Crédito, Cortesia da família Pérez Paz
- Author, Leire Ventas
- Role, Correspondente da BBC News Mundo em Los Angeles
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Tempo de leitura: 8 min
O “sonho americano” de Nixon Pérez Paz e Glendy González de la Cruz terminou em um canavial no sul da Guatemala.
Foi lá que os corpos dos dois foram encontrados, com ferimentos causados por tiros, em 21 de julho.
Havia pouco mais de um ano que Pérez Paz, de 43 anos, havia sido deportado dos Estados Unidos. E fazia apenas um mês que González, de 25, decidira voltar ao seu país natal com as três filhas do casal para se reunir a ele e retomar a vida em família.
Ao lado dos corpos, a polícia encontrou a filha mais nova, Giovanni, de 14 meses, viva, mas gravemente desidratada.
“É assim que muitos de nós, imigrantes nos Estados Unidos, tememos acabar”, disse à BBC News Mundo uma amiga do casal chamada Liliana, que preferiu ser identificada apenas pelo primeiro nome.
“Vivemos com o medo de sermos detidos e separados dos nossos maridos, dos nossos filhos, ou de sermos devolvidos ao país perigoso do qual fugimos”, acrescentou.
Detenção e deportação
Em 2019, eles deixaram a Guatemala em busca, nos Estados Unidos, de uma alternativa à pobreza e à violência. Primeiro, Nixon migrou, cruzando a fronteira com o México de forma irregular. Meses depois, Glendy o seguiu, levando a filha do casal na época, Marisol.
Após uma breve passagem pelo Texas, encontraram estabilidade em Overland, uma cidade tranquila de cerca de 15 mil habitantes no Estado do Missouri, no Meio-Oeste dos EUA.
Lá, tiveram a segunda filha, enquanto Pérez Paz trabalhava como telhadista e González alternava empregos em empresas de embalagem de frutas, engarrafadoras e outras fábricas.
Em março de 2021, o irmão dele, Rolando Pérez Paz, também se juntou à família, como contou à BBC News Mundo.
“Vários agentes desceram de um veículo sem identificação e nos cercaram”, lembra Rolando Pérez Paz, por telefone, da Guatemala.
Depois de obrigá-los a sair da caminhonete de trabalho, os agentes colocaram algemas e correntes em seus tornozelos. Em seguida, os levaram primeiro para um centro de detenção e depois para a cadeia do condado de Phelps.
“Eles disseram que estávamos sendo presos por termos entrado de forma irregular no país e que seríamos deportados”, conta Pérez Paz, confirmando que nem ele nem o irmão tinham status migratório legal nos Estados Unidos.

Crédito, Bloomberg via Getty Images
Questionado pela BBC News Mundo, o ICE confirmou a detenção.
“Nixon Pérez Paz, um imigrante em situação irregular da Guatemala com antecedentes criminais, foi preso durante uma operação direcionada de fiscalização migratória”, diz a mensagem atribuída a um porta-voz da agência e enviada por e-mail à BBC News Mundo.
“Ele havia sido condenado duas vezes por dirigir sob efeito de álcool em Overland, Missouri — uma em 2020 e outra em 2024”, prossegue o texto. “Recebeu o devido processo legal, teve uma ordem final de deportação emitida em 21 de abril de 2025 e foi deportado para a Guatemala em maio daquele ano.”
Um mês depois, o irmão dele também foi deportado.
“Continuei tentando recorrer da minha situação com a ajuda de uma organização, mas não teve jeito”, lamenta Rolando Pérez Paz.
Grávida novamente, Glendy González de la Cruz permaneceu em Overland, onde deu à luz a terceira filha do casal um mês depois.
“Sozinha, responsável por sustentar a família, Glendy lutou durante um ano inteiro para conseguir chegar ao fim do mês”, escreveu a organização Missouri Workers Center (MWC) em suas redes sociais.

Crédito, Cortesia da família Pérez Paz
A guatemalteca colaborava com esse grupo, defendendo os direitos de imigrantes por meio do comitê organizador, chamado Fuerza.
“Glendy começou a participar das reuniões do Fuerza três semanas após dar à luz. Apesar de ter dois empregos, ela comparecia, levava novos integrantes, mesmo quando via seu mundo desmoronar”, relembra o Missouri Workers Center em sua publicação.
“Em junho, para proteger as filhas e manter a família unida — e com medo de perder a guarda das meninas — Glendy tomou a difícil decisão de voltar para a Guatemala, apesar de ter uma audiência de seu processo de asilo marcada para 2027”, acrescenta a organização. A BBC News Mundo, no entanto, não conseguiu confirmar essa informação de forma independente.
Assim, a família Pérez González passou a integrar o número crescente de guatemaltecos deportados dos Estados Unidos desde a chegada de Donald Trump à Presidência, em janeiro de 2025, com a promessa de realizar “a maior operação de deportação da história do país”.
Neste ano, a Guatemala recebeu 38.720 deportados, segundo os dados mais recentes do Instituto Guatemalteco de Migração (IGM) — um aumento de 47% em relação ao mesmo período do ano passado. Mais de 90% dessas pessoas foram deportadas dos Estados Unidos, e o restante, do México.

Crédito, Polícia Nacional Civil de Guatemala
De volta ao país natal, a família se estabeleceu no município de San Andrés Villa Seca, uma área rural do departamento de Retalhuleu, a 175 quilômetros a oeste da capital, Cidade da Guatemala.
A última vez que Nixon e Glendy foram vistos com vida foi em 20 de julho, quando saíram de casa para resolver alguns assuntos.
“Quando vimos que eles não voltavam, comunicamos o desaparecimento à polícia e às autoridades da comunidade”, lembra Rolando Pérez Paz. “Graças a Deus, as comunidades daqui se dispuseram a ajudar.”
No dia seguinte, alertados pelo choro de um bebê, moradores encontraram os corpos do casal em um canavial próximo.
Ao chegar ao local, segundo confirmou a Polícia Nacional Civil (PNC) à BBC News Mundo, os agentes encontraram as vítimas com as mãos amarradas para trás e amordaçadas, sem seus pertences e com possíveis ferimentos de bala no pescoço e na cabeça.
Na área, a polícia também encontrou cápsulas de munição, uma toalha e um tênis branco e rosa da marca Champion, que foi recolhido como prova. Uma motocicleta vermelha também foi apreendida no local.
A PNC não respondeu ao questionamento da BBC News Mundo sobre se o casal havia sido alvo de episódios de violência ou feito denúncias de ameaças anteriormente. Segundo a imprensa local, a polícia trabalha em conjunto com o Ministério Público para esclarecer o caso.
‘Este caso mostra o quanto o sistema está falido’
A taxa de homicídios na Guatemala passou de 16,1 por 100 mil habitantes em 2024 para 17,65 em 2025 — mais que o dobro da média mundial, segundo o Centro de Investigações Econômicas Nacionais.
Embora o primeiro semestre de 2026 tenha registrado uma queda em relação ao mesmo período do ano anterior, os homicídios voltaram a aumentar em junho.
Especialistas atribuem essa violência principalmente às disputas de poder entre diferentes gangues, além do narcotráfico.
No início do ano passado, uma onda de violência iniciada por motins simultâneos em três presídios evidenciou o poder que essas organizações ainda exercem no país, especialmente a Barrio 18, que disputa o controle das ruas da capital e de outras cidades com sua rival histórica, a Mara Salvatrucha (MS-13).
Na época, o presidente Bernardo Arévalo decretou estado de sítio, acusando “máfias político-criminosas” de tentarem desestabilizar um governo cercado pela violência e por uma crescente tensão institucional.

Crédito, AFP via Getty Images
A identidade dos responsáveis pela morte de Glendy González e Nixon Pérez, em Retalhuleu, e a motivação do crime ainda são desconhecidas.
Seja quem for o culpado, “tiraram de mim o que eu mais amava”, lamenta hoje Rolando Pérez Paz.
“Meu irmão e minha cunhada eram pessoas que queriam trabalhar, que queriam lutar”, afirma. “Nos últimos meses, vivíamos com medo constante das operações de fiscalização, de sermos detidos”, reconhece.
“Agora, o que não sai da minha cabeça é que, se a imigração não tivesse prendido meu irmão, talvez minha cunhada ainda estivesse viva e as meninas não estivessem passando por essa dor.”
Para ajudar com o sustento e a educação das três meninas, que ficaram sob os cuidados de familiares na Guatemala, está sendo realizada uma campanha de arrecadação de fundos na plataforma GoFundMe.
No domingo, também foi organizada uma vigília em frente à prefeitura de Overland para homenagear a memória do casal.

Crédito, MWC
“Este caso mostra o quão falido está o sistema”, diz à BBC News Mundo Zachary Mueller, estrategista da organização sem fins lucrativos States at the Core, que promove a democracia inclusiva e trabalha com entidades como o Missouri Workers Center (MWC).
“Isso desmonta a ideia de que essas deportações tenham algo a ver com segurança pública. Agora há duas pessoas mortas e três meninas pequenas que perderam os pais para o resto da vida.”