O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, anunciou no começo da semana que não iria comparecer à Assembleia Geral da ONU, marcada para esta terça-feira, justificando o desfalque à posição europeia no principal fórum multilateral do mundo por uma questão de política interna: sua presença em Berlim era necessária. Com os índices de popularidade em baixa e questionamentos à sua liderança, Merz convocou uma reunião executiva da União Democrata Cristã (CDU) para acompanhar, a partir da noite deste domingo, a apuração das eleições regionais da capital alemã e do estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, vistas como chave para a sigla mais dominante da política alemã desde a Segunda Guerra Mundial e para a continuidade de seu Gabinete — apenas 15 dias após a vitória da extrema direita em outra votação regional.
Com a expressiva vitória do Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições na Saxônia-Anhalt, um estado na antiga área de influência comunista, marcando a primeira vez da extrema direita em uma posição próxima de assumir um cargo Executivo desde a queda do Terceiro Reich, a política interna alemã virou um assunto europeu. Países como França, Itália e Espanha, com eleições marcadas para 2027, observam com atenção o crescimento da direita radical em solo alemão, enquanto lidam com suas próprias siglas ultranacionalistas e céticas em relação à União Europeia.
Internamente, o cenário abriu uma crise para Merz, apontado por críticos como principal culpado pela derrocada do partido da direita tradicional. Institutos de pesquisa apontam que a popularidade do líder conservador gira em torno de 10%, passados apenas 16 meses de sua ascensão ao cargo. Embora o chanceler tenha dito nos últimos dias que “desistir não é uma opção” e que pretendia entregar as prometidas recuperação econômica e reestruturação do setor de defesa do país até o fim de seu mandato de quatro anos, há questionamentos sobre sua capacidade em se manter no poder diante de novos insucessos eleitorais.
Uma fonte ligada à CDU ouvida pelo Financial Times afirmou que apesar das indicações de Merz de que permaneceria no cargo, haveria um “consenso amplo” de que um resultado eleitoral considerado negativo nas disputas do domingo “mudariam completamente a dinâmica” dentro do partido.
— Quando derrotas eleitorais, baixa popularidade de um líder e dúvidas dentro de seu próprio partido se retroalimentam, a autoridade política pode desmoronar com grande rapidez — afirmou Oliver Lembcke, cientista político da Universidade Ruhr de Bochum, em entrevista à AFP.
Embora as duas votações deste domingo ocorram sob olhar interessado de Merz, o contexto de cada uma é praticamente oposto para a CDU. Em Berlim, a sigla briga pela liderança, travando uma disputa com o partido de extrema esquerda Die Linke, cujo crescimento identificado nas pesquisas vem sendo associado por analistas às propostas sobre habitação na metrópole. Além da disputa pelo topo da corrida eleitoral na capital, os conservadores devem ficar de olho nos resultados da AfD, que almeja atrair mais votos da direita tradicional.
A principal ameaça ao chanceler, porém, não está na capital. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, um pequeno estado no nordeste do país com cerca de 1,5 milhão de habitantes, a CDU é quase uma espectadora da disputa capitaneada pelos extremistas e a popular ministra-chefe da região, Manuela Schwesig, do Partido Social-Democrata (SPD). Pesquisas realizadas recentemente indicaram uma alternância de liderança, dando margem de um a dois pontos percentuais para cada lado, variando entre 37% e 38% para quem ocupava a dianteira.
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Uma vez que as siglas tradicionais mantêm uma política apelidada de “cordão sanitário” contra o AfD, recusando-se a formar aliança com o partido, é improvável que o pleito reproduza o caso da Saxônia-Anhalt, onde a extrema direita ainda pode chegar ao governo majoritário ou minoritário, a depender das negociações. Todavia, com a votação estimada da CDU entre 6% e 7%, os conservadores ainda correm risco de ficar abaixo dos 5% necessários para conquistar representação no Parlamento regional — no que seria a primeira vez que o partido ficaria sem representação em qualquer eleição realizada desde 1949.
Analistas e fontes internas da CDU admitem que uma derrota avassaladora dos conservadores poderia ser o estopim para uma cisão interna do partido, com a liderança de Merz sendo colocada a prêmio.
Uma fonte ouvida pela Bloomberg a par dos movimentos políticos do chanceler afirmou que a reunião do partido convocada para este domingo foi projetada para evitar que um resultado adverso das urnas se transforme em uma reação fora de controle. Merz pretenderia exigir, inclusive de um influente grupo de governadores estaduais que devem comparecer à capital, que eles apresentem qualquer intenção de substituí-lo ou que declarem apoio à sua liderança.
Oito governadores tentaram evitar um confronto, pelo menos por enquanto, e declararem apoio ao chanceler na quarta-feira, embora persistam dúvidas sobre até que ponto demonstrações de apoio serão suficientes para restaurar a autoridade do líder alemão. Merz, contudo, aposta que o “fogo-amigo” é menos provável por uma combinação de falta de um plano estruturado para suceder-lhe, e a imprevisibilidade ao se derrubar o Gabinete.
Um dos nomes mais populares do partido, visto como um possível futuro chanceler, Hendrik Wüst, ministro-chefe da Renânia do Norte-Vestfália, assinou a declaração em apoio a Merz junto aos outros governadores. A liderança atual também acredita que ele esteja focado na reeleição regional, prevista para abril. Outro cotado como líder é Markus Söder, ministro-chefe da Baviera, que não assinou o documento. Em seu desfavor, porém, está o fato de ser líder da União Social-Cristã (CSU), uma sigla que sempre concorre junto da CDU em nível nacional — mas que, como “sócia-minoritária”, da coalizão, a possibilidade de indicar um chanceler é vista com desconfiança pela liderança.
Também não há garantias de que um voto de desconfiança contra Merz resulte apenas em uma troca no comando da coalizão governista, que hoje é composta também por CSU e SPD, com 328 cadeiras de 630 assentos do Parlamento. Uma cisão dentro da parte conservadora da coalizão, somada às divergências nos aliados de centro-esquerda, poderiam resultar em uma queda de todo o Gabinete, podendo resultar mesmo em eleições antecipadas. (Com AFP e Bloomberg)