Crédito, Reuters
- Author, Ahmed Nour & Stephanie Hegarty
- Role, BBC Arábe e Serviço Mundial da BBC
Published
Tempo de leitura: 4 min
A BBC News Árabe encontrou dezenas de publicações no Facebook convocando as pessoas para uma segunda tentativa de travessia em meados de agosto, incluindo anúncios de equipamentos para natação à venda. Seis desses grupos tinham mais de 100 mil seguidores.
A BBC enviou uma lista dos grupos à Meta, empresa controladora da plataforma, e, duas horas depois, os grupos foram removidos.
Também encontramos no Instagram, que pertence à Meta, perfis com dezenas de milhares de seguidores incentivando as pessoas a fazer a travessia naquela data. Depois que alertamos a plataforma sobre esses perfis, a maioria deles também foi removida.
A Meta disse à BBC: “Temos uma equipe monitorando a situação em Ceuta em tempo real e removendo conteúdos que violam nossas políticas — incluindo aqueles que oferecem, facilitam ou procuram serviços de tráfico de migrantes.”

Tanto o Facebook quanto as autoridades marroquinas precisam fazer mais para “combater campanhas online que incentivam jovens a tentar travessias perigosas e colocar suas vidas em risco”, afirma Mohamed Ben Aissa, presidente do Observatório Norte de Direitos Humanos — organização de defesa dos direitos dos migrantes com sede no lado marroquino da fronteira.
“Remover alguns grupos da plataforma não é suficiente, porque existem muitos outros. O Facebook deveria ter uma moderação mais rigorosa para identificar esse tipo de atividade”, diz.
Ele acredita que uma nova travessia seria difícil porque as autoridades espanholas e marroquinas estão cientes dos planos e já se prepararam. Mas alerta que qualquer tentativa pode provocar confrontos fatais entre migrantes e forças de fronteira, como já ocorreu no passado.
A BBC procurou as autoridades marroquinas para comentar o caso, mas não recebeu resposta.
O Ministério do Interior da Espanha disse à BBC que está “monitorando essa questão nas redes sociais”, em coordenação com as autoridades marroquinas, e que “todos os recursos necessários serão mobilizados para lidar com qualquer situação que possa surgir nos próximos dias”.

Crédito, Atlas via Reuters
A BBC analisou dez grupos no Facebook. O maior deles tinha 191 mil membros, e o menor, 3 mil. A maioria havia sido criada muito antes da travessia de julho e compartilhava há meses — ou até anos — dicas sobre como cruzar ilegalmente a fronteira.
Nas semanas que antecederam a travessia, os grupos divulgaram informações falsas de que a fronteira estaria aberta.
Em uma publicação compartilhada repetidamente nesses grupos antes dos eventos de julho, uma usuária que dizia ter 17 anos e não saber nadar pediu orientações sobre como atravessar a fronteira.
Mesmo após a travessia de julho, usuários continuaram respondendo à publicação, com um deles incentivando que “todos fossem” no mesmo dia de agosto. “Todos nós atravessaremos, se Deus quiser.”
Os grupos continuaram a disseminar informações falsas sobre o sistema de imigração da Espanha.
Uma das publicações afirmava, incorretamente, que 5 mil pessoas que atravessaram em julho haviam recebido o direito de permanecer no país. O governo de Ceuta informou que entre 3 mil e 5 mil pessoas que fizeram a travessia em julho ainda estão no território, mas a Espanha não declarou que elas têm direito de permanecer.
Outros grupos anunciavam equipamentos para pessoas que planejavam fazer a travessia pelo mar. Uma publicação de 5 de agosto, por exemplo, oferecia uma scooter aquática — um dispositivo com hélice portátil que impulsiona a pessoa pela água. Algumas publicações direcionavam usuários para pequenos grupos privados no WhatsApp, onde as discussões continuavam.
Uma minoria dos usuários nos grupos do Facebook alertava contra a travessia e aconselhava outras pessoas a desconfiar de rumores sobre a fronteira. Outros compartilhavam publicações sobre pessoas que morreram em julho.
A BBC também analisou 12 perfis no Instagram que compartilhavam vídeos incentivando a travessia, a maioria com dezenas de milhares de seguidores. Assim como no Facebook, grande parte dessas contas existia antes da travessia de julho e continuou publicando conteúdos em agosto.
Foram encontradas dezenas de publicações no Instagram com imagens da fronteira de Ceuta, a data marcada para agosto e a bandeira espanhola. Uma delas teve mais de 2.200 curtidas.
Procurada pela BBC, a Meta afirmou que trabalha com verificadores de fatos independentes para identificar conteúdos que considera falsos e reduzir sua distribuição, fazendo com que menos pessoas os vejam.
Reportagem adicional de El Mahdi El Idrissi