Grandes equipes esportivas profissionais transformaram dezenas de proprietários de franquias em bilionários muitas vezes ao longo do último quarto de século, mas ninguém ganhou tanto dinheiro com a propriedade de times quanto Stan Kroenke.
O bilionário recluso — que anunciou na terça-feira que está comprando uma participação majoritária no Los Angeles Angels de Arte Moreno, por uma avaliação de cerca de US$ 4 bilhões (R$ 20,4 bilhões), segundo uma pessoa com conhecimento do negócio — construiu sua fortuna no mercado imobiliário e é o maior proprietário privado de terras dos Estados Unidos, com cerca de 2,7 milhões de acres de fazendas. Mas são seus investimentos em equipes esportivas nas últimas três décadas que agora representam a maior parte de seu patrimônio líquido estimado em US$ 27,6 bilhões (R$ 140,76 bilhões). Mesmo antes da conclusão do negócio com os Angels, as participações de Kroenke no Los Angeles Rams, da NFL, no Denver Nuggets, da NBA, no Colorado Avalanche, da NHL, no Colorado Rapids, da MLS, no Arsenal FC, da Premier League, e no Arsenal WFC, da Women’s Super League, valem cerca de US$ 22 bilhões (R$ 112,2 bilhões), já descontadas as dívidas, segundo estimativas da Forbes.
Melhor ainda: Kroenke, de 79 anos, adquiriu essas seis equipes por cerca de US$ 2,4 bilhões (R$ 12,24 bilhões), ou aproximadamente US$ 3,8 bilhões (R$ 19,38 bilhões) em valores corrigidos pela inflação. Em comparação, os Rams, que registraram uma taxa de crescimento anual composta de 18,9% desde 2010 — cinco pontos percentuais acima da média da NFL e bem à frente do retorno anualizado de 12,7% do índice S&P 500 no mesmo período — valiam US$ 10,5 bilhões (R$ 53,55 bilhões) sozinhos no ano passado, segundo estimativas da Forbes, tornando-se a terceira equipe esportiva mais valiosa do mundo.
Times vencedores
O homem que ganhou o apelido de “Silent Stan” — “Stan Silencioso”, em tradução livre — talvez nunca se vanglorie disso, mas, quando a compra do time da MLB for concluída, Kroenke também será incomparável entre os proprietários de equipes esportivas em termos de alcance, tornando-se a primeira pessoa a controlar times em cada uma das cinco principais ligas profissionais masculinas da América do Norte.
O portfólio de Kroenke se beneficiou da valorização das equipes esportivas em todo o mercado americano — as avaliações dos times da MLB mais que dobraram, em média, na última década, enquanto cada uma das outras quatro principais ligas profissionais masculinas da América do Norte viu suas avaliações médias aumentarem pelo menos três vezes. O movimento foi impulsionado pelo aumento das receitas com direitos de transmissão, pela modernização dos estádios e pelo apetite insaciável dos investidores por um ativo que continua sendo fundamentalmente escasso. Mesmo após as recentes adições de novas franquias na MLS, existem apenas 154 equipes nas cinco principais ligas esportivas masculinas americanas.
Impérios em expansão
Mas os próprios clubes de Kroenke também fizeram sua parte. Os Rams, por exemplo, passaram da 28ª posição da NFL em receita no ano anterior à sua compra, quando ainda estavam sediados em St. Louis, para a terceira colocação da liga em Los Angeles, gerando uma receita estimada de US$ 764 milhões (R$ 3,9 bilhões) em 2024. Isso se traduziu em um lucro operacional de US$ 244 milhões (R$ 1,24 bilhão) naquela temporada, empatando na terceira posição entre as equipes esportivas mais lucrativas do mundo no ranking da Forbes de 2026.
O desempenho dos clubes em campo foi ainda mais impressionante. Os Rams venceram o Super Bowl LVI em 2022, em sua nova casa, o SoFi Stadium; o Avalanche conquistou a Stanley Cup no mesmo ano; e os Nuggets levaram o título da NBA em 2023. Enquanto isso, em maio, o Arsenal conquistou a Premier League pela primeira vez em 22 anos, e sua equipe feminina venceu a primeira edição da FIFA Women’s Champions Cup em fevereiro.
Esse histórico, porém, nem sempre foi suficiente para conquistar os torcedores. Os torcedores do Arsenal continuaram a reclamar da gestão de Kroenke muito depois de ele adquirir uma participação majoritária no clube, em 2011, chegando a organizar um protesto “Kroenke Out” em 2021, depois que a equipe flertou com a fracassada proposta de criação da Super League europeia. Ele também continua sendo detestado em St. Louis depois de transferir os Rams para a Califórnia em 2016. Mas, após 11 temporadas consecutivas de derrotas sob o comando de Moreno e apenas uma série de playoffs disputada nos últimos 16 anos, os torcedores dos Angels, em Anaheim, escolheram comemorar nesta semana o acordo de compra de Kroenke.
Pensando no longo prazo
“Ele é competitivo, exige excelência e não é uma pessoa que precisa da admiração dos torcedores”, diz Marc Ganis, presidente da consultoria Sportscorp, que conhece Kroenke há mais de 30 anos. “Ele não fica eufórico nem desanimado com base no que os caras dos programas esportivos de rádio estão dizendo hoje ou poderão dizer amanhã.”
De certa forma, um negócio com uma equipe da MLB representa um retorno às raízes de Kroenke. Seu nome completo é Enos Stanley Kroenke — uma homenagem aos membros do Hall da Fama do St. Louis Cardinals Enos Slaughter e Stan Musial, que lideraram o time ao título da World Series no ano anterior ao nascimento de Kroenke — e ele cresceu ouvindo os jogos dos Cardinals pelo rádio com seu pai e seu avô na pequena cidade de Mora, no Missouri.
Kroenke posteriormente se formou e obteve um MBA pela University of Missouri e fez sua primeira fortuna no mercado imobiliário depois de se casar com Ann Walton, herdeira do Walmart, que separadamente possui um patrimônio líquido de US$ 14,1 bilhões (R$ 71,91 bilhões), segundo estimativas da Forbes. Kroenke tornou-se conhecido por transformar grandes extensões de terra em centros comerciais ativos, muitas vezes tendo uma unidade do Walmart como principal loja, e hoje possui cerca de 60 milhões de pés quadrados de imóveis comerciais, além das terras rurais que possui em estados como Texas, Novo México, Nevada e Wyoming.
Essa experiência no mercado imobiliário seria muito útil para Kroenke em sua segunda fase como proprietário de equipes esportivas. Atualmente, ele controla o SoFi Stadium, dos Rams, o Emirates Stadium, do Arsenal, e a Ball Arena, casa dos Nuggets, do Avalanche e do Colorado Mammoth, da National Lacrosse League, que também pertence a Kroenke.
Muitos retornos
“O primeiro amor de Stan é o desenvolvimento imobiliário. Ele é muito meticuloso quando se trata de imóveis, é muito presente na operação e teve um desempenho extraordinário nesse setor”, diz Ganis, da Sportscorp. “Onde quer que você veja Stan se envolvendo com esportes, deve sempre pensar que existe um componente imobiliário.”
Depois de uma tentativa frustrada de levar uma equipe de expansão da NFL para seu estado natal em 1993, Kroenke comprou 30% dos então Los Angeles Rams em 1995 para facilitar a transferência do time para St. Louis. Dois anos depois, adquiriu mais 10%, pagando um total de US$ 80 milhões (R$ 408 milhões) por sua participação de 40%.
Em 1999, por volta da época em que a Ascent Entertainment Group estava sendo adquirida pela Liberty Media, a empresa buscava vender seus ativos esportivos: os Nuggets, o Avalanche e sua nova arena, então chamada Pepsi Center. Um acordo de US$ 400 milhões (R$ 2,04 bilhões) com outra integrante da família Walton — Ann Walton Laurie, irmã de Ann, e seu marido, Bill Laurie — fracassou devido a uma ação movida por acionistas. Em seguida, a cidade de Denver rejeitou a proposta de US$ 461 milhões (R$ 2,35 bilhões) do bilionário do setor de telecomunicações Donald Sturm porque ele não se comprometeu a manter as equipes na cidade. Kroenke entrou em cena com um acordo de US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões) em 2000.
Naquele ano, a Forbes avaliava os Nuggets em US$ 175 milhões (R$ 892,5 milhões) e o Avalanche em US$ 198 milhões (R$ 1,01 bilhão). Em 2025, esses valores haviam subido para US$ 4,6 bilhões (R$ 23,46 bilhões) e US$ 1,95 bilhão (R$ 9,95 bilhões), respectivamente, colocando as equipes na 17ª posição da NBA e na 18ª da NHL.
Em 2003, Kroenke adquiriu o Colorado Rapids, da Major League Soccer, por um valor não divulgado, em um momento em que a viabilidade da liga ainda era incerta. Hoje, os Rapids valem US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões), ocupando a 28ª posição na MLS. Ele também lançou a Altitude Sports & Entertainment em 2004, uma rede regional de esportes criada para transmitir os jogos de suas equipes na região de Denver.
Corrida pelos investimentos
Quando a proprietária majoritária dos Rams, Georgia Frontiere, morreu em 2008 e seus filhos colocaram o time à venda, Kroenke teve prioridade, com uma opção de igualar qualquer oferta externa. Ele acabou comprando o restante do clube em 2010, desembolsando US$ 450 milhões (R$ 2,3 bilhões), em uma transação que avaliou a franquia em US$ 750 milhões (R$ 3,83 bilhões).
Nos anos seguintes, enquanto endurecia as negociações com a cidade, St. Louis apresentou uma proposta para reformar o antigo Edward Jones Dome, estádio dos Rams. Kroenke, porém, decidiu não renovar o contrato de locação e optou pela construção de um moderno complexo de futebol de US$ 5 bilhões (R$ 25,5 bilhões), além de um empreendimento ao redor chamado Hollywood Park, em aproximadamente 300 acres de terra que havia adquirido em Inglewood, na Califórnia. Os Rams então seguiram para o oeste na temporada de 2016, pagando, segundo relatos, uma taxa de transferência de US$ 645 milhões (R$ 3,29 bilhões), dividida entre outras equipes da NFL.
A cidade de St. Louis processou Kroenke e a NFL, alegando que ele havia violado as regras da liga para transferências de franquias. Em 2021, as partes chegaram a um acordo de US$ 790 milhões (R$ 4,03 bilhões), dos quais, segundo relatos, Kroenke arcou com US$ 571 milhões (R$ 2,91 bilhões).
Passe para a frente
Para desgosto dos moradores do Missouri, a mudança foi um sucesso retumbante para os negócios dos Rams, fazendo o valor da equipe saltar de uma estimativa de US$ 1,45 bilhão (R$ 7,4 bilhões) em seu último ano em St. Louis, em 2015, para US$ 10,5 bilhões (R$ 53,55 bilhões) em 2025, o segundo maior valor da NFL. Enquanto isso, a franquia se tornou uma presença constante entre as candidatas ao título, chegando ao Super Bowl duas vezes nos últimos oito anos e recebendo dos apostadores o status de favorita para levantar o Troféu Lombardi nesta temporada.
Agora, com seu filho Josh atuando como responsável pela gestão dos Nuggets e do Avalanche e assumindo o papel de sucessor à frente do império Kroenke Sports & Entertainment, Kroenke está preparando o terreno para desenvolver 55 acres ao redor da Ball Arena, em Denver, com edifícios residenciais, um hotel e uma casa de shows. Não seria surpreendente se parte de seu plano para os Angels também envolvesse modernizar o estádio de 60 anos da equipe e repensar a área ao seu redor.
Os torcedores de Anaheim certamente não se importariam com uma estratégia semelhante se ela trouxesse para eles um pouco do sucesso recente dos Rams.
Reportagem publicada originalmente em Forbes.com