A base do crescimento da Acciona no Brasil nos últimos anos vem da robusta carteira de projetos de infraestrutura no país (mobilidade urbana, saneamento básico, ferrovias e portos) em volumes que poucos mercados no mundo oferecem. Alguns números dão essa dimensão. Para este ano, estima-se um montante recorde de R$ 300 bilhões em investimentos em infraestrutura, com mais de 80% provenientes do setor privado. Do lado público, apenas 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB), quando precisaria investir entre 4% e 4,5%. “Essa diferença é o tamanho da oportunidade”, afirma André De Angelo, CEO da Acciona Brasil.
A condução de contratos complexos, a estruturação e solidez financeira e os resultados considerados robustos estão entre os fatores que levaram a Acciona Brasil a conquistar pelo terceiro ano consecutivo a liderança no setor de construção e engenharia do anuário Valor 1000. No ano passado, a receita líquida da companhia foi de R$ 3,49 bilhões. Um montante expressivo, ainda que inferior aos R$ 3,77 bilhões em 2024, uma variação atribuída ao ciclo de contratos de grande porte e parcerias em saneamento.
O cenário de investimentos em infraestrutura no país faz a empresa prever expressiva e consistente expansão nos próximos cinco anos, tanto em receita quanto em resultado. “O resultado tende a crescer bem mais rápido que a receita. Isso é efeito direto da mudança de perfil. Operar um ativo de longo prazo tem margem e previsibilidade diferentes de construir”, explica o executivo. De Angelo se refere à consolidação da plataforma de saneamento da empresa com três concessões acrescidas nos últimos dois anos: no Paraná (48 municípios), Espírito Santo (oito) e Pernambuco (153), nesta em parceria com a BRK, uma das maiores empresas privadas de saneamento do país. A esses três projetos se soma ainda o mais recente, na Paraíba (mais de 85 municípios).
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“São contratos de 23 a 35 anos que beneficiam milhões de pessoas”, afirma o CEO da Acciona. Segundo ele, representam mais de R$ 20 bilhões em investimentos comprometidos e milhões de pessoas que serão atendidas em operação plena. Somente a concessão de saneamento em Pernambuco, considerada internamente como a “linha 6 do negócio de água” pela escala e pela complexidade, soma R$ 15,4 bilhões de investimentos para fornecer água potável e esgotamento sanitário a mais de oito milhões de pessoas da região metropolitana do Recife e de Fernando de Noronha. De Angelo diz que esse contrato não veio do acaso.
Segundo ele, a Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo foi um ponto de virada. “Nos permitiu demonstrar, em escala, nossa capacidade de estruturar, executar e operar projetos de alta complexidade dentro do cronograma. Foi essa credibilidade que abriu as portas do saneamento, segundo pilar estratégico da companhia, ao lado de mobilidade urbana”, diz. Hoje, a Acciona Água Brasil representa cerca de 40% do mercado de saneamento global da companhia. Por isso, segundo De Angelo, a janela é longa e a demanda é estrutural, razão pela qual a companhia continuará avaliando novas oportunidades nesse mercado, considerado um dos mais exigentes e desafiadores do mundo.
A expectativa para este ano é promissora. De Angelo não cita estimativas, mas aponta que o principal elemento impulsor da empresa no país em 2026 é o avanço da Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo, considerada a maior obra de infraestrutura em execução na América Latina, com 15,3 quilômetros e 15 estações. Em julho, a empresa entregou seis delas. Para 2027, espera a operação plena e a maturação das concessões de saneamento. Em paralelo, a companhia conquistou ainda o Complexo Viário Roberto Marinho, projeto de R$ 2,1 bilhões e 4,7 quilômetros que conectará a avenida Jornalista Roberto Marinho à rodovia dos Imigrantes, um dos principais projetos de mobilidade da cidade de São Paulo.
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Sobre a questão fiscal, que de diferentes formas vem afetando negócios no país, De Angelo explica que os contratos da companhia em mobilidade e saneamento estão comprometidos, com garantias estruturadas, e seguem independentemente do cenário fiscal. “O que muda é o rigor na seleção de novos projetos, já que os juros estruturalmente elevados encarecem o financiamento de longo prazo, e em contratos de décadas cada ponto percentual adicional tem peso relevante”, diz.
No campo da sustentabilidade, De Angelo elenca entre as maiores realizações da companhia a gestão de carbono na Linha 6-Laranja, o programa Estação Sustentar (capacitação, inclusão e inovação), o centro de gestão digital de segurança e saúde ocupacional (prevenção de riscos e acidentes, automação e segurança), mais de 90 mil horas de formação e a contribuição de recursos do grupo Acciona para infraestrutura sustentável e descarbonização no Brasil. “Sustentabilidade não é área à parte, não é uma linha de orçamento separada. Ela está atrelada às operações da companhia, neutra em carbono desde 2016, o que se traduz em como ela desenha e executa cada projeto”, explica.
Na frente ambiental, segundo ele, a Acciona trabalha com metas de redução de emissões, usa biocombustíveis, como o HVO (diesel renovável), na frota para obras da Linha 6-Laranja. Vem ainda substituindo progressivamente equipamentos a diesel por elétricos. O esforço tem sido reconhecido pelo mercado. A Linha 6-Laranja foi habilitada à certificação FAST-Infra (selo internacional que avalia desempenho de sustentabilidade e resiliência em projetos de infraestrutura), sendo a primeira obra de metrô do mundo a receber esse reconhecimento. No tema social, segundo De Angelo, quase 61 mil pessoas das comunidades no entorno da construção da Linha 6-Laranja foram beneficiadas com programas de educação, empregabilidade, direitos humanos e igualdade de gênero.
“Além disso, mais de 2.200 mulheres passaram pela obra. Hoje, 900 delas atuam no canteiro, uma em cada quatro em posição de liderança. Nada disso acontece sem time. São mais de 12 mil profissionais mobilizados, com mais de 90 mil horas de formação investidas, boa parte em qualificação própria, já que o país tem escassez de mão de obra especializada”, aponta De Angelo. A esse grupo, acrescenta o executivo, se soma a capacidade técnica e financeira que a Acciona traz da sua operação global. “São mais de 68 mil pessoas, uma carteira de infraestrutura superior a 120 bilhões de euros e presença em mais de 60 países”, diz. Na sua avaliação, a Acciona é um dos poucos grupos no mundo capazes de planejar, financiar, construir e operar projetos de grande complexidade do início ao fim.