Nos Giardini, onde dezenas de países disputam a atenção de quem atravessa a Bienal de Veneza, o Brasil começa a contar sua história antes mesmo da entrada. A arquitetura modernista do Pavilhão do Brasil, recém-recuperada, participa ativamente de Comigo ninguém pode, exposição que reúne Adriana Varejão e Rosana Paulino sob curadoria de Diane Lima. As obras escapam das posições convencionais, ocupam paredes e teto, avançam sobre o edifício e obrigam o olhar a se deslocar.
O encontro é inédito. Nascidas com três anos de diferença, Varejão, em 1964, no Rio de Janeiro, e Paulino, em 1967, em São Paulo, as duas construíram algumas das trajetórias mais importantes da arte contemporânea brasileira, mas nunca haviam trabalhado juntas. Em Veneza, obras históricas convivem com trabalhos concebidos especialmente para o pavilhão.
Comigo-ninguém-pode é o nome popular da Dieffenbachia, planta bastante conhecida no Brasil e tradicionalmente colocada perto das entradas das casas. Bonita, resistente e tóxica, ganhou no imaginário popular uma dimensão de proteção. Diane Lima parte justamente dessa ambiguidade entre proteção e veneno para aproximar duas artistas que há décadas investigam, por caminhos diferentes, as marcas deixadas pela colonização na formação do país.
Igor Furtado / Fundação Bienal de São PauloRosana Paulino, Diane Lima e Adriana Varejão, integrantes do projeto curatorial Comigo Ninguém Pode para o Pavilhão do Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
A expografia, assinada por Daniela Thomas em diálogo com as artistas e a curadoria, transforma o edifício em parte do trabalho. Em determinados momentos, inclusive, a autoria deixa de ser imediatamente evidente. É preciso chegar perto, olhar novamente, procurar onde termina uma obra e começa a outra.
Essa relação ganha outra dimensão pela localização. O Pavilhão do Brasil está nos Giardini della Biennale, o parque que concentra parte das representações nacionais históricas e onde estão alguns dos edifícios mais emblemáticos do evento.
Paredes do pavilhão, aliás, confundem-se com as obras. Em Still Life amid Ruin, criada por Varejão para Veneza, relevos e murais parecem romper a superfície arquitetônica. É um recurso reconhecível para quem acompanha sua produção: paredes deixam de funcionar como limites sólidos e revelam interiores que lembram carne, feridas ou matéria orgânica. A beleza da superfície convive com a violência daquilo que parece existir atrás dela.
Paulino trabalha essa mesma história por outra perspectiva. Em Aracnes (1999-2026), fotografias de mulheres negras aparecem sobre uma parede de concreto. Em trabalhos como Ninfa tecendo o casulo, a artista recupera a figura feminina como aquela capaz de produzir, a partir do próprio corpo, a matéria necessária para a continuidade. São imagens ligadas à transformação, à sutura e à permanência diante da violência histórica.
Obra de Adriana Varejão na entrada do pavilhão do Brasil na Bienal de Arte de Veneza
O diálogo entre as duas fica especialmente evidente quando seus trabalhos passam a compartilhar o mesmo campo visual. Atlântico Vermelho (2026), de Paulino, encontra correspondências nos relevos de Varejão. Vistos no mesmo espaço, os trabalhos deixam de funcionar apenas como peças independentes e começam a responder uns aos outros.
“Meu trabalho e o de Rosana Paulino se cruzam na potência das feridas coloniais”, disse Varejão ao ser anunciada para o projeto. Paulino, por sua vez, definiu o encontro como uma oportunidade de investigar essas feridas a partir de “perspectivas femininas distintas”.
Ao percorrer o pavilhão, superfícies parecem se romper, obras atravessam os limites esperados e corpos e elementos da natureza aparecem e desaparecem. Os visitantes que por ali passavam ajustavam os óculos para observar os detalhes do trabalho de Varejão. A exposição pede aproximação, algo especialmente relevante em uma Bienal na qual centenas de obras disputam o olhar entre os Giardini, o Arsenale e diferentes pontos de Veneza.
Talvez seja justamente na saída que o título fique mais claro. A comigo-ninguém-pode é uma planta mantida junto à porta para proteger uma casa, embora carregue em si mesma o veneno. No Pavilhão do Brasil, essa contradição deixa de ser apenas botânica e se transforma em uma maneira de olhar para um país marcado simultaneamente por beleza e histórico de violência, feridas e reconstruções, sobrevivência e transformação.
1 / 4 Simone Padovani/Getty Images
Pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza 2026
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VENICE, ITALY – MAY 08: (EDITORIAL USE ONLY) Visitors explore the Brazil Pavilion at Giardini during a press preview for the 61st International Art Exhibition – La Biennale di Venezia on May 08, 2026 in Venice, Italy. Titled Comigo ninguém pode — named after the popular Brazilian plant Dieffenbachia, which due to its toxicity has become a symbol of protection and ambivalence — the Brazil Pavilion at the 61st Venice Biennale Arte, Giardini, presents an unprecedented dialogue between two major Brazilian artists, Rosana Paulino (São Paulo, b. 1967) and Adriana Varejão (Rio de Janeiro, b. 1964), curated by Diane Lima, commissioned by Andrea Pinheiro, President of the Fundação Bienal de São Paulo, in partnership with the Ministry of Culture and the Ministry of Foreign Affairs, with exhibition design by Daniela Thomas; bringing together historical works, previously unseen paintings, sculptures, and drawings alongside new large-scale works developed specifically for this encounter, the exhibition was conceived as a composition of harmonies and dissonances — akin to jazz — rather than a didactic account of history, exploring overlaps, tensions, and symbolic, chromatic, material, and iconographic correspondences between two practices that, through sharply different visual languages, both confront colonial legacies, flesh, nature, faith, and the construction of Brazilian identity; Solange Oliveira Farkas, founder and artistic director of Videobrasil, who was set to lead the Biennale jury, resigned alongside the entire jury panel on April 30, 2026 The 61st International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, titled In Minor Keys and conceived by the late curator Koyo Kouoh, runs from May 9 to November 22, 2026, at the Giardini, the Arsenale, and venues throughout Venice. (Photo by Simone Padovani/Getty Images)
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VENICE, ITALY – MAY 08: (EDITORIAL USE ONLY) Visitors explore the Brazil Pavilion at Giardini during a press preview for the 61st International Art Exhibition – La Biennale di Venezia on May 08, 2026 in Venice, Italy. Titled Comigo ninguém pode — named after the popular Brazilian plant Dieffenbachia, which due to its toxicity has become a symbol of protection and ambivalence — the Brazil Pavilion at the 61st Venice Biennale Arte, Giardini, presents an unprecedented dialogue between two major Brazilian artists, Rosana Paulino (São Paulo, b. 1967) and Adriana Varejão (Rio de Janeiro, b. 1964), curated by Diane Lima, commissioned by Andrea Pinheiro, President of the Fundação Bienal de São Paulo, in partnership with the Ministry of Culture and the Ministry of Foreign Affairs, with exhibition design by Daniela Thomas; bringing together historical works, previously unseen paintings, sculptures, and drawings alongside new large-scale works developed specifically for this encounter, the exhibition was conceived as a composition of harmonies and dissonances — akin to jazz — rather than a didactic account of history, exploring overlaps, tensions, and symbolic, chromatic, material, and iconographic correspondences between two practices that, through sharply different visual languages, both confront colonial legacies, flesh, nature, faith, and the construction of Brazilian identity; Solange Oliveira Farkas, founder and artistic director of Videobrasil, who was set to lead the Biennale jury, resigned alongside the entire jury panel on April 30, 2026 The 61st International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, titled In Minor Keys and conceived by the late curator Koyo Kouoh, runs from May 9 to November 22, 2026, at the Giardini, the Arsenale, and venues throughout Venice. (Photo by Simone Padovani/Getty Images)
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VENICE, ITALY – MAY 08: (EDITORIAL USE ONLY) Visitors explore the Brazil Pavilion at Giardini during a press preview for the 61st International Art Exhibition – La Biennale di Venezia on May 08, 2026 in Venice, Italy. Titled Comigo ninguém pode — named after the popular Brazilian plant Dieffenbachia, which due to its toxicity has become a symbol of protection and ambivalence — the Brazil Pavilion at the 61st Venice Biennale Arte, Giardini, presents an unprecedented dialogue between two major Brazilian artists, Rosana Paulino (São Paulo, b. 1967) and Adriana Varejão (Rio de Janeiro, b. 1964), curated by Diane Lima, commissioned by Andrea Pinheiro, President of the Fundação Bienal de São Paulo, in partnership with the Ministry of Culture and the Ministry of Foreign Affairs, with exhibition design by Daniela Thomas; bringing together historical works, previously unseen paintings, sculptures, and drawings alongside new large-scale works developed specifically for this encounter, the exhibition was conceived as a composition of harmonies and dissonances — akin to jazz — rather than a didactic account of history, exploring overlaps, tensions, and symbolic, chromatic, material, and iconographic correspondences between two practices that, through sharply different visual languages, both confront colonial legacies, flesh, nature, faith, and the construction of Brazilian identity; Solange Oliveira Farkas, founder and artistic director of Videobrasil, who was set to lead the Biennale jury, resigned alongside the entire jury panel on April 30, 2026 The 61st International Art Exhibition – La Biennale di Venezia, titled In Minor Keys and conceived by the late curator Koyo Kouoh, runs from May 9 to November 22, 2026, at the Giardini, the Arsenale, and venues throughout Venice. (Photo by Simone Padovani/Getty Images)
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