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- Há spoilers. Leiam, aqui, todas as críticas do Universo Energon.
Fica cada vez mais claro para mim que uma das melhores decisões recentes no mundo pop foi o licenciamento das propriedades da Hasbro para Skybound Entertainment de Robert Kirkman e a subsequente criação do Universo Energon, em que inicialmente Transformers e G.I. Joe compartilhariam o mesmo mundo, agora também contando com M.A.S.K. e, até mesmo, inesperadamente, ROM, com provavelmente outros “brinquedos” sendo adicionados futuramente. Digo isso, pois o trabalho editorial de planejamento desse universo parece ter sido muito cuidadoso, algo que é visível principalmente em Transformers, o título mais bem-sucedido em termos de vendas e críticas e que, ao longo de quatro arcos (24 edições), foi capitaneado magistralmente por Daniel Warren Johnson que, no quinto, passou a tocha para o próprio Kirkman, que já vinha escrevendo Rivais Cósmicos, a única HQ que se pode chamar de autoral desse projeto, mas também facilmente a mais fraca.
Meu receio sobre a entrada direta de Kirkman em Transformers foi esfriado pelo ótimo volume 5, em que o roteirista provou não só que estava disposto a continuar a pegada de Johnson, como também sua capacidade de se adaptar às exigências do título. Claro que meu pé atrás continuou firme e forte, mas, agora, depois de conferir o volume 6, segundo arco sob a batuta de Kirkman, talvez seja hora de admitir que os robozões transformadores estão mesmo em boas mãos, mesmo que ele seja o “menos bom” de todos até agora. No entanto, a razão para essa minha conclusão vem muito mais da natural necessidade de reagrupar a narrativa multipartite da história do que do comando da história em si. Afinal, temos que lembrar que o arco anterior não só mergulhou a fundo nos traumas passados de Megatron, como extirpou Optimus Prime da Matriz da Liderança, que passou para Elita que, por sua vez, retornou para sua guerra eterna em Cybetron. Era necessário, portanto, maturar e trabalhar esses acontecimentos, algo que Kirkman elegeu fazer ao dedicar a primeira edição do novo arco, a única com arte de Ludo Lullabi fazendo novamente um ótimo trabalho que ecoa o do volume 4 nas mesmas condições, ao líder dos Decepticons que, depois de revelações importantes em flashbacks, acaba em uma espécie de casulo de cristal (talvez Energon, não tenho certeza) e é mantido por lá até o final, com uma potencialmente nova e poderosa forma a ser revelada no próximo arco.

Dessa maneira, Kirkman abriu espaço para os Autobots – que tecnicamente não têm mais esse título – e seu líder Optimus, que não é mais Prime, tendo que lidar com o novo status quo ajudando a reconstruir Chicago com tecnologia desenvolvida por Wheeljack trabalhando a partir do pedaço de Cybetron que ficou na Terra e trabalhando ao lado do General Flagg que, por sua vez, recruta o amalucado Doutor Henri Arkeville para ser o cientista-chefe da Shadow Watch. Thundercracker, agora “do bem”, fica incomodado com as visões de seu passado recente e decide investigar, levando-o, ao lado dos demais Aerialbots, para o Himalaia e um encontro com a guarda imperial de Cobra-La, uma inserção que eu pessoalmente não gosto (desgosto de tudo de Cobra-La em geral, então não tem muito jeito), mas que é inevitável. Elita Prime também ganha um pouco de espaço em Cybetron, agora ao lado dos Autobots recrutados na Terra e portando a Matrix da Liderança que, porém, sob seu comando, exibe menos vigor, criando “apenas” uma espada poderosa, tem esperanças de fazer com que a maré mude. Curiosamente, porém, o drama pessoal de Optimus em sua nova condição menos poderosa não é muito abordada, com apenas algumas pinceladas aqui e ali, com o núcleo jovem humano sendo quase que completamente eliminado, ainda que Sam Witwicky seja o narrador da história, que aparentemente foi a saída que Kirkman encontrou para integrá-lo de alguma forma à narrativa.
Uma coisa que me cansa um pouco, mas que eu sei muito bem que é também inevitável em quadrinhos longevos, especialmente de franquias tão antigas, é a efemeridade da morte. Claro que, como estamos falando de robôs, a morte consegue ser ainda mais relativa do que quando humanos estão envolvidos, mas ver o retorno de Starscream tão cedo é algo que poderia ser evitado, mesmo que ele, na prática, não faça nada a não ser aparecer vivo e, depois, consertado pela tecnologia do pedaço de Cybetron. Esse tipo de abordagem tira a força dos momentos chocantes e evidencia ao leitor que nenhum momento trágico está imune de reversão, o que esvazia o drama e diminui o engajamento. Se até mesmo o pai de Sam tecnicamente ainda está pelo menos parcialmente vivo na Matriz da Liderança e Bumblebee obviamente voltará alguma hora, não adianta muito sair matando personagens se o objetivo é só deixar os menos conhecidos devidamente mortos (e mesmo assim provavelmente não para sempre). Kirkman poderia segurar a onda de ressuscitações, até porque já há personagens demais na história, com um monte de coadjuvantes que poderiam ser elevados ao palco principal da narrativa para substituir colegas caídos em batalha.
Seja como for, Transformers continua firme e forte como o carro-chefe do Universo Energon. Mas o trabalho de Kirkman promete ficar cada vez mais complicado na medida em que as mitologias convergem e a entrada efetiva de Cobra-La nessa equação, além da ação paralela em Cybetron, são sinais de que talvez haja espaço de menos e linhas narrativas de mais a ponto de justificar, talvez, mais um título de apoio para evitar tumultos. E a entrada de M.A.S.K. e ROM nessa brincadeira só piora esse quadro que, reitero, no geral ainda está funcionando muito bem.
Transformers (2023) – Vol. 6 (EUA, 2026)
Contendo: Transformers (2023) # 31 a 36
Roteiro: Robert Kirkman
Arte: Ludo Lullabi (#31), Jason Howard (#32 a 36)
Cores: Mike Spicer
Letras: Rus Wooton
Editoria: Ben Abernathy
Editora: Skybound (Image Comics)
Datas originais de publicação: 08 de abril, 13 de maio, 10 de junho, 08 de julho, 12 de agosto e 09 de setembro de 2026
Páginas: 128