O dólar à vista exibiu leve desvalorização frente ao real na sessão desta quinta-feira, em um movimento descolado da maioria dos mercados mais líquidos acompanhados pelo Valor. Nesta sessão, a moeda brasileira apresentou um dos melhores desempenhos entre as 33 divisas mais líquidas, e operadores viram a disputa eleitoral como razão para esse destaque. Segundo relatos, notícias mais favoráveis ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que aumentariam suas chances de vitória, deram espaço para uma redução no prêmio de risco dos ativos domésticos.
Encerradas as negociações do mercado à vista, o dólar terminou negociado em queda de 0,18%, cotado a R$ 5,1026, depois de ter tocado a mínima de R$ 5,0826 e batido na máxima de R$ 5,1457. Já o euro comercial recuou 0,38%, a 5,9240.
Perto do fechamento, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, avançava 0,26%, aos 99,070 pontos. Entre as 33 moedas mais líquidas, o real apresentava o terceiro melhor desempenho, atrás apenas do rublo russo e do peso colombiano.
Pela manhã, o dólar exibiu valorização, em linha com a dinâmica observada na maioria dos mercados no exterior, diante de uma piora na percepção de risco global e da alta nos preços do petróleo, negociados acima de US$ 105 o barril nos contratos futuros mais líquidos. Ainda pela manhã, no entanto, houve uma reversão na dinâmica, em meio a relatos de expectativa por números melhores para Flávio Bolsonaro em pesquisas de acompanhamento (trackings).
“Não vejo outro motivo para essa virada agora cedo, que não sejam as eleições”, diz um gestor, na condição de anonimato. “O real passou a ser uma das moedas mais fortes”, complementa. Outro trader de volatilidade diz que a oscilação esperada para o período posterior ao primeiro e ao segundo turno subiu também. “E a volatilidade implícita de um e dois meses está perto de 19%, enquanto há uma semana rondava algo em torno de 15,5%”. O aumento da volatilidade pode ser uma indicação da maior incerteza em relação ao resultado eleitoral.
O banco Wells Fargo reconheceu que a disputa eleitoral está mais acirrada, em nota a clientes, apontando chances relevantes de a oposição vencer o pleito presidencial. Para Alvaro Vivanco, estrategista macro para mercados emergentes, há dois aspectos interessantes a considerar em relação à eleição brasileira: “primeiro, a tendência regional é bastante favorável a Flávio Bolsonaro, não apenas do ponto de vista ideológico, já que candidatos de direita venceram eleições recentes em toda a América Latina, mas também devido à forte rejeição dos eleitores aos atuais governantes”, afirma, acrescentando que, no Peru e na Colômbia, a rejeição aos partidos tradicionais teve um papel importante, para além da orientação de política econômica ou da ideologia.
“Segundo, o surgimento de Augusto Cury, um candidato independente e não político, como terceiro colocado nas pesquisas de primeiro turno, cria uma dinâmica interessante, que ilustra essa demanda por opções não tradicionais”, explica.
“Embora seu apoio tenha recuado ligeiramente em algumas pesquisas recentes, seu papel no segundo turno pode se mostrar crucial e, em nossa avaliação, pode pender mais favoravelmente para Flávio Bolsonaro.”
Segundo Vivanco, diante do cenário mais favorável para as commodities e com a probabilidade de 50/50 para a eleição, um valor justo do real seria de R$ 5,00, “com potencial para uma queda do dólar em direção a R$ 4,75 em caso de vitória de [Flávio] Bolsonaro, contra uma recuperação para R$ 5,30 em um cenário de manutenção do status quo, com um governo Lula”, diz Vivanco no documento. “Neste último caso, acreditamos que o Banco Central poderia interromper o ciclo de flexibilização e fazer uma pausa após a eleição, caso o real sofresse pressão, mantendo o ‘carry’[diferencial de juros] elevado por mais tempo.”
Já o Citi diz em relatório especial sobre América Latina que continua positivo com o real ao longo do próximo mês ou pouco mais. “Mas nossa abordagem provavelmente ficará mais cautelosa em algum momento, à medida que o Banco Central parece confortável com um ritmo de flexibilização da política monetária tímido, embora constante”, diz.
Segundo os profissionais do banco, a questão importante entre os participantes do mercado agora é se o Banco Central conseguirá permanecer em modo de flexibilização à medida que o país entrar oficialmente no período pré-eleitoral. “As taxas implícitas no mercado indicam uma pausa no ciclo de flexibilização do Banco Central no início de 2027 e, posteriormente, uma probabilidade maior de altas da Selic.”
A sessão desta quinta-feira também foi marcada pela realização do “casadão”, a venda de dólares à vista conjugada com a compra no mercado futuro via swap reverso. O Banco Central, assim, injetou US$ 1 bilhão no mercado à vista, reduzindo seu estoque de swap. Isso deu um alívio ao dólar casado, a diferença em pontos entre o dólar futuro e o à vista. O spread da taxa do casado, que estava acima de 1,5% caiu para algo em torno de 1,3%. “Foi um alívio contido, mas talvez o efeito possa se mostrar maior amanhã. Ou talvez o BC precise atuar novamente.”