Um sertão difícil de terminar: Rosa e as formas da nação – Revista Cult

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Aos setenta anos, Grande sertão: veredas continua sendo um romance difícil de terminar. Em 2026, uma rara concentração de efemérides – setenta anos de Grande sertão: veredas e Corpo de baile, oitenta de Sagarana, noventa de Magma – multiplicou as ocasiões de retorno a Guimarães Rosa. Novas edições, estudos, traduções e debates fizeram de 2026 menos um ano de celebração retrospectiva que de abertura de novas frentes de leitura. A variedade desses retornos talvez diga mais que seu número.

A Cult deu forma a essa variedade em uma edição dedicada a Grande sertão: veredas. Ao reunir tradutores e críticos, a revista abriu conversas sobre a circulação do romance entre línguas e territórios e sobre as leituras que continuam a se produzir em torno de Rosa. As novas versões em inglês, alemão e árabe fazem o romance chegar a outros leitores e devolvem perguntas à sua história de leitura. Retornar a Grande sertão: veredas é encontrar um livro já modificado pelos caminhos que percorreu e pelas perguntas que lhe foram dirigidas.

Entre as questões que essa longa circulação mantém abertas está a maneira como o sertão se constitui como diferença. Por caminhos distintos, Janaína Amado, Candice Vidal e Souza e Sidney Valadares Pimentel, entre outros, examinaram o sertão nas formas históricas de imaginar o espaço e a nação. Na imaginação brasileira, valores que puderam coexistir fizeram do sertão atraso a superar e origem a preservar, signo do arcaísmo e lugar de uma autenticidade nacional. É a partir desse campo de questões que pergunto: o que Grande sertão: veredas faz com essa diferença?

É por essa pergunta que chego à forma do romance. Grande sertão: veredas altera o estatuto de diferenças historicamente produzidas e particularizadas pela categoria de sertão ao fazê-las participar da produção do conhecimento. Formas de vida, linguagem e saberes assim marcados constituem matéria de conhecimento e integram os procedimentos que conferem inteligibilidade ao mundo narrado. Riobaldo conhece a partir das relações das quais participa: recompõe os nexos do acontecido, revê explicações e mantém sob interrogação as relações de causalidade, eficácia e responsabilidade.

O trabalho de recomposição dos nexos aproxima forma literária e questão política. Ao fazer da diferença uma condição da produção do conhecimento, o romance intervém na distribuição histórica da autoridade de conhecer. A pergunta pela nação pode então ser formulada nesses termos: como a produção da diferença se relaciona à distribuição da autoridade de conhecer a nação?

A diferença que diz a nação

Grande sertão: veredas constrói um espaço minuciosamente nomeado, cuja extensão não se deixa fixar. Riobaldo situa percursos, reconhece lugares e recompõe distâncias, enquanto afirma que “o sertão está em toda parte” e é “do tamanho do mundo”. A tensão entre precisão espacial e extensão indeterminada ganha alcance histórico porque “sertão” chega ao romance como uma categoria de diferenciação.

Na imaginação brasileira, a distância atribuída ao sertão foi também temporalizada. Sua inscrição como arcaísmo o situava aquém do país moderno, enquanto nesse mesmo espaço se procurava uma origem supostamente preservada das transformações históricas. Atraso e autenticidade puderam constituí-lo simultaneamente. O sertão guardaria aquilo que o presente deveria superar e aquilo que não poderia perder sem comprometer uma ideia de nacionalidade.

A simultaneidade das duas operações esclarece sua afinidade. A atribuição de valor ao sertão depende da própria marca que o particulariza. Celebrado como origem ou autenticidade, ele continua sujeito a relações que selecionam sua diferença e lhe conferem função numa imagem do país. A consagração participa, nesse sentido, de sua domesticação: inscreve a diferença em critérios de reconhecimento definidos por uma distribuição desigual da autoridade de classificá-la e conferir-lhe valor. O sertão pode ser investido da capacidade de revelar uma verdade profunda sobre o Brasil, enquanto a autoridade para reconhecer essa verdade permanece distribuída de maneira desigual.

Canudos permite observar essa temporalização no interior da própria composição rosiana. Em Grande sertão: veredas, Antônio Conselheiro comparece refratado na figura de Teofrásio, o velho “goiano-baiano”, “muito conselhante”, “homem no sistema de quase-doido, que falava no tempo do Bom Imperador”. A referência histórica não se conserva como correspondência direta: traços associados a Conselheiro entram na composição de uma personagem cuja caracterização articula diferença, autoridade religiosa e temporalidade. Teofrásio não pertence a um passado exterior ao mundo de Riobaldo. É nesse mundo que sua fala pode ser marcada como pertencente ao “tempo do Bom Imperador”. Sua caracterização permite observar como relações coexistentes numa mesma contemporaneidade podem receber tempos distintos.

A expressão “os outros da nação”, que formulei em Sertão dilacerado: Glauber Rocha e os outros da nação em interlocução com Rita Segato, procura apreender esse processo. A preposição da indica uma relação constitutiva: os outros da nação são produzidos nas mesmas relações históricas em que se constituem os contornos do nacional e se demarcam as diferenças que lhe são internas. Essas diferenças adquirem significado ao serem demarcadas e investidas de valores que lhes conferem lugares desiguais. “Outro” nomeia uma condição produzida por essas relações, e não uma diferença que as precederia.

A assimetria se manifesta na capacidade de particularizar. Certas experiências são constituídas por marcas que as distinguem como diferença, enquanto a posição a partir da qual essa diferença é nomeada está menos sujeita à marcação. A consagração não elimina essa assimetria: pode conservar a relação que particulariza.

Grande sertão: veredas inscreve no presente relações que certas narrativas da nação remetem ao passado ao temporalizar o sertão. A jagunçagem participa de relações vigentes de propriedade e mando, das quais retira condições para o exercício da força. Ao classificá-la como arcaica ou sobrevivência de outro tempo, essas narrativas atribuem a relações contemporâneas uma temporalidade que as particulariza diante do presente. O sertão expõe, assim, uma contemporaneidade constituída por relações às quais são atribuídos tempos desiguais.

A religião confere outra complexidade à questão. Em Grande sertão: veredas, a existência do diabo permanece sob interrogação porque dela depende a maneira como Riobaldo compreende sua própria história. O pacto se liga à passagem à chefia, e sua possível eficácia altera as relações entre poder, ação e responsabilidade que o narrador procura estabelecer. Aquilo que uma classificação temporal poderia fixar como superstição ou vestígio de arcaísmo integra, no romance, a matéria de pensamento: a pergunta pelo que existe e pode agir participa da investigação do acontecido.

A mudança é decisiva para o argumento. A domesticação do sertão consiste em constituí-lo como diferença nas próprias narrativas que produzem imagens da nação: atribuir-lhe tempos e valores implica distribuir desigualmente a autoridade para defini-los. Grande sertão: veredas altera essa distribuição ao fazer com que formas de linguagem e saber historicamente particularizadas participem da produção do conhecimento. Riobaldo conhece a partir das relações das quais também participa; sua autoridade não deriva de uma posição exterior a elas, mas do trabalho de estabelecer e rever nexos a partir de sua própria implicação.

A autoridade de Riobaldo possui condições históricas. O homem que narra ocupou posições distintas nas relações de mando que procura compreender: foi jagunço, exerceu a chefia e fala, posteriormente, como proprietário. Essa trajetória altera as condições a partir das quais interpreta o vivido. Sua interpretação pertence, assim, à história que procura compreender.

Os outros da nação designam, portanto, uma relação entre produção da diferença e autoridade. Essa relação alcança, em Grande sertão: veredas, a própria situação narrativa. Riobaldo interpreta sua experiência diante de um interlocutor urbano e letrado, a quem atribui um saber distinto do seu e cujo juízo solicita, mas é ele quem conduz a narração e estabelece as relações entre os acontecimentos. A assimetria entre os dois inscreve, assim, uma questão na própria forma narrativa: como se distribui, nessa situação, a autoridade de conhecer?

Conhecer em desenredo

O interlocutor a quem Riobaldo atribui saber e solicita juízo permanece sem voz textual. Sua presença sustenta uma assimetria social que assume, na narração, uma configuração particular: o homem urbano e letrado ocupa o lugar de uma autoridade reconhecida por Riobaldo, enquanto é o narrador quem seleciona os acontecimentos, estabelece relações entre eles e submete essas relações à interrogação. A forma narrativa distribui, por conseguinte, de maneira desigual, prestígio social e trabalho de conhecimento. A autoridade atribuída ao interlocutor opera como referência dentro de uma fala cuja elaboração pertence quase inteiramente a Riobaldo.

A voz de Riobaldo resulta de um trabalho de composição. As anotações de Guimarães Rosa permitem acompanhar aspectos desse procedimento: materiais recolhidos em situações e registros diversos são anotados, selecionados e reinscritos na elaboração literária, em vez de oferecerem um registro linguístico anterior à escrita que o romance simplesmente reproduziria. Essa composição interessa porque formas de linguagem e saber historicamente particularizadas pela categoria de sertão passam a integrar os procedimentos pelos quais Riobaldo interroga o acontecido e estabelece relações entre seus elementos.

O termo desenredo, retomado do conto homônimo de Tutameia, permite precisar uma operação própria desse conhecimento. No conto, Jó Joaquim intervém narrativamente sobre uma história já constituída; na leitura que proponho de Grande sertão: veredas, desenredo adquire uma determinação mais restrita. Riobaldo conhece os acontecimentos fundamentais de sua vida e reexamina os nexos pelos quais procura compreendê-los. A recomposição incide sobre as relações de causalidade, eficácia e responsabilidade que Riobaldo estabelece entre esses acontecimentos.

O pacto concentra essa operação. A ida às Veredas-Mortas, a posterior ascensão de Riobaldo à chefia e a derrota de Hermógenes pertencem à história conhecida pelo narrador. O que permanece sob exame são os nexos entre esses acontecimentos. A existência do diabo modificaria a atribuição de eficácia e responsabilidade, alterando o que pode ser atribuído à decisão e à ação de Riobaldo e o que dependeria de outra força. Retornar ao pacto significa, por isso, interrogar as relações entre uma decisão tomada, uma transformação experimentada e um poder que ele efetivamente veio a exercer.

Diadorim introduz uma dificuldade distinta. A revelação final modifica retrospectivamente a inteligibilidade de uma relação vivida sob outras condições de conhecimento. O saber adquirido depois permite a Riobaldo recompor as relações que atribui ao vivido, mas não modifica as condições sob as quais o viveu. O conhecimento posterior transforma a interpretação do acontecido, preservando a distância em relação às condições em que a experiência foi vivida.

Desenredo nomeia esse trabalho retrospectivo sobre os nexos do acontecido. Chamo de revisabilidade narrativa a possibilidade de recompor as relações pelas quais acontecimentos conhecidos adquirem inteligibilidade, preservando a diferença entre o saber posterior e as condições em que foram vividos. Os nexos estabelecidos produzem conhecimento sem adquirirem caráter terminal: sua força explicativa não os retira da possibilidade de novo exame.

A distância entre experiência e narração é também histórica. Riobaldo recompõe os nexos do vivido a partir de uma posição constituída por sua própria trajetória nas relações que narra. As condições de seu conhecimento retrospectivo pertencem, portanto, à história que procura compreender.

A questão dos outros da nação adquire, pois, uma consequência formal. A autoridade de Riobaldo se exerce a partir de uma posição constituída no interior das relações que procura compreender, sem conferir estabilidade definitiva aos nexos que estabelece. O desenredo conduz, desse modo, ao problema de sertão e narração sem identificar as operações dos dois planos. Se a narração de Riobaldo submete ao exame os nexos pelos quais o acontecido adquire inteligibilidade, cabe perguntar em que termos essa operação pode ser aproximada das narrativas pelas quais diferenças recebem lugar na constituição do nacional.

O comum sem equivalência

A pergunta pelos nexos que constituem o sertão como diferença retoma uma questão formulada em Sertão dilacerado, em alusão a Nation and Narration, de Homi Bhabha. Interessavam-me, ali, as narrativas pelas quais a nação relaciona diferenças no espaço e no tempo e, ao fazê-lo, participa da produção dos lugares que lhes atribui. O sertão ocupou uma posição persistente nesse trabalho. Determinadas narrativas da nação atribuíram-lhe uma distância que permitia remeter formas de vida a um passado e, simultaneamente, localizar nesse espaço uma origem supostamente preservada das transformações do país. Mesmo quando investiam o sertão de autenticidade, essas narrativas continuavam a particularizá-lo por meio de relações que definiam os termos de seu reconhecimento como expressão do nacional e distribuíam desigualmente a autoridade para reconhecê-lo como tal.

A narração participa da constituição dessa diferença ao converter relações entre território e tempo em formas de demarcação. Formas de vida contemporâneas podem ser remetidas a um passado, fazendo da simultaneidade histórica uma distância temporal. A temporalização não apenas situa o sertão numa sequência histórica: participa de sua particularização diante de um presente que, ao lhe atribuir outro tempo, constitui a si próprio como medida da contemporaneidade.

Grande sertão: veredas põe em questão os nexos que sustentam essa temporalização. Como já mencionei, relações remetidas ao passado operam no presente narrado e participam de sua constituição. A jagunçagem se articula à propriedade e às formas vigentes de autoridade; o mando que podia ser apreendido como sobrevivência histórica integra relações contemporâneas de poder. A questão incide, então, sobre as operações que permitem apreender como persistência de um passado relações produzidas numa mesma contemporaneidade, mediante a atribuição de tempos distintos.

Essa não coincidência permite precisar o que entendo por dilaceramento. O sertão participa da constituição do nacional e excede as formas que procuram circunscrevê-lo como atraso, origem ou autenticidade. Esse excesso não o situa fora das relações que o produzem como diferença: é nessas mesmas relações que o sertão participa da constituição das imagens da nação e excede as posições que lhe são atribuídas. A não coincidência é produzida, portanto, nas próprias relações pelas quais o nacional procura constituir-se.

A fórmula que empreguei em Sertão dilacerado – “o passado não passa e o presente não se estabiliza” – pode agora ser retomada a partir dessa não coincidência. O passado persiste porque relações contemporâneas continuam a ser diferenciadas pela atribuição de tempos desiguais. O presente, por sua vez, permanece aberto às disputas que podem conservar ou modificar essas demarcações. É a essa historicidade da inconclusão que se refere a expressão sertão por-vir: as relações que produzem o sertão como diferença não se encerram numa ordenação temporal definitiva e se redefinem nas disputas entre passado e presente.

Determinadas narrativas da nação relacionam diferenças e, ao fazê-lo, participam da produção dos tempos, lugares e valores que lhes são atribuídos. Em Grande sertão: veredas, Riobaldo reexamina as relações que estabelece entre acontecimentos conhecidos e as submete a novas configurações. A distinção entre essas operações permite aproximar formação nacional e forma literária a partir de uma pergunta: como os nexos estabelecidos em cada plano participam da inteligibilidade daquilo que relacionam? Desenredo designa, na leitura do romance, a recomposição retrospectiva desses nexos; dilaceramento, em outro plano, refere-se a não coincidência produzida nas relações pelas quais o nacional procura constituir-se.

A língua rosiana confere elaboração própria a esse problema. Interteixo, palavra de “Cara-de-Bronze”, em No Urubuquaquá, no Pinhém, associada ao ato de entretecer, já me serviu para pensar a composição literária de materiais provenientes de histórias e investidos de estatutos culturais distintos. A voz de Riobaldo se constitui nesse trabalho, no qual os materiais se modificam pelas relações que a escrita estabelece entre eles. Desenredo designa outra operação: a recomposição dos nexos pelos quais o acontecido adquire inteligibilidade narrativa. Os dois termos incidem, portanto, sobre dimensões distintas da forma: interteixo concerne ao trabalho de composição da linguagem; desenredo, às relações retrospectivas pelas quais Riobaldo procura conhecer o vivido.

A leitura de Silviano Santiago permite retomar a questão do conhecimento por outro caminho. Em “Uma revoada de vagalumes”, o “saber-vagalume”, elaborado a partir de “As margens da alegria”, caracteriza uma forma intermitente de saber, muitas vezes avizinhada ao ‘não-saber’. Ao final do ensaio, Silviano assinala que esse saber já não é endossado em Grande sertão: veredas. A observação impede estender ao romance, sem modificação, a forma de conhecimento elaborada a partir do conto e reabre uma pergunta que encontra o argumento deste ensaio por outra via: que forma de conhecimento se produz na narração de Riobaldo?

A extensão do relato oferece uma resposta possível. O narrador relaciona acontecimentos separados no tempo, retorna a explicações anteriores e as modifica à luz do que veio a saber. A amplitude desse movimento aumenta o alcance das relações que podem ser estabelecidas sem conferir a Riobaldo uma perspectiva exterior ao acontecido. Sua autoridade se exerce, portanto, no trabalho retrospectivo de estabelecer e rever relações a partir de uma posição constituída no interior da própria história que procura compreender.

As fórmulas rosianas sobre a extensão do sertão ganham, sob essa perspectiva, outra espessura. Quando “o sertão está em toda parte” e é “do tamanho do mundo”, sua extensão já não coincide com a geografia que deveria circunscrevê-lo. Relações historicamente particularizadas pela categoria de sertão excedem o espaço ao qual foram atribuídas e participam, além disso, da constituição do nacional em relação ao qual essa diferença foi produzida. A demarcação entre sertão e nação já não pode, portanto, apoiar-se numa correspondência estável entre território, tempo e formas de vida. A extensão do sertão põe em questão as relações que procuravam circunscrevê-lo como diferença.

O sertão figura, assim, como diferença a ser interpretada e como ponto a partir do qual se interrogam as relações que o particularizaram. Essas relações integram também o campo do conhecimento, sem que as diferenças que produzem se tornem equivalentes. A forma do romance põe em relação essas diferenças e submete à interrogação os lugares, os tempos e as autoridades desiguais que lhes são atribuídos.

O sertão por-vir

As leituras dos setenta anos de Grande sertão: veredas permitem retornar ao problema inicial por outra via. Ítalo Moriconi faz da experiência de leitura e da reconstituição do enredo uma entrada no romance; Silviano Santiago recoloca a questão do conhecimento. São movimentos distintos, surgidos de um presente crítico para o qual décadas de interpretação não encerraram a obra. A efeméride permite observar esse movimento: cada retorno encontra um romance que já carrega uma história de leituras e recoloca em questão as relações pelas quais foi lido.

A retomada de desenredo como termo crítico condensa esse movimento. Neste ensaio, o termo recebe uma determinação mais restrita: designa a revisabilidade das relações que conferem inteligibilidade a acontecimentos conhecidos. Essa formulação abre outra perspectiva sobre minha leitura anterior do sertão. Se sua constituição histórica dependeu de narrativas que relacionaram território, temporalidade e diferença, o desenredo permite formular por outra via uma pergunta sobre esses nexos: sob que condições históricas adquiriram autoridade para produzir o sertão como diferença?

A aproximação entre nação e narração ganha, aí, outra consequência. Narrativas nacionais participam da produção das diferenças pelas relações que estabelecem e pelas formas de inteligibilidade que lhes conferem. Atraso e autenticidade puderam operar simultaneamente na particularização do sertão: aquilo que era remetido a outro tempo do país podia, também, ser investido da capacidade de revelar algo genuinamente brasileiro. A consagração preservava a assimetria porque as relações que conferiam valor ao sertão continuavam a particularizá-lo e a distribuir desigualmente a autoridade para reconhecer esse valor.

Grande sertão: veredas altera essa distribuição ao fazer com que formas de linguagem e saber historicamente particularizadas pela categoria de sertão participem da produção do conhecimento. A autoridade de Riobaldo se constitui no interior das relações que procura compreender. A observação de Silviano Santiago de que o “saber-vagalume” já não é endossado em Grande sertão: veredas abre, para a leitura proposta neste ensaio, a pergunta pela forma de conhecimento produzida na fala de Riobaldo. Sua amplitude permite relacionar acontecimentos distantes e rever explicações já formuladas à luz do que veio a saber, sem conferir ao narrador uma posição exterior às relações que interpreta.

O trabalho de Ítalo Moriconi coloca outro problema. Em Para ler Grande sertão: veredas, a reconstituição do enredo acompanha o registro da própria experiência de leitura. Os acontecimentos estão dados pelo romance, mas as relações pelas quais adquirem pertinência para o leitor se constituem no curso da leitura e podem ser retomadas retrospectivamente. Enredo e experiência crítica vinculam-se, assim, sem se confundirem. Essa escolha ajuda a distinguir desenredo de dissolução do enredo: a recomposição das relações pressupõe a disponibilidade dos acontecimentos a novas configurações. A aproximação com o desenredo reside nesse trabalho de retorno e recomposição, embora se trate de operações distintas: Riobaldo reexamina o acontecido para interrogar seus nexos; Moriconi reconstitui o enredo a partir da experiência de leitura.

A revisabilidade tampouco implica equivalência entre interpretações. Recompor relações na leitura requer responder ao que o texto permite sustentar e demonstrar os nexos propostos. Uma interpretação adquire força pelas relações que consegue estabelecer e pelos problemas que permite formular. Seu caráter não terminal reside na possibilidade de submetê-la novamente à crítica, e não na ausência de critérios para distinguir entre interpretações.

O sertão por-vir pode ser retomado a partir daí. Quando escrevi que o sertão seria “uma dobra no tempo na qual o passado não passa e o presente não se estabiliza”, “sempre inacabado, sempre por-vir”, procurava nomear a historicidade das relações que o constituem como diferença. Cada presente encontra essas relações já constituídas e participa das formas pelas quais elas se conservam ou se transformam. Por-vir não anuncia reconciliação nem designa a inesgotabilidade do sertão como tema. Nomeia o caráter inconcluso de uma história na qual a diferença continua a ser produzida: o sertão não antecede as relações que o particularizam, nem constitui uma diferença dada que cada presente encontraria e representaria a seu modo. Seu inacabamento reside nessa inseparabilidade entre diferença e história.

Setenta anos depois, Grande sertão: veredas continua difícil de terminar. Os acontecimentos não se desfazem, mas os nexos pelos quais adquirem forma podem ser novamente interrogados. Desenredo nomeia essa abertura do acontecido à revisão; dilaceramento, a não coincidência entre as diferenças produzidas nas relações que constituem o nacional e os lugares que lhes são atribuídos; por-vir, a historicidade dessas relações e das diferenças que ainda podem produzir. O sertão permanece porque sua diferença pertence à história que a produz – e, por isso, às disputas sobre os tempos, os lugares e as autoridades que procuram defini-la. Talvez seja essa a sua mais difícil travessia: chegar ao fim sem terminar.



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