Chile se beneficia de fuga de investidores dos EUA e atrai capital estrangeiro recorde

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O capital estrangeiro está entrando em peso na dívida pública do Chile, levando as posições a um novo recorde, com a retomada do movimento de “Sell America” (venda de ativos americanos) e a perspectiva fiscal e as reformas de mercado do país aumentando a atratividade dos títulos chilenos.

As posições de não residentes em títulos soberanos denominados em pesos saltaram US$ 700 milhões, para o recorde de US$ 21,04 bilhões em agosto, último mês para o qual há dados disponíveis do banco central. Com isso, o aumento desde o início do ano chegou a 42%, muito acima do crescimento registrado em outros países da América Latina.

O Chile desponta como beneficiário de uma mudança mais ampla nas carteiras globais. A preocupação com a trajetória fiscal dos EUA dá aos investidores mais um motivo para buscar alternativas fora do país, enquanto a contenção de gastos do presidente José Antonio Kast e as medidas para aprofundar o mercado de títulos chileno reforçam os argumentos para direcionar parte desses recursos à nação andina.

“Vimos uma queda da participação dos títulos dos EUA nas carteiras de investimento, e parte desses fluxos veio para o Chile”, disse Alexis Vega, chefe de formação de mercado do Banco de Credito e Inversiones. “Acho que a tendência de ‘Sell US’ vai continuar, e a América Latina, diante dos preços das commodities e de possíveis ajustes fiscais, parece mais disciplinada do que os EUA.”

O tema “Sell America” ganhou e perdeu força ao longo do segundo mandato do presidente dos EUA, Donald Trump, com participantes do mercado alertando que a volatilidade na formulação de políticas — de aumentos históricos de tarifas e novas guerras à deterioração de alianças de longa data — afastava investidores estrangeiros de ações e títulos dos EUA.

A decisão do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de pressionar os juros para baixo por meio de compras de títulos de prazo mais longo no mês passado deu novo impulso a essa narrativa, em meio a alertas de que a medida poderia desestimular ainda mais os compradores estrangeiros.

“Eles estão executando um programa de recompra que carece de credibilidade”, disse Vega. “A atual estrutura da dívida é insustentável.”

Com a saída de recursos dos EUA, a posição fiscal do Chile se destaca entre os países da região. O país sul-americano registrou superávit orçamentário de 95 bilhões de pesos (US$ 10 milhões) em julho, ante déficit de 957 bilhões de pesos no mesmo período do ano anterior, após uma alta de 79% na receita da mineração privada e uma queda de 0,7% nos gastos. No acumulado do ano, a despesa fiscal aumentou apenas 0,7%.

Além disso, o ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, afirmou que o governo pretende limitar o crescimento dos gastos a uma faixa de 0% a 1% no próximo ano.

O quadro é bastante diferente no Brasil, onde o aumento das despesas com juros e os déficits persistentes elevam as preocupações com a capacidade do governo de estabilizar as contas públicas. A Colômbia, por sua vez, aprovou neste mês um aumento de 16% nos gastos do governo para o próximo ano, alarmando investidores que já estavam preocupados com o crescente peso da dívida do país.

“Os preços elevados dos metais devem impulsionar as receitas ligadas à mineração, enquanto o governo sinalizou crescimento limitado dos gastos nos próximos anos, reforçando a credibilidade da trajetória de consolidação fiscal estrutural após vários anos de déficits acima da meta”, disse Andrés Pérez, economista-chefe para a América Latina do Banco Itaú.

A divergência entre as políticas se reflete na demanda estrangeira por dívida local. As posições de estrangeiros em títulos soberanos locais da Colômbia aumentaram 4,2% nos primeiros oito meses do ano, enquanto as posições de não residentes no Brasil cresceram apenas 2% até julho. No México, subiram cerca de 3% no mesmo período.

Os investidores estrangeiros detinham 15,6% da dívida soberana local do Chile em março, último mês para o qual há dados disponíveis do Ministério da Fazenda. Foi a maior participação desde o primeiro trimestre de 2020 e quase o dobro dos 8% registrados no fim de 2024.

A manutenção desse ritmo dependerá, em parte, de novos esforços para tornar o mercado mais acessível e barato para investidores estrangeiros.

“As principais barreiras que dificultavam a participação de não residentes no mercado de títulos do Chile foram removidas”, disse Alberto Naudon, vice-presidente do Banco Central do Chile, em entrevista na semana passada. “São necessários ajustes finos para estimular o desenvolvimento do mercado e determinar onde podemos alcançar padrões semelhantes aos adotados no exterior, facilitando a entrada de não residentes.”

Várias iniciativas anunciadas recentemente têm justamente esse objetivo. O governo anunciou no início deste mês que pretende permitir, pela primeira vez, que fundos de pensão locais realizem operações de recompra e recompra reversa, conhecidas como repo e reverse-repo. A medida deve ampliar as negociações e reduzir os spreads entre os preços de compra e venda dos títulos.

Separadamente, o governo colocou em consulta pública um programa de formadores de mercado também destinado a aumentar a liquidez.

Há “impactos positivos que esperamos ver com um novo mercado de repo, que reduziria os custos de financiamento dos investimentos, e com um possível programa de formadores de mercado, que proporcionaria maior liquidez aos instrumentos de dívida do Tesouro”, disse Vega.

A proposta para os fundos de pensão fez parte de um pacote de 30 medidas destinadas a aprofundar o mercado de capitais chileno, incluindo propostas para reduzir a burocracia e os entraves tributários enfrentados por investidores estrangeiros na compra de ativos locais.

“Corrigir algumas dessas questões deve eliminar obstáculos enfrentados pelos investidores estrangeiros”, disse Christopher Mejia, analista de crédito soberano de mercados emergentes da T Rowe Price.

Alberto Naudon, vice-presidente do Banco Central do Chile — Foto: Cristóbal Olivares / Bloomberg

[Fonte Original]

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