A histórica vitória da extrema direita em uma eleição estadual na Alemanha reabriu divisões no governo do primeiro-ministro Friedrich Merz, com seus parceiros de coalizão do Partido Social-Democrata (SPD) pedindo que as reformas econômicas e sociais planejadas sejam suavizadas.
A Alternativa para a Alemanha (AfD) avançou para o primeiro lugar na Saxônia-Anhalt no domingo, refletindo a frustração com o governo federal em relação à burocracia, ao aumento do custo de vida, às incertezas sobre as aposentadorias e à insegurança econômica.
Merz, cujos índices de aprovação pessoal estão em uma mínima histórica, insistiu que um pacote de reformas planejadas, incluindo o aumento da idade de aposentadoria e um endurecimento das regras para o pagamento de auxílio-doença, precisa avançar, embora tenha admitido que precisa explicá-las melhor aos eleitores.
Mas seus parceiros de centro-esquerda do SPD insistem que ele precisa ir além, exigindo negociações sobre possíveis mudanças nas propostas de reforma da Previdência e da assistência social, além de uma nova discussão sobre o Orçamento de 2027 e a retomada do debate sobre impostos sobre heranças e grandes fortunas.
“O SPD (…) precisa deixar claro para onde estamos indo”, disse o secretário-geral do partido, Tim Kluessendorf, na segunda-feira, em entrevista à emissora Phoenix.
A ascensão da AfD — que ficou em segundo lugar nas eleições federais de 2025 — obrigou os principais partidos alemães de centro-esquerda e centro-direita a governarem juntos em coalizão para manter a extrema direita fora do poder.
Analistas, no entanto, afirmaram que as reivindicações do SPD podem, no mínimo, atrasar as reformas e até inviabilizá-las por completo caso as tensões dentro da coalizão aumentem.
“A principal questão será se os dois parceiros da coalizão vão se aproximar para levar as reformas adiante ou se um instinto de sobrevivência levará à autodestruição da coalizão”, disse Carsten Brzeski, chefe global de macroeconomia do ING.
Ralph Solveen, economista sênior do Commerzbank, também avaliou que o resultado eleitoral provavelmente provocará pedidos de mudança por parte dos políticos, o que inevitavelmente aumentará as tensões dentro do governo.
“Como costuma acontecer depois de derrotas, certamente logo surgirão pedidos para que cada partido adote posições mais firmes”, afirmou Solveen.
Fontes do SPD disseram que a atual agenda de reformas não deve ser totalmente abandonada, mas que outras medidas precisam ser consideradas, sobretudo para reforçar sua dimensão social.
“O governo precisa transmitir a mensagem de que as reformas vão melhorar a vida das pessoas”, disse Baerbel Bas, copresidente do partido. “Essa mensagem simplesmente não está chegando neste momento.”
Pacote econômico não convence eleitores
Merz chegou ao poder em 2025 prometendo reformas duras para reanimar a economia, mas um pacote inicial de medidas econômicas apresentado em julho não conseguiu restaurar a confiança dos eleitores.
Um aumento dos investimentos possibilitado por um fundo especial de 500 bilhões de euros (US$ 580 bilhões) para infraestrutura e por uma isenção das regras de endividamento para gastos com defesa está demorando mais do que o esperado para se refletir na economia.
A economia finalmente começa a ganhar impulso, e institutos econômicos revisaram para cima suas projeções, mas a melhora foi pequena e tardia demais para convencer os eleitores do Estado oriental da Saxônia-Anhalt, o mais pobre da Alemanha em termos de Produto Interno Bruto (PIB) per capita.
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A AfD, de perfil anti-imigração, ficou pouco abaixo da maioria absoluta no Parlamento estadual na votação de domingo, deixando incerto se conseguirá formar um governo. O partido tornou-se a principal expressão da oposição ao sistema político baseado no consenso que governa a Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.
Os partidos da coalizão divergem sobre como interpretar a derrota eleitoral. O SPD aponta para cortes excessivos de gastos, enquanto a CDU atribui o resultado aos impostos elevados e ao endividamento, disseram fontes partidárias sobre as discussões internas.
A Saxônia-Anhalt representa apenas 1,8% do PIB alemão, e instrumentos importantes, como impostos, estrutura do mercado de trabalho e sistemas de seguridade social, estão fora das competências de um governo estadual. Por isso, a vitória da AfD não deve alterar de maneira significativa a política fiscal ou econômica nacional.
Economistas, no entanto, temem que a vitória da AfD possa afastar investimentos estrangeiros e desestimular a chegada de trabalhadores qualificados.
Outra preocupação é que o resultado eleitoral revele uma perda mais ampla de apoio popular à integração europeia, aos mercados abertos e à livre circulação de trabalhadores, fatores que no passado impulsionaram o sucesso econômico da Alemanha.
Defensores das reformas argumentam, porém, que os políticos devem levar adiante as difíceis mudanças estruturais em um modelo econômico que passou a ser questionado pela ascensão da indústria chinesa e pelo fim do acesso a fontes baratas de energia russa desde a guerra na Ucrânia.
“Precisamos urgentemente de reformas transformadoras que vão muito além das reformas da Agenda 2010 de 25 anos atrás”, afirmou Marcel Fratzscher, presidente do instituto de pesquisa DIW, com sede em Berlim.
“Se isso não for feito, aumentará a probabilidade de a AfD conquistar maioria absoluta em 2029.”