suficientes para obter a maioria parlamentar na Saxônia-Anhalt: um feito notável na política alemã.
As pesquisas indicam que tal centário é possível.
Caso o partido consiga essa vitória, assumiria o controle de serviços como cultura, policiamento e educação.
A proposta é alterar o currículo de história escolar, dando mais ênfase ao século anterior em relação ao conflitos catastróficos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial.
Hans-Thomas Tillschneider, idealizador do programa, afirmou que “é claro” que ainda haverá aulas sobre o Nacional-Socialismo, a ideologia política do partido comandado por Hitler, “mas em menor escala”.
Em declarações a um programa da emissora pública ARD no ano passado, ele resumiu seu plano como “mais Bismarck, menos Hitler”, referindo-se a Otto von Bismarck, o principal arquiteto da unificação alemã em 1871.

Figuras importantes da AfD já foram acusadas de tentar minimizar o capítulo mais sombrio da história alemã, em parte, segundo seus críticos, como forma de atrair seus apoiadores mais extremistas.
Em 2018, o ex-co-líder do partido, Alexander Gauland, comparou a era nazista a um “grão de cocô de passarinho”, enquanto, um ano antes, Björn Höcke, que lidera o partido no Estado da Turíngia, descreveu o Memorial do Holocausto de Berlim como um “monumento da vergonha”.
Na Saxônia-Anhalt, o homem que pode se tornar o primeiro governador estadual do AfD, Ulrich Siegmund, defendeu a agenda patriótica do partido, dizendo à BBC que era “a coisa mais normal do mundo” as pessoas se orgulharem de seu país.
“Queremos recuperar isso”, disse ele. “Temos uma história diversa, que remonta a centenas de anos, e queremos ensinar essa história em sua totalidade, com todos os seus altos e baixos, mas com orgulho e uma perspectiva positiva.”
Siegmund, um ex-vendedor de aromatizadores de ambiente de 35 anos, tornou-se uma estrela da AfD com seu estilo de campanha enérgico e uso inteligente das mídias sociais.
Em Querfurt, as pessoas faziam fila durante horas para tirar uma foto ou apertar a mão dele, enquanto ele alegremente autografava cópias de uma reportagem de capa da revista Der Spiegel que o declarava o “homem mais perigoso da Alemanha”.
O partido AfD tem rejeitado consistentemente as alegações de extremismo ou comparações com o nacional-socialismo.
Em 2024, houve novos apelos para a proibição do partido, depois de ter vindo à tona que figuras importantes — incluindo Ulrich Siegmund — estavam entre os presentes em uma reunião com o ativista austríaco de extrema-direita, Martin Sellner.
Sellner tem um passado neonazista que ele descreveu posteriormente como uma tolice da juventude.
Atualmente, ele é conhecido por defender o conceito de remigração: um termo cada vez mais vago, mas amplamente entendido como deportações em massa ou a remoção forçada de pessoas com histórico de migração.
O partido AfD insistiu que sua política de “remigração” seria legal e se concentraria na deportação, por exemplo, de criminosos e pessoas que estão no país ilegalmente.
Quando a BBC perguntou a Ulrich Siegmund se ele ainda mantinha contato com Sellner, ele disse que não o via desde o único encontro, que aconteceu em Potsdam, nos arredores de Berlim, em 2023.
Alguns críticos do partido afirmam categoricamente que os planos da AfD para a Saxônia-Anhalt carregam ecos do nacional-socialismo, incluindo a promessa de cortar o apoio financeiro à arte “anti-alemã”.
O regime nazista exercia um controle rígido sobre todas as esferas da vida cultural da Alemanha, notadamente exibindo obras que considerava inaceitáveis na “Exposição de Arte Degenerada” em 1937.
“Como alguém pode dizer que não é alemão o suficiente, e o que isso significa?”, pergunta Frank Martin Widmaier, diretor de um teatro local na cidade de Eisleben.
Assim como a maioria dos teatros na Alemanha, o teatro de Widmaier depende fortemente de financiamento estatal. Ele considera os planos da AfD vagos e ameaçadores.
“Isso é fazer propaganda nazista”, diz ele. “É para ameaçar as pessoas, para ameaçar as instituições.”
O partido AfD afirma que, embora a lei proteja a liberdade artística, o dinheiro dos contribuintes deve apoiar principalmente a arte que ajuda a cultivar uma identidade alemã.

Tudo isso faz parte do que a AfD promove como uma “mudança patriótica” que pode ajudar a “restaurar” a autoconfiança do país.
A controversa afirmação de que a cultura da memória na Alemanha — conhecida como Erinnerungskultur em alemão — criou uma crise de identidade prejudicial não é nova.
Mas a popularidade da AfD está dando novo fôlego à discussão, já que o partido lidera as pesquisas não apenas na Saxônia-Anhalt, mas em todo o país — embora com uma vantagem menos expressiva em nível federal.
Widmaier rejeita a noção de que a Erinnerungskultur equivale a um “complexo de culpa”.
“Você não precisa se sentir culpado”, diz ele, especialmente quando se fala das gerações que nasceram depois da Segunda Guerra Mundial.
“Mas você precisa lidar com tudo isso para que nunca mais aconteça. Isso faz parte do nosso DNA na Alemanha.”
As eleições na Saxônia-Anhalt representam um momento potencialmente decisivo para a Alemanha, em vários aspectos.
Não menos importante, a formação de um governo da AfD marcaria a primeira vez que um partido de extrema-direita deteria um poder significativo na Alemanha no período pós-guerra.
Seria também o primeiro teste real da agenda patriótica do partido que, para os seus críticos, camufla um revisionismo perigoso.