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“Eu já estava propenso a vir, mas essa última semana me fez estar aqui na Avenida Paulista hoje”. A fala do empresário paulista Luciano Romão, de 55 anos, resume o clima da manifestação convocada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) neste feriado 7 de Setembro.
Os diálogos revelam uma série de interações de Vorcaro com um contato dele salvo com o nome de Alexandre de Moraes e mostram trocas de informações sobre a Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema bilionário de fraudes envolvendo o Banco Master, e sobre o contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo.
A decisão de Mendonça abriu uma crise considerada sem precedentes no STF, levando Moraes a incluir o colega no chamado inquérito das fake news — retirado posteriormente pelo presidente da corte, ministro Edson Fachin.
“Quando você vê o André Mendonça, lutando pelo que é certo, tentar ser tirado como o errado, e o outro se fazer de vítima da vez depois de assinar contrato com Vorcaro, aí você olha e realmente perde o sentido”, argumentou Romão, presente pela segunda vez para um ato na Paulista.
Na primeira, ainda havia a presença do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado.
Os apoiadores de Flávio Bolsonaro chegaram à Avenida Paulista, coração de São Paulo, durante o início da tarde. Por volta das 15h, várias lideranças do bolsonarismo já faziam discursos contra Moraes e o STF e a favor de Mendonça. Entre os presentes estavam o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o pastor Silas Malafaia.
Apesar do impulso da crise no STF, o protesto reuniu 28,5 mil pessoas no seu auge, segundo levantamento do Monitor do Debate Político – USP/Cebrap e em parceria com a organização More in Common.
O grupo tem calculado o volume de manifestantes em protestos empregando um método que usa um drone tirando fotos aéreas da multidão. Um software analisa essas imagens para identificar e marcar automaticamente as cabeças das pessoas. Usando inteligência artificial, o sistema localiza cada indivíduo e conta quantos pontos aparecem na imagem.
No ato de 7 de setembro de 2025, o monitor estimou 42,2 mil pessoas na Paulista e 42,7 mil em Copacabana, no Rio de Janeiro. Em 2024, estiveram 45,4 mil pessoas na Paulista. Portanto, o ato de 2026 foi considerado menor.
Nas ruas, manifestantes usavam verde a amarelo e adesivos de candidatos da direita enquanto ouviam os discursos no palco montado em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp).
O Dia da Independência do Brasil teve santinhos, bandeiras de candidatos da direita e jingles de diversos gêneros, de brega funk a pagodão. Mas as bandeiras dos EUA e Israel, já parte da iconografia dos atos da direita, também eram vistas em meio ao verde e amarelo, junto a um boneco inflável gigante de Donald Trump.
A Avenida Paulista foi reservada pelo PL ainda em agosto. Na época, o partido e Flávio Bolsonaro convocaram nas redes sociais o ato com o lema “Vamos juntos resgatar o Brasil”.
Críticas a Moraes sempre estiveram presente em atos do bolsonarismo, já que o ministro foi o relator do processo que levou Bolsonaro à prisão por tentativa de golpe.
Mas foi apenas após a divulgação das mensagens de Vorcaro, em 1º de setembro, que a pauta “Fora Moraes” foi ganhando centralidade na manifestação.
A aposentada Vera Saraiva, de 64 anos, relatou que o teor das conversas de Moraes com Vorcaro é um “escândalo sem precendentes”.
“Isso aqui não é casa da Maria Joana que eles fazem o que eles querem. Eles são o Supremo, eles têm que seguir a Constituição e não estão seguindo. Tem que ser feita uma limpa no STF, porque eles se acham os donos do Brasil”, criticou.
Perguntada sobre o que ela achava da relação de Vorcaro com Flávio Bolsonaro, que pediu ao banqueiro milhões para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, Vera disse não achar que o senador fez nada errado.
“Patrocínio, todos eles pedem, Vorcaro é um banqueiro. Também deve ter pedido a outras pessoas. Mas ele não usou a Lei Rouanet, que todo mundo usa e ninguém vê a cor do dinheiro”, defendeu.
Para o servidor público Fábio Amaral, 51 anos, o erro de Flávio foi “não falar logo” da relação com Vorcaro.
“Porque corrupção é quem está no governo, e quem está no governo agora é o Lula”, defendeu,
O servidor contou ainda que a relação com Vorcaro pode ter levado a uma queda de popularidade de Flávio, mas que a pauta “contra Moraes” o estimulou a ir a Paulista.
“A popularidade na verdade é do pai dele. Eu preferiria o Tarcísio, né? Mas se o pai dele escolheu ele…”, completou o servidor.

Crédito, Rute Pina/BBC
O candidato do PL e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estão praticamente empatados nas pesquisas de intenção de voto para o segundo turno, com o herdeiro de Bolsonaro reconquistando o fôlego nas últimas semanas, mostra o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.
Para Fábio, a direita precisa fazer um Senado forte nas eleições para próxima legislatura, “para poder dar um freio no STF”.
“O Moraes abriu esse inquérito do fim do mundo [das fake news] que não acaba nunca. Chamo assim porque ele coloca tudo o que ele quer lá, inclusive o Mendonça”, declarou.
Na noite de quinta-feira (3/9), Moraes encaminhou ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, um pedido de investigação contra o ministro André Mendonça, dois dias depois que este havia pedido a Fachin para levar ao plenário um relatório produzido pela PF contra Moraes indicando possíveis irregularidades na relação do juiz com Vorcaro.
Na petição, Moraes acusa o colega de, “em tese”, ter cometido improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e de abuso de autoridade, com quebra da “imparcialidade judicial” e “favorecimento a determinados grupos políticos” ao atuar como relator dos casos do escândalo do INSS (“Operações Sem Desconto”) e do Banco Master (“Operação Compliance Zero”).
Na quinta, Fachin deu cinco dias para que os ministros Moraes e Mendonça, além do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também citados nos diálogos de Vorcaro, se manifestem sobre a crise aberta.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o confronto de Mendonça e Moraes coloca em xeque a imagem da Corte perante a sociedade, não parece ter uma saída previsível e representa uma crise sem precedentes, onde “ninguém está certo”.
Para a cientista política e jornalista Grazielle Albuquerque, “aos olhos da sociedade, o tribunal parece estar implodindo. É uma crise enraizada por dentro e não parece ter saída previsível”, diz.

Crédito, Getty Images
Apoio a Mendonça e Moraes ‘ditador’
No trio elétrico montado em frente ao Masp, candidatos do PL, deputados da direita e apoiadores de Flávio se revezaram no microfone pedindo impeachment de Moraes e apoio a Mendonça. O tom também foi de críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Não existe Lula sem Alexandre de Moraes e não existe Alexandre de Moraes sem Lula”, disse o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa com Flávio Bolsonaro.
Flavio Bolsonaro começou o discurso, por volta das 16h20, pedindo “fora Lula e fora Moraes”.
“O Lula é responsável por esse caos moral que o Brasil está passando hoje. Todo esse sofrimento e essa angústia que motiva cada um de nós a vir pra rua nesse 7 de Setembro, a culpa é dele. Quem vota em Lula vota em Alexandre de Moraes! Nós não vamos permitir que Lula indique mais quatro Alexandres pro STF. Eu vou indicar mais 5 ministros pro STF por que Alexandre vai cair”, declarou Flávio.
O candidato prometeu indicar para STF “homens e mulheres que sejam contra o aborto, contra as drogas, contra a ideologia de gênero nas escolas, que respeitem a Constituição, que nao persigam adversários políticos e que retomem a credibilidade do Supremo”.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) subiu no palanque para dizer que “ninguém, absolutamente ninguém, está acima da lei e da Constituição. Banqueiro nenhum, senador nenhum, magistrado nenhum, ministro nenhum, governador nenhum, presidente da república nenhum. Todos precisam se submeter ao império da lei, doa a quem doer, custe a quem custar”.
O pastor Silas Malafaia chamou Moraes de “ditador” ao comentar a decisão que tomou seu passaporte e o impede de fala com Bolsonaro. Ele pediu a Fachin que afaste Moraes no STF.

Crédito, REUTERS/Amanda Perobelli

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