O Bitcoin opera levemente abaixo de US$ 77 mil nesta terça-feira (15), em compasso de espera antes de uma sequência de eventos que pode definir o rumo do mercado nos próximos dias. A criptomoeda chegou a tocar US$ 79.530 durante a madrugada, mas perdeu força no início da manhã, enquanto investidores se protegem contra uma possível queda com opções de venda, conhecidas como puts.
Nesta manhã, o Bitcoin tem queda de 1,2%, cotado a US$ 76.958 em 24 horas. Em reais, a maior criptomoeda do mundo estava em R$ 398.633, segundo dados do Portal do Bitcoin. O Ethereum, por sua vez, recua 1,7%, a US$ 2.475. Já o XRP sobe 1,3%, enquanto a Solana tem queda de 0,6% e a BNB cai 0,8%.
A pressão do Bitcoin vem de três frentes. A primeira é a votação procedimental do Clarity Act no Senado dos Estados Unidos, marcada para hoje. A segunda é a decisão do Federal Reserve sobre juros, na quarta-feira. A terceira é a reunião do Banco do Japão, em meio a uma venda global de títulos e juros americanos no maior nível desde 2007.
O Clarity Act é o principal projeto de lei para definir a estrutura de regulação cripto nos EUA, dividindo competências entre a SEC e a CFTC. A votação desta terça não aprova definitivamente a lei, mas decide se o texto avança para debate no Senado. Para isso, são necessários 60 votos, o que exige apoio de democratas, já que os republicanos têm 53 cadeiras.
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As chances de aprovação ainda neste ano caíram novamente nos mercados de previsão. Na Polymarket, a probabilidade do Clarity Act virar lei em 2026 recuou para cerca de 18% a 19%, depois de ter subido para perto de 30% na segunda-feira. A queda veio após novos questionamentos de democratas sobre a proposta de ética incluída no texto republicano.
Mercado se protege contra queda
O aumento da cautela aparece no mercado de opções. Contratos de venda de Bitcoin voltaram a ficar mais caros que opções de compra, principalmente nos vencimentos de sete dias, que capturam justamente a votação do Clarity Act, a decisão do Fed e a reunião do Banco do Japão.
Na prática, isso mostra que investidores estão pagando mais para se proteger de uma queda do BTC no curto prazo. Segundo a Laevitas, o chamado skew de sete dias virou de positivo para negativo na última semana, indicando maior demanda por proteção contra baixa.
Ao mesmo tempo, o mercado de derivativos está menos alavancado. Taxas de financiamento caminham para perto de zero, prêmios de futuros voltaram para menos de 5% e o interesse em aberto perdeu força. Isso reduz o risco de uma grande onda de liquidações forçadas, mas também deixa o preço mais sensível a cada manchete.
A leitura de Yusuf Fakhro, sócio da ARP Digital, é que uma derrota do Clarity Act já está em boa parte nos preços. O risco maior para o mercado, segundo ele, seria uma surpresa positiva. “A queda por uma votação fracassada está amplamente precificada; uma aprovação surpresa, não”, afirmou.
Juros dos EUA voltam a assustar
Além da votação no Senado, o Bitcoin enfrenta a pressão dos juros globais. O rendimento do Treasury de 10 anos chegou a 5,04%, maior nível desde 2007, em meio a preocupações com inflação, petróleo em alta e sustentabilidade fiscal dos EUA.
O mercado também espera que o Fed eleve os juros em 0,25 ponto percentual na quarta-feira. Segundo o Barron’s, investidores precificavam probabilidade de cerca de 93% para uma alta, o que poderia levar a taxa americana para uma faixa entre 3,75% e 4%.
Esse cenário costuma pesar sobre o Bitcoin porque juros mais altos tornam os títulos públicos mais competitivos e aumentam o custo de posições alavancadas. Ainda assim, parte dos analistas avalia que a alta recente dos Treasuries não vem apenas de crescimento econômico forte, mas também de dúvidas fiscais e inflação de energia. Isso pode fazer com que ativos alternativos, como ouro e Bitcoin, não reajam exatamente como em ciclos tradicionais de aperto monetário.
A decisão do Banco do Japão também entrou no radar. A expectativa de nova alta de juros no país aumenta a pressão sobre o mercado global de títulos e pode afetar operações de carry trade, em que investidores tomam recursos em moedas de juros baixos para aplicar em ativos de maior retorno.
Apesar da cautela, a demanda institucional por Bitcoin não desapareceu. Produtos negociados em bolsa ligados ao BTC captaram quase 14 mil bitcoins na semana passada, incluindo 10,7 mil BTC em 3 de setembro, o maior fluxo diário desde abril de 2025, segundo dados do CoinDesk. Isso ajuda a explicar por que o Bitcoin segue acima de suportes importantes, mesmo com juros em alta e incerteza política.
O ponto decisivo agora é se o Bitcoin conseguirá atravessar a sequência de eventos sem perder a faixa dos US$ 77 mil. Uma derrota do Clarity Act pode ter impacto limitado se o mercado já tiver precificado esse cenário. Mas uma aprovação inesperada poderia gerar alta rápida, especialmente em um ambiente de baixa alavancagem. Já no lado macro, o tom do Fed deve ser mais importante que a alta de juros em si: se o banco central sinalizar novos aumentos, o BTC pode voltar a testar suportes; se indicar pausa após o ajuste, o mercado pode tentar recuperar a faixa dos US$ 80 mil.
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