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terça-feira, setembro 8, 2026

Quem paga a conta mais pesada? O peso financeiro no varejo

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A queda da Selic costuma trazer uma associação quase automática com o varejo: juros menores aliviam o custo do crédito, podem favorecer o consumo e reduzir parte da pressão financeira sobre as empresas.

Mas essa conta não pesa da mesma forma para todas. Em uma amostra de 30 companhias de varejo e consumo da B3, as despesas financeiras variam de 1,3% a 23% da receita líquida em 2026.

Os dados fazem parte do estudo “O preço da dívida no varejo brasileiro”, da Málaga & Associados, enviado ao InfoMoney e assinado por Flávio K. Málaga e Victor Marques.

A fotografia surge justamente quando os juros começam a ceder. Em agosto, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, na quarta queda consecutiva. O Copom, porém, deixou em aberto os próximos passos do ciclo.

O levantamento acompanha as demonstrações financeiras das empresas entre 2018 e 2026. Os dados deste ano foram anualizados a partir do período disponível. A amostra reúne companhias de varejo e consumo, mas também inclui segmentos adjacentes, como turismo, energia e agronegócio.

A Málaga ordenou as 30 empresas conforme a relação entre despesas financeiras e receita líquida e dividiu a amostra em dois grupos de 15 companhias.

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Entre as mais pressionadas, essa relação passou, em média, de 5,1% em 2018 para 12,3% em 2026. Entre as 15 menos pressionadas, avançou de 1,6% para 3,1%.

O contraste ajuda a mostrar quem carrega hoje a conta financeira mais pesada — e até onde uma Selic menor pode aliviar empresas que chegam ao novo ciclo em condições tão diferentes.

Despesa financeira mais que dobra no grupo mais pressionado

Para dimensionar essa pressão, a Málaga utiliza uma margem operacional de referência de 5,3%. O indicador corresponde à média de cinco anos das 15 companhias com as maiores margens operacionais da amostra, com desvio padrão de 0,5 ponto percentual.

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A comparação chama atenção porque, no grupo mais pressionado, as despesas financeiras correspondem, em média, a 12,3% da receita em 2026 — mais que o dobro dessa margem operacional de referência.

O movimento também não começou agora. Segundo o estudo, a linha das 15 empresas mais pressionadas ultrapassou a referência de margem operacional em 2020 e não voltou a ficar abaixo dela nos anos seguintes.

Em 2026, as despesas financeiras representam entre 4,8% e 23% da receita líquida nesse grupo. Treze das 15 companhias apresentam uma relação maior que a observada em 2018.

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Quem está no grupo mais pressionado?

A CVC aparece no topo da relação elaborada pela Málaga. As despesas financeiras da companhia passaram de 7,7% da receita em 2018 para 23% em 2026.

Na sequência estão Cosan, com 20,5%; Marisa, com 19%; Smart Fit, com 18,6%; e Grupo Toky, com 17,6%. O Grupo Casas Bahia registra 8,3%, ante 2,5% em 2018.

As 15 empresas mais pressionadas

Empresa20182026VariaçãoMargem operacional média de 5 anos
CVC Brasil7,7%23,0%+15,2 p.p.4,9%
Cosan8,4%20,5%+12,1 p.p.21,1%
Marisa2,7%19,0%+16,4 p.p.2,3%
Smart Fit12,0%18,6%+6,5 p.p.13,8%
Grupo Toky3,6%17,6%+14,1 p.p.-9,4%
AgroGalaxy2,0%15,1%+13,1 p.p.2,5%
MPM Corpóreos2,6%12,9%+10,3 p.p.13,8%
Grupo Casas Bahia2,5%8,3%+5,8 p.p.1,6%
International Meal Company0,8%7,5%+6,6 p.p.2,0%
Americanas12,9%7,1%-5,8 p.p.-7,8%
GPA2,0%6,5%+4,5 p.p.1,4%
Guararapes2,3%5,9%+3,6 p.p.6,7%
Veste9,9%5,4%-4,5 p.p.-5,7%
Lojas Quero-Quero1,7%5,2%+3,5 p.p.3,4%
Vivara2,5%4,8%+2,2 p.p.n.d.

Fonte: Málaga & Associados. Dados de 2026 anualizados a partir do período disponível.

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Os balanços mais recentes ajudam a acrescentar contexto a alguns dos nomes. A CVC registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 51,3 milhões no segundo trimestre de 2026, enquanto a Marisa teve prejuízo líquido de R$ 68,4 milhões e resultado financeiro negativo de R$ 106 milhões no período.

E quem está no grupo menos pressionado?

A fotografia muda no segundo grupo. Entre as 15 companhias classificadas pela Málaga como menos pressionadas, as despesas financeiras representam de 1,3% a 4,7% da receita líquida em 2026. Segundo o estudo, esse é um patamar que a margem operacional do grupo ainda consegue cobrir.

Grupo SBF e União Pet aparecem com 4,7%. A Azzas 2154 vem logo depois, com 4,6%, seguida por Automob, com 4,4%, e C&A, com 4,3%.

Mais abaixo estão nomes bastante conhecidos do investidor: Magazine Luiza, com 3,5%; Raia Drogasil, com 2,5%; Grupo Mateus, com 2,1%; Lojas Renner, com 1,6%; e Vibra Energia, com 1,3%.

As 15 empresas menos pressionadas

Empresa20182026VariaçãoMargem operacional média de 5 anos
Grupo SBF4,5%4,7%+0,1 p.p.7,5%
União Petn.d.4,7%n.d.7,1%
Azzas 21541,7%4,6%+2,9 p.p.9,4%
Automobn.d.4,4%n.d.4,2%
C&A1,3%4,3%+3,0 p.p.7,7%
Unicasa0,1%4,2%+4,1 p.p.2,4%
Assaí0,2%4,2%+4,0 p.p.5,5%
Magazine Luiza0,5%3,5%+3,0 p.p.1,9%
Pague Menos8,0%3,3%-4,7 p.p.4,8%
Dimed0,5%2,5%+2,1 p.p.4,0%
Raia Drogasil0,4%2,5%+2,1 p.p.6,1%
d10001,9%2,5%+0,6 p.p.2,4%
Grupo Mateus2,1%2,1%0,0 p.p.5,9%
Lojas Renner1,1%1,6%+0,5 p.p.10,0%
Vibra Energia0,3%1,3%+1,0 p.p.3,6%

Fonte: Málaga & Associados. União Pet e Automob não possuem série completa em 2018. Dados de 2026 anualizados a partir do período disponível.

A presença nesse segundo grupo não significa ausência de desafios operacionais. O Magazine Luiza, por exemplo, registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre. A Renner teve lucro praticamente estável, de R$ 404,6 milhões, mas reduziu sua projeção de crescimento da receita líquida para 2026.

Quando a despesa financeira supera a margem

Outra leitura possível do estudo surge quando as despesas financeiras são colocadas lado a lado com a margem operacional de cada companhia.

Na CVC, a despesa financeira equivale a 23% da receita, enquanto a margem operacional média de cinco anos considerada no levantamento é de 4,9%.

Na Marisa, são 19% de despesa financeira para margem de 2,3%. No Grupo Casas Bahia, 8,3% para 1,6%.

Mas nem mesmo o primeiro grupo é homogêneo.

A Cosan, por exemplo, registra despesa financeira de 20,5% da receita e margem operacional média de 21,1%. Na Smart Fit, os indicadores são de 18,6% e 13,8%, respectivamente.

No grupo menos pressionado, a Renner apresenta despesa financeira equivalente a 1,6% da receita, diante de margem operacional média de 10%. Na Raia Drogasil, são 2,5% e 6,1%; no Grupo Mateus, 2,1% e 5,9%.

Também há casos que mostram por que a classificação precisa ser interpretada dentro do recorte escolhido pela Málaga. O Magazine Luiza está entre as 15 empresas menos pressionadas pela relação entre despesa financeira e receita, com 3,5%, mas sua margem operacional média de cinco anos é de 1,9%.

A relação, portanto, não é uma medida isolada de solvência. O estudo mede especificamente quanto da receita líquida é comprometido pelas despesas financeiras.

Uma avaliação mais ampla de cada empresa precisaria incorporar fatores como geração de caixa, liquidez, alavancagem, cronograma de vencimentos e capacidade de refinanciamento.

Quanto a Selic explica essa diferença?

Segundo a Málaga, explica uma parte — mas não toda.

O estudo reconhece que a alta dos juros contribuiu para o aumento da pressão financeira, mas chama atenção para o comportamento diferente dos dois grupos durante o mesmo período.

“A diferença entre os dois grupos está na estrutura de capital herdada e no modelo de negócio, não apenas na taxa de juros.”

Na interpretação da consultoria, o ambiente de juros mais elevados evidenciou diferenças de estrutura de capital e de modelo de negócio que já separavam as companhias.

Selic menor ajuda, mas não zera a conta

Na leitura da Málaga, uma redução da Selic tende a aliviar a pressão financeira, mas não elimina a necessidade de ajustes nas empresas mais pressionadas.

O estudo argumenta que planos de recuperação não deveriam depender da volta ao ambiente de juros excepcionalmente baixos de 2019 a 2021.

Para essas companhias, a consultoria cita alternativas como renegociação de dívidas, venda de ativos, aporte de capital e, nos casos mais extremos, recuperação extrajudicial ou judicial.

A conclusão é que a queda dos juros pode aliviar a conta, mas o efeito será diferente em cada empresa. O ponto de partida — especialmente a relação entre despesas financeiras, receita e margem operacional — continua sendo decisivo.

[Fonte Original]

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