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- Há spoilers. Leiam, aqui, as demais críticas do Universo Absolute.
Enquanto a maxissérie Absolute Caçador de Marte foi uma obra-prima do começo ao fim e as mensais Absolute Mulher-Maravilha e Absolute Superman, nessa ordem, continuam sendo consistentemente muito boas, o restante da nova linha editorial da DC Comics iniciada com estrondoso sucesso em outubro de 2024 vem rateando, com Absolute Lanterna Verde e Absolute Flash tendo dificuldade de encontrar tração em suas linhas narrativas, ressalvando que ainda não li nada de Absolute Mulher-Gato e Absolute Arqueiro Verde por esses títulos ainda não terem encerrado seus primeiros arcos (na data de publicação da presente crítica, evidentemente). No entanto, nada se compara a Absolute Batman que, apesar de ser um dos maiores sucessos editoriais mainstream americanos em muito tempo, é, para mim, facilmente, o pior de todos os títulos, com cada novo arco encerrado tornando mais evidente o quanto a suposta reinvenção radical do Homem Morcego não passa de uma oportunidade para Scott Snyder criar o que só posso classificar como uma paródia idiotizante do personagem, com ele próprio sendo um gigante marombado que enfrenta uma horda de vilões literalmente monstruosos.
Confesso que, depois do completamente ridículo Bane kaiju do arco anterior, estava preparado para qualquer coisa e Oficina do Diabo, terceiro arco formado pelas edições #15 a 18 que foram encadernadas lá fora juntamente com o Anual de 2025 e o one-shot Ark M, veio para reiterar a tendência de Snyder de repetir fórmulas de sucesso à exaustão, a ponto de tudo se misturar na mente do leitor como não mais do que vilões fungíveis que em tese estão ali para mostrar o quão revolucionário o roteirista acha que é, enquanto que o resultado é, na verdade, inadvertidamente hilário se realmente pararmos para pensar, algo que definitivamente não é requisito para ler essa publicação. Não ajuda muito que o arco de apenas quatro edições não seja exatamente um arco no sentido estrito da palavra, mas sim um apanhado de situações que preparam o futuro da série, com a primeira edição dedicada à origem do Coringa ou, pelo menos, o que Alfred Pennyworth acha que é a origem do Coringa, a segunda um crossover com a Absolute Mulher-Maravilha que faz eco com o crossover que houve na HQ da filha adotiva de Circe e as duas últimas lidando com o surgimento da Absolute Hera Venenosa que sim, você acertou, é uma monstra.
Em termos temáticos, há uma certa unicidade na forma como a vida pessoal de Bruce Wayne vai desmoronando com a perda de seus melhores amigos e tudo o que ele é obrigado a fazer para lidar com as ameaças, além do quanto o próprio surgimento de sua persona quiróptera possa ter sido o catalisador de todas as tragédias que se abateram sobre Gotham City. Mas essa “Queda do Morcego”, por assim dizer, é trabalhada sem nenhum tipo de preocupação maior do que levar Bruce ao fundo do poço em um estalar de dedos, pois Snyder está muito mais preocupado em introduzir novos personagens e novas situações, como a conexão de Martha Wayne com a Corte das Corujas, do que realmente parar para focar de verdade em seu jovem protagonista e criar um arco dramático de peso. Tudo é simplista e raso, com a forma soterrando a substância e com a Fórmula Snyder telegrafando constantemente o que acontecerá na página seguinte. É como se o destino de todos os personagens que gravitam ao redor do Batman fosse se tornar uma gigantesca criatura dos infernos que, mesmo com enormes poderes, acabam derrotados pelo preparadíssimo Bruce, com Pennyworth gritando em seus ouvidos.

Admito, porém, que gostei da forma como, na edição #15, Snyder conta a história de origem do Coringa, ou Jack Grimm, pois ele, aqui, espertamente espelha o roteiro de Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, nesse aspecto. No lugar de o próprio Coringa contar versões de sua história, Pennyworth assume esse papel em um diálogo em off com Bruce que é muito bem ilustrado por Jock. Revisitamos a origem do grande vilão por três vezes, cada vez mergulhando com mais profundidade em suas camadas sinistras e, mesmo assim, ao final, somos deixados sem certeza de que é isso mesmo, por tudo não passar – como é explicitamente dito várias vezes – das conclusões pessoais de Alfred a partir de suas pesquisas extensas. Com isso, eu ainda nutro esperanças – provavelmente em vão – de que o Coringa não é o monstrão ridículo em que Jack Grimm se transforma ao final e que usei para ilustrar a presente crítica por ser a capa do encadernado, mas sim algo mais pé no chão, que não apenas repita as bobagens que vieram antes.
O crossover com a Mulher-Maravilha na edição #16, única com arte de Nick Dragotta, que lida com o Batman procurando Diana para que ela o ajude a reverter o estado reptiliano de Waylon Jones, o que leva a dupla em uma longa jornada por um purgatório místico, consegue se segurar razoavelmente bem também, porque Snyder incorpora com suficiente desenvoltura a mitologia estabelecida por Kelly Thompson para a amazona, mas a história em si não tem muito vigor, além de seu resultado ser consideravelmente infrutífero, pelo menos por agora. As duas edições finais (#17 e 18), que lidam com o surgimento de Hera Venenosa em uma campanha difusa de vingança é uma enorme bobagem cansativa que, como no caso de Bane, faz da vilã uma kaiju, ainda que um pouco mais esbelta e colorida na recriação não muito inspirada por Eric Canete. Tudo é só desculpa para pancadaria vegetal e a novidade – se existente – esvai-se muito rapidamente.
Oficina do Diabo oferece muito mais um mapa do futuro desse Batman marombado do que qualquer outra coisa, quase como se o arco fosse um interlúdio para rearrumar o tabuleiro para continuar a história principal. Certamente é um passo a frente do arco anterior, mas ainda muito longe de justificar o tamanho do sucesso desse título, a não ser que sejamos cínicos e afirmemos que justamente por ser como é, é que o título faz o sucesso que faz. Confesso que não tenho muita esperança de que a história melhorará muito mais do que isso, mas vamos ver no que dá, não é mesmo?
Absolute Batman – Vol. 3: Oficina do Diabo (Absolute Batman – Vol. 3: Devil’s Workshop – EUA, 2025/26)
Contendo: Absolute Batman #15 a 18
Roteiro: Scott Snyder
Arte: Jock (#15), Nick Dragotta (#16), Eric Canete (#17 e 18)
Cores: Frank Martin
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Sabrina Futch, Katie Kubert
Editora: DC Comics
Datas originais de publicação: 10 de dezembro de 2025, 28 de janeiro, 18 de fevereiro e 11 de março de 2026; encadernado lançado em 08 de setembro de 2026
Páginas: 208