A Atlas Motion, startup de motores para drones e robôs, está saindo do modo stealth com US$ 11,5 milhões em aportes e uma promessa de impressionar: criar novos motores, com a ajuda de inteligência artificial, praticamente no tempo que você leva para fazer um almoço. Isso causa algum ceticismo, mas a equipe fundadora está completa de ex-funcionários da Tesla, da Mitre, da Shield AI e da Mach Industries. Além disso, a empresa já está entregando 10 mil motores por mês, marca que deve saltar para 40 mil mensais até dezembro, segundo o CEO Christian Mochen.
A empresa também tem como meta trazer a cadeia de suprimentos de motores para drones e robôs de volta para o controle americano.
Mas a grande aposta da startup é a Vector, sua IA proprietária de engenharia. A ferramenta foi inspirada na plataforma Odin, da Tesla, que orquestra os testes automatizados dos carros da montadora ao longo da linha de produção.
“Quando estamos em uma reunião com clientes, conseguimos gerar um novo projeto de motor para eles ali mesmo, na primeira conversa”, contou Mochen, cofundador e CEO da Atlas Motion, em entrevista a um podcast. “Isso é algo totalmente inédito nesse mercado.”
Se você perguntar a um engenheiro quanto tempo leva para projetar um motor elétrico do zero, a resposta vai variar de semanas a meses. Equipes multidisciplinares trabalham em paralelo: um especialista em eletromagnetismo de um lado, um engenheiro mecânico do outro, além do pessoal de suprimentos, fabricação e logística. Todos colaborando para entregar um projeto funcional, que resolva o problema do cliente e que seja realmente viável de produzir em massa. Christian Mochen garante que sua empresa faz isso em 20 minutos.
A Atlas surge com essa nova ideia e uma tese bem arrojada para o complexo mercado de hardware: a de que o mesmo comando que a IA está dando no desenvolvimento de software também possa acelerar o projeto e a fabricação de componentes físicos de alta performance e missão crítica. Ou seja, os motores e atuadores que fazem drones voarem, robôs andarem e sistemas autônomos se moverem, além de praticamente qualquer outro componente físico, podem ser desenvolvidos na mesma velocidade acelerada dos softwares.
A plataforma: orquestração, e não substituição
O coração da Atlas Motion é o sistema impulsionado por IA batizado de Vector. Mochen faz questão de enfatizar que a Vector funciona como um acelerador, e não como um substituto para a engenharia humana. “A IA não está substituindo os engenheiros”, diz ele. “Ela só está coordenando uma tonelada de decisões cruciais ao longo de todo o processo de engenharia em velocidade recorde.”
Segundo Mochen, a Vector absorve todo o contexto e os requisitos do projeto que você quer construir, cria um ambiente de simulação para testar esse design nas mesmas ferramentas que os engenheiros usariam manualmente e gera de forma automática o pacote de fabricação necessário para a linha de produção. O projeto é finalizado com uma média de 10 minutos, precisando apenas de pequenos ajustes finos no final, com o resultado refletindo a vida real com extrema fidelidade.
“Hoje, estamos vendo uma margem de confiança de 99% entre o que a IA projeta e o hardware que sai da fábrica”, revelou ele.
E a velocidade não para por aí. A Atlas afirma que consegue levar um novo projeto para a produção em escala em apenas seis semanas, o que se opõe ao padrão da indústria, que costuma demorar até seis meses. Com 20 minutos para projetar contra dois meses, e seis semanas para botar na fábrica contra seis meses, o resultado final começa a parecer menos com uma fornecedora tradicional de peças e mais com uma empresa de software lançando atualizações.
Na época em que trabalhou na Tesla, Mochen lidava direto com o Odin, o sistema que gerenciava os auto-testes na linha de montagem. Já na Atlas, a ideia foi levar esse conceito ainda mais longe.
“Queríamos que o estado físico do componente fosse a variável primária do sistema”, explica Mochen. A equipe colocou capacidade de processamento nas próprias ferramentas da cadeia de fabricação e conectou a Vector de ponta a ponta. Assim, o sistema entende cada projeto, guia a peça na produção e coleta dados reais do chão de fábrica para ficar cada vez mais inteligente com o tempo.
“Fazer um motor é como fazer sushi”, compara o CEO. “Fazer sushi não é a coisa mais complexa do mundo e nem leva tantos ingredientes assim. Mas quando o sushi é ruim, você percebe na hora. O que nosso software faz é nos permitir entregar um sushi de altíssima qualidade e na velocidade da luz.”
Arquitetos, e não engenheiros
Essa virada de chave muda completamente o papel das pessoas na empresa. Na Atlas, os engenheiros nem sequer são chamados assim.
“Nós nos chamamos de arquitetos”, diz Mochen. “Nossos profissionais pensam muito no nível do sistema como um todo. Eles projetam a partir dos princípios básicos, mas a parte pesada e ‘braçal’ do design fica por conta do software. O trabalho deles é, na verdade, arquitetar os comandos e entradas para criar um produto super-robusto.”
A mudança reflete uma tendência que vem ganhando força na nova economia de IA, onde os cargos ganham nomes como criadores, orquestradores e construtores, e os profissionais passam a gerenciar frotas de agentes e modelos de IA em vez de botar a mão na massa em cada tarefa.
O grande diferencial aqui, é ver essa transformação desembarcar em peças físicas de alta performance, e não apenas em linhas de código.
A lógica financeira que a Atlas está perseguindo é o custo de repetição praticamente zero. No mundo do fornecimento de peças, o custo de reconfigurar uma linha de montagem para criar uma variação de produto costuma ser muito caro, o que obriga os fornecedores a se adaptarem em catálogos pré-definidos de peças (os chamados SKUs).
A Atlas defende que a combinação de matérias-primas padronizadas com uma linha gerida por software reduz brutalmente esse custo de transição.
“Estamos jogando o custo real de teste e mudança para o mais perto possível de zero, o que nos permite operar de um jeito que fornecedores tradicionais jamais conseguiriam”, garante Mochen. Segundo ele, é por isso que clientes de lugares como Índia, Polônia e continente africano estão comprando da Atlas mesmo com a China sendo uma opção: eles entregam mais velocidade, flexibilidade e um projeto feito sob medida para a necessidade do cliente.
Quem fabrica o que move o mundo
A história da Atlas Motion também tem tudo a ver com soberania na cadeia de suprimentos, destaca Mochen.
A grande maioria dos drones e robôs do mundo hoje se move graças a motores e atuadores fabricados na China. Para a Atlas, essa dependência de um único fornecedor é uma das vulnerabilidades mais graves dos Estados Unidos atualmente.
“Na era da IA física, acreditamos que o próximo grande desafio do nosso setor será trazer essa capacidade de volta para casa e garantir essa autonomia”, pontua.
Mas a startup não quer ficar dependendo de vantagens governamentais para fechar a conta. “Não queremos depender de subsídios do governo para ter um modelo de negócio rentável”, afirma Mochen. A empresa também está lançando uma loja online para que desenvolvedores independentes consigam comprar motores de padrão industrial direto do site, sem precisar passar pelo martírio da burocracia de compras corporativas.
Um detalhe importante: embora o projeto de engenharia e a prototipagem fiquem em Long Beach, na Califórnia, a fabricação em massa acontece nas Filipinas. Mochen destaca que o país serve de blindagem, pelo fato de as Filipinas serem aliadas históricas dos EUA e contarem com credenciamentos comerciais. Contudo, importar produtos prontos ainda deixa a startup exposta a taxas alfandegárias e a pelo menos uma parte da complexidade geopolítica que ela promete resolver.
Os números que saltam aos olhos
Os números apresentados pela Atlas Motion impressionam. A empresa afirma que já produz 10 mil motores por mês e espera passar dos 40 mil mensais até dezembro. Aberta oficialmente em fevereiro, a startup entregou seu primeiro motor em menos de 60 dias e garante que toda a sua capacidade de produção atual já está vendida.
Por outro lado, a Atlas não divulgou o nome de nenhum cliente até o momento. Sendo assim, a demanda ainda não pode ser verificada de forma independente.
Mas uma coisa é indiscutível: os caras estão pisando fundo.
“Amo ver o mercado de hardware rodando na velocidade do software”, comemora Mochen. “Acho que esse será o divisor de águas nos próximos cinco a dez anos.”
A rodada de investimentos de US$ 11,5 milhões foi liderada pelo fundo Greycroft, com participação da Also Capital, Enea Capital, Mana Ventures e Sunflower Capital, além dos investidores-anjo Jai Malik (CEO da AMCA) e Scott Sanders (CGO da Forterra).