O dólar à vista deu continuidade ao mau humor dos mercados observado na sessão de ontem. Mais uma vez, os ativos considerados mais arriscados estiveram entre os mais pressionados, com as moedas de mercados emergentes entre as mais afetadas, na relação das 33 mais líquidas. No Brasil, o cenário eleitoral não trouxe nenhum novo gatilho para a dinâmica do câmbio, enquanto, na parte técnica, o Banco Central voltou a atuar, vendendo US$ 1 bilhão por meio de linha (venda de dólares com compromisso de recompra) para dar liquidez ao mercado no fim de trimestre.
Encerradas as negociações, o dólar à vista fechou em alta de 0,48%, cotado a R$ 5,1930, depois de ter encostado na mínima de R$ 5,1655 e de ter batido na máxima de R$ 5,2015. Já o euro comercial avançou 0,42%, a R$ 5,9080.
No exterior, o dólar apreciou principalmente contra divisas de mercados emergentes, em alta de 2,09% ante o peso colombiano, 1,19% contra o peso mexicano e 0,53% contra o rand sul-africano. Já perto das 17h15, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, subia 0,17%, aos 101,270 pontos.
Desde o começo da sessão de hoje, o dólar seguiu um trajeto de fortalecimento global, em meio à piora no sentimento dos agentes globais, que já vinha se deteriorando ontem. Além da perspectiva de uma economia americana mais forte, o tom conservador dos dirigentes do Federal Reserve (Fed) tem ajudado a manter o investidor cauteloso. Ainda ao longo da manhã, os preços do petróleo voltaram a subir, diante de notícias sobre a suspensão e o bloqueio de voos de companhias aéreas iranianas. Os juros globais também passaram a subir, em especial os de prazo mais longo.
Neste sentido, em análise diária do movimento do câmbio, Leonel Oliveira Mattos, analista da StoneX, diz em nota que o discurso de dirigentes do Fed se mostra mais firme no combate à inflação, ainda na esteira da decisão do Fed da semana passada. “Também não há perspectivas de melhora no curto prazo para a questão do comércio marítimo na região do Oriente Médio. Por isso, os preços do petróleo continuam bastante elevados, na casa dos US$ 100 por barril, e tendem a permanecer mais altos por mais tempo. Isso traz preocupações com pressões inflacionárias globais, inclusive nos Estados Unidos, favorecendo as expectativas de mais juros por lá.”
No início da tarde, o dólar alcançou as máximas do dia e bateu R$ 5,20 em meio a notícias do jornal “O Estado de S. Paulo” sobre o celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ter três meses de conversas com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), com menção a seis encontros. Houve uma subida brusca da moeda americana, mas que foi se desfazendo rapidamente, voltando a operar em patamares semelhantes aos da manhã.
Para os economistas Benito Berber e Selin Aker, do Natixis, se o senador Flávio Bolsonaro vencer a disputa presidencial, o real poderia se valorizar para R$ 4,60 e R$ 4,80, apoiado pela visão de que, sob seu governo, haveria um ajuste fiscal de alta qualidade e que seria incentivado o investimento estrangeiro direto (IDP, na sigla em português para investimento direto no país). “O efeito combinado de menores pressões inflacionárias, decorrentes de um real mais forte, e de uma trajetória crível em direção a superávits primários, ancorada em cortes de gastos, deveria permitir que o Banco Central (BC) reduzisse sua taxa de política monetária para uma taxa entre 7% e 9%”, afirmam, em nota.
Já sob Lula, a casa diz acreditar que o real se depreciaria, mas não muito. “Esperamos que o real enfraqueça devido às expectativas de continuidade do atual arcabouço fiscal, no qual o governo faz o mínimo necessário para evitar um aumento parabólico da relação dívida/PIB, ao mesmo tempo em que evita os custos políticos de reduzir o endividamento”, afirmam os economistas. “No entanto, esta seria a quarta vez de Lula como presidente, o que significa que o mercado e o setor corporativo local conhecem seu pragmatismo e seu respeito pela independência do BC. Além disso, pelo menos no curto prazo, o real deve continuar sendo sustentado pelos preços elevados das commodities e por uma Selic acima de 13,50%.” Diante disso, a Natixis aponta que, se Lula vencer, o real se depreciaria para R$ 5,30 a R$ 5,40 e que a taxa Selic terminal ficaria entre 10% e 12%.
Ainda hoje, o Banco Central realizou a venda de US$ 1 bilhão por meio da linha, a venda de dólares com compromisso de recompra. A atuação não afeta diretamente a cotação do dólar, mas oferece liquidez ao mercado à vista. Não houve melhora evidente no termômetro da liquidez, o dólar casado, mas isso já era esperado, uma vez que em fim de trimestre o casado fica mais pressionado.