Flávio não pode errar, e Lula não deve insistir no erro

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A epígrafe de “Ensaio sobre a Cegueira”, do vencedor do Nobel, José Saramago, recomenda que mais do que olhar, é importante enxergar. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, diz o texto, extraído do “Livro dos Conselhos”, atribuído ao Rei D. Duarte de Portugal, no século 15.

Na semana em que as principais pesquisas revelaram o crescimento do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que perdeu o favoritismo, o sentimento entre petistas era de aflição, e até de impotência, em meio às queixas de que o núcleo da campanha se fechou em uma torre de marfim. Para lulistas, a lição de Saramago deveria chegar aos coordenadores, que se recusam a enxergar erros ou a necessidade de ajustes na campanha.

Diante de uma conjuntura mais acirrada que a de 2022, porque contaminada pela crise mais aguda da história do Supremo Tribunal Federal (STF), que gera impacto eleitoral, as campanhas dos dois principais candidatos à Presidência reveem as estratégias. Enquanto o candidato do PL não pode errar, se quiser se consolidar na liderança da corrida, o alerta para a campanha de Lula é de ajustar a rota para não insistir no erro. A percepção de aliados é de que a aposta na comparação de legados entre Lula e o ex-presidente Jair Bolsonaro não empolgou, e prende o candidato no passado, quando a expectativa do eleitor é de uma mensagem de esperança e futuro melhor.

Nessa semana, uma fonte do PT se disse perplexa diante do desempenho de Flávio, que desde o início era o adversário preferido do partido, em razão dos “esqueletos” no armário, enquanto o temor se voltava para o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que optou pela reeleição. Este petista observou que ninguém esperava uma campanha fácil, mas, em contrapartida, não imaginavam um embate tão concorrido com o senador do PL.

Lulistas admitem o desgaste com as denúncias contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente, e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana. Contudo, mesmo com esse revés, a percepção é de que o núcleo criativo, comandado pelo publicitário Raul Rebelo e pelo ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira, precisa mudar a linha de ação.

O próprio Lula encomendou uma campanha amparada na comparação de governos. Porém, na visão de aliados, o legado lulista amparado em políticas como o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, acesso de estudantes de baixa renda ao curso superior, desemprego recorde, aumento real do salário mínimo dialoga com um Brasil do passado.

Segundo essas fontes, o eleitor de agora vivencia outra realidade, na qual o reajuste do salário não acompanhou o aumento do custo de vida, a população se endividou, prefere empreender às vagas com carteira assinada, e os dados do emprego camuflam os milhões de trabalhadores informais.

Em contraponto, num momento de euforia, coordenadores de Flávio não se surpreenderam nem se abalaram com a operação da Polícia Federal (PF) nessa quinta-feira (10), determinada pelo ministro do STF Flávio Dino, baseada em suposto desvio de recursos de emendas parlamentares para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a biografia de Jair Bolsonaro.

Aliados sustentam que Flávio desenvolveu uma espécie de “imunidade” em relação aos desdobramentos da denúncia. A percepção é de que somente os áudios revelados em maio, nos quais o senador cobrava de Daniel Vorcaro mais uma parcela dos R$ 61 milhões prometidos para o filme, e o chamava de “irmão”, teriam impacto, porque de fácil assimilação pelo público. Com o tempo, entretanto, Flávio recuperou o apoio perdido e se reposicionou. Já os fatos novos envolveriam detalhes complexos sobre o caminho do dinheiro, como cotas de fundos de investimento.

Outra leitura é de que o episódio fortalece a principal estratégia da campanha, amparada no discurso de perseguição política. O alvo é o ministro Alexandre de Moraes, que corre o risco de ser investigado pela relação com Vorcaro, e foi relator do processo sobre a tentativa de golpe de Estado, que levou Bolsonaro à prisão.

Agora, aliados ressaltam que Dino deflagrou a operação um dia depois da reintegração do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ao posto, em movimento que consideram suspeito. “O que tem claramente é uma tentativa de interferência política mais uma vez, agora do ministro Flávio Dino”, disse Flávio na quinta-feira.

Mas, além de não errar, a campanha de Flávio tem de se blindar do imponderável. Quando Lula derrotou Bolsonaro em 2022, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, apontou dois motivos para o resultado. Primeiro, a conduta de Bolsonaro na pandemia, que decepcionou os brasileiros ao ironizar a covid, demorar a comprar a vacina e não se vacinar.

O outro fator foi o imponderável, que se verificou em dois episódios na reta final da campanha. Na véspera do segundo turno, a deputada Carla Zambelli (PL) foi filmada com uma arma nas mãos, perseguindo um homem nas ruas de São Paulo. Dias antes, outro bolsonarista, o ex-deputado Roberto Jefferson, havia atirado com fuzil e lançado granadas contra agentes da PF que foram até sua residência, no interior do Rio de Janeiro, cumprir um mandado de prisão.

Andrea Jubé é repórter de Política em Brasília. Escreve às sextas-feiras
E-mail: andrea.jube@valor.com.br

[Fonte Original]

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