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quinta-feira, setembro 10, 2026

A Cozinha da Calçada: Como a Comida de Rua na China Participa de um Mercado de US$ 810 Bi

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De Pequim, no norte gelado, passando por Xangai, na costa leste, até Chengdu, no coração verde e apimentado de Sichuan, são milhares de quilômetros atravessando diferentes regiões da China. Fazer esse percurso de trem de alta velocidade é cruzar paisagens que se transformaram radicalmente nas últimas quatro décadas, migrando de um passado predominantemente agrário para um presente de metrópoles pulsantes.

O país, que na década de 1970 mantinha mais de 80% de sua população no campo, dependente de cupons estatais de racionamento para conseguir grãos e óleos básicos, hoje ostenta uma taxa de urbanização de quase 68%. Em 2025, exatos 67,89% dos chineses viviam em áreas urbanas, segundo o National Bureau of Statistics da China. Nessa aceleração urbana, um fenômeno cotidiano chama a atenção pelo volume financeiro que movimenta e pela força das tradições: a comida de rua.

Mas esqueça os espetinhos de insetos e animais exóticos exibidos em algumas feiras de rua na China, especialmente voltadas para turistas e podem até ser de plástico somente para fotos. Além disso, muitas vezes associada em outros cantos do mundo à informalidade precária ou a um recurso de segunda categoria para quem precisa gastar pouco, a comida de rua na China – conhecida pelo termo Xiǎochī (literalmente “pequenas comidinhas”) – é uma área vital para o setor de Food Service. E está inserida em uma indústria gigantesca: em 2025, todo o setor de alimentação e restaurantes do país movimentou 5,798 trilhões de yuans, cerca de US$ 810 bilhões, também de acordo com o bureau de estatísticas do país.

V.OndeiComida de rua em Xangai, no Yu Garden

A comida de rua na China aponta que a modernidade e a urbanização acelerada não precisaram atropelar a identidade culinária de um povo. Em vez de desaparecer frente aos grandes shoppings e às redes internacionais de fast-food, a cozinha de calçada se digitalizou, organizou suas finanças e manteve seus preços competitivos. Hoje, o setor de alimentação como um todo responde por cerca de 11% das vendas de varejo de bens de consumo do país e reúne mais de 10 milhões de negócios, segundo dados oficiais divulgados pelo governo chinês. Não por acaso, as bancas e quiosques de calçada não figuram como solução marginal. Elas são consideradas como a “cozinha estendida” de uma sociedade que trabalha em ritmo frenético e consome muito.

Economia do Sabor Sem Papel Moeda

Pela manhã, na saída de qualquer estação de metrô em Xangai ou nas imediações do Yu Garden, por exemplo, ou nas ruas de Pequim, é comum uma cena que se repete em escala nacional. Em quiosques ou carrinhos, o vapor sobe enquanto o cozinheiro despeja uma concha de massa de milho e trigo sobre a chapa redonda e quente.

Com um rodo de madeira, ele espalha a massa em um círculo perfeito, quebra um ovo por cima, salpica gergelim e cebolinha, vira o crepe, passa molho de soja fermentado com pimenta e dobra ao meio. É o Jianbing, o clássico crepe de café da manhã de muitos chineses. A operação toda dura menos de 80 segundos, custa algo em torno de R$ 7 e é paga por aplicativo, como se tornou também hábito no Brasil com o Pix.

V.OndeiNa China, comer na rua pode sair mais barato

Na China, os aplicativos de pagamento responderam por 89% do valor das transações realizadas em pontos físicos de venda em 2025, segundo o Global Payments Report 2026. O WeChat Pay e o Alipay dominam esse ecossistema. Essa agilidade atende a um hábito profundamente enraizado. Na China urbana contemporânea, existe uma chamada Breakfast Economy, a economia do café da manhã, alimentada por trabalhadores que fazem a primeira refeição do dia fora de casa. À noite, a dinâmica migra para a Night Economy (a economia noturna), responsável por cerca de 60% do consumo dos moradores urbanos do país, segundo levantamento do Ministério do Comércio da China. Mercados noturnos e vielas gastronômicas reúnem famílias e grupos de amigos ao redor de espetinhos grelhados na brasa (Chuanr), porções de tofu fermentado crocante (Stinky Tofu) e travessas fumegantes de frutos do mar.

A Matemática da Conveniência: Por que a rua vence o supermercado?

Para entender por que a comida de rua é tão popular, é preciso olhar para a conta do final do mês dos moradores das grandes cidades. Com a expansão da chamada “Economia dos Solteiros” (Single Economy), morar sozinho ganhou escala na China. Em 2024, os domicílios formados por uma única pessoa representavam 19,5% do total, segundo o China Statistical Yearbook 2025, do National Bureau of Statistics. A proporção equivale, pela expansão da amostra oficial, a cerca de 104 milhões de pessoas vivendo sozinhas no país, um contingente que passou a movimentar um mercado próprio de consumo.

Para esse perfil demográfico, fazer compras semanais no supermercado pode se tornar uma escolha financeiramente menos atraente. Na conta de cozinhar em casa entra o custo de varejo de vegetais, carnes, óleos e temperos vendidos em pequenas porções, além do consumo de gás, energia elétrica e o inevitável desperdício de alimentos que estragam nas geladeiras.

Soma-se a isso o custo de oportunidade: o tempo gasto lavando, cortando, cozinhando e limpando a cozinha após uma jornada de trabalho muitas vezes longa. Comer na rua pode sair mais barato. Uma tigela farta de macarrão esticado na hora com caldo concentrado de carne e ervas (Lanzhou Lamian) sai por cerca de 15 a 18 yuan (até R$ 14). Para quem mora sozinho, comprar todos os ingredientes necessários para reproduzir o prato em casa pode retirar parte da vantagem financeira de cozinhar apenas uma porção, e pode custar até duas vezes mais.

V.OndeiComida no Shuangta Market, em Suzhou, cidade que por trem bala está a meia hora de Xangai

Além da conta do bolso, existe um fator imaterial determinante: o conceito cultural de Yānhuoqi. A tradução literal remete ao “vapor e fumaça que sobem do fogo de cozinhar”, mas o significado poético e social vai além. Yanhuoqi representa a energia de uma comunidade, a sensação de pertencimento, o calor humano ou a vitalidade de um bairro. Uma rua sem o cheiro de comida e sem burburinho é vista na China como um espaço frio e sem vida.

Essa conexão afetiva foi preservada mesmo com o avanço regulatório desse mercado de rua. Nas últimas duas décadas, diferentes cidades tiraram de cenas as barracas informais e no lugar hoje estão quiosques padronizados e zonas gastronômicas delimitadas, como ocorre no Yu Garden, ou no Shuangta Market, em Suzhou, cidade que por trem bala está a meia hora de Xangai e que é considerada seu pólo produtivo e tecnológico complementar.

Foi a tecnologia que transformou a fiscalização. Em Xangai, por exemplo, esses locais são obrigados a exibir informações de supervisão sanitária e o consumidor pode acessar, inclusive por QR Code, resultados de inspeções e classificações de segurança alimentar. A cidade também vem ampliando sistemas digitais de rastreabilidade de alimentos, nos quais é possível consultar informações sobre matérias-primas em parte desses estabelecimentos, segundo o governo municipal de Xangai. Como a maioria das preparações é feita ao vivo – do vapor das panelas de bambu às grelhas abertas – , controles de processos ajudam a manter e fazer parte do futuro a permanência do hábito chinês de comer na rua.

[Fonte Original]

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