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“Um velho cocker spaniel chamado Trigger cresce até o tamanho de um cavalo e ameaça enterrar Evan Ross no quintal antes que a cena se dissolva e termine na entediante aula de ciências do Sr. Murphy“: esta é a sequência inicial (já repetindo os vícios de falso evento dramático e impacto frustrado) que R.L. Stine cria na abertura desta primeira sequência de Sangue de Monstro, lançado dois anos antes, e que foi um estrondoso sucesso de público. Este Monster Blood II continua usando o susto como um método falso — algo típico da série, majoritariamente com maus usos por conta do exagero — e o truque de querer “explodir o cérebro do leitor” aparece capítulo após capítulo, fazendo com que o público desconfie das escolhas do autor, diminuindo o potencial de terror no livro. Se, por um lado, Stine domina o ritmo e a estrutura do suspense, conduzindo bem a passagem do pânico escolar mais simples até o absurdo total da parte final, ele nos frustra justamente porque gasta essa qualidade insistindo num caminho literário menor, que é o acontecimento bizarro desmentido ou refeito poucas linhas depois de aparecer.
Aqui, o andamento também tropeça no ciclo de humilhação que estrutura os capítulos centrais. Evan foge do colega de sala valentão, apanha e é enfiado em armários, sofre punições constantes (e evidente perseguição) do professor, e a roda recomeça com variações mínimas dessa mesma dinâmica, num outro acúmulo que cansa a gente antes mesmo de o sangue de monstro entrar em cena. A abordagem sádica da relação entre o professor e o protagonista chega a ser vergonhosa de tão irreal: Conan Barber agride Evan fisicamente diante do Sr. Murphy, escondendo a brutalidade sob falsa cortesia, e o professor não só ignora como castiga a vítima, fazendo da figura de autoridade num cúmplice quase criminoso e empurrando a premissa para fora de qualquer verossimilhança, mesmo dentro das regras frouxas do gênero. Stine insiste numa mecânica de bullying cruel que soa desnecessária ao longo do livro, e o incômodo vem tanbém do fato de que a obra não tem interesse algum em examinar as dimensões da violência escolar; a crueldade é unicamente tratada como entretenimento dentro de uma história de terror, sem que nada no texto a interrogue, e é isso que faz a coisa ser problemática.
Conan barbariza o colega mais fraco pela compensação física que a cultura escolar (e masculina) premia, enquanto o sistema normativo, encarnado no Sr. Murphy, acoberta essa força bruta. Enquanto isso, Evan permanece à margem, rejeitado pelo time de basquete por ser “baixo demais” e ridicularizado por “mentir desavergonhadamente” sobre um tal sangue de monstro que faz as coisas crescerem exponencialmente. É muito curioso que, dada essa construção, o garoto decida comer o sangue de mosntro no clímax do livro e crescer enormemente para enfrentar o hamster Cuddles, já em modo kaiju: a sombra junguiana materializada num roedor que passa a devorar o sistema que oprimia o menino, tentando engolir o valentão e apavorando o mestre injusto. Stine constrói essa escalada de um modo instigante e, por um momento, parece que a obra vai honrar aquilo a maior parte daquilo que promete. Mas não é bem assim. A relação de Evan com Andy, por exemplo, nunca soa orgânica e permanece inicialmente confusa, ajustando-se a duras penas só mais adiante, e o mesmo vale para o reatante do elenco, funcional e arquétipo, sem passar por qualquer transformação moral relevante ou ser ativamente inserido na história, algo para além de uma mola simples para impulsionar o sofrimento do protagonista.
Pode parecer contraditório, mas eu gosto mais do final da obra do que seu início e desenvolvimento. O problema é que, nesse recorte, tudo acontece rápido demais, com destaque para a virada completa no comportamento do Sr. Murphy diante de Evan, sem contar que chega a ser patético resolver a crise pela expiração da data de validade impressa na lata do slime maldito, ainda que esse patetismo seja, em alguma medida, tolerável dentro das convenções da série. Quando Andy grita que “a mágica acabou porque a validade venceu justo naquele dia“, a obra nega a Evan o fechamento vingativo que vinha lhe prometendo, substituindo a superação por um acaso burocrático que interrompe seu crescimento segundos antes de ser decapitado pelas presas do hamster de seu professor abusivo. Stine poderia adotar caminhos mais inteligentes e interessantes, e a ironia final, quando Murphy elogia a “bravura” do menino e o premia entregando-lhe Cuddles, abrindo as portas para um novo evento de terror, prova isso. Aqui, seja para o bem ou para o mal, sobreviver é só uma questão de esperar a validade do horror expirar e, como eu indiquei há pouco, a gaiola aberta na última página, com a nova lata europeia de sangue de mosntro já em ação, diz para o leitor que o relógio recomeçou a contar.
Sangue de Monstro II (Goosebumps #18: Monster Blood II) — EUA, abril de 1994
Autor: R.L. Stine
Editora original: Scholastic
126 páginas