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domingo, setembro 6, 2026

Já IA acreditando

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Nesta semana recebi um vídeo de uma criança com um cachorro. Chorei e na mesma hora mandei pra minha filha. Ela respondeu: “Mano, isso é IA. Você tá sofrendo por algo que nem existe.” Na hora achei até meio filosófico, mas quase caí de novo. Vi uma pessoa metendo a tesoura no cabelo e quase comentei: que coragem! Depois vi que era mais uma trend e li uma expressão ótima nos comentários: “Já IA acreditando.”

Sim, eu acredito. Choro com o vídeo de IA do cachorro salvando um bebê, me sinto vingada com os memes políticos e até me dá uma certa excitação a ideia de poder criar uma realidade paralela feita sob medida pra mim. Afinal a vida real anda bem complexa.

Resumindo muito: a inteligência artificial é a capacidade que os sistemas computacionais têm de imitarem funções cognitivas humanas. Confesso que ter uma amiga resumindo o mundo pra mim adiantou a vida: bulas de remédio, manuais de produtos ou dicas de hotéis. Já usei pra muita coisa, mas me recuso que ela escreva algo por mim.

Um amigo me mandou uma mensagem linda de aniversário. Até uma amiga me avisar que era IA. As palavras continuaram bonitas. Só que o valor de uma mensagem não tá só nas palavras. Está em imaginar que alguém parou cinco minutos, pensou em você, apagou uma frase, escreveu outra, tentou achar um jeito próprio de dizer aquilo. Eu ainda sou a favor da experiência humana.

É difícil falar sobre isso sem ter que escolher um lado: o que acha que a IA vai resolver o futuro da Humanidade ou o que acha que ela vai acabar com tudo. Ao mesmo tempo em que ela pode ajudar a medicina a identificar em menos tempo algumas doenças que poderiam levar anos para serem diagnosticadas, ela ainda inventa muita informação, consome uma quantidade significativa de água e cria problemas novos enquanto resolve outros. Nada mais humano do que a contradição.

Se a IA resume pesquisas e textos feitos por humanos, o que seria da IA sem a experiência humana? Sem os anos de pesquisa dos médicos, as descobertas dos cientistas, os textos clássicos, as músicas que ficam ao longo dos séculos? Sem Einstein, Shakespeare, Clarice Lispector, Elis Regina, Oscar Niemeyer, Tarsila do Amaral? E sem quem tá produzindo agora? Sem Tatiana Sampaio fazendo novas descobertas, Conceição Evaristo escrevendo novos livros, sem pesquisadores buscando ou artistas inventando o que ainda não existe, a IA vai ficar sem dados pra processar! Eu sou da época da Barsa e de catar livro na biblioteca. Achar informação era algo batalhado. O que será do futuro da minha filha já que o ChatGPT pensa por ela?

Essa semana li que mais da metade dos brasileiros que usam inteligência artificial já recorrem a ela como conselheira ou apoio emocional. Eu não gosto nem de encontrar minha terapeuta on-line, imagina saber que ela não tem rosto? Porque as transformações humanas acontecem no hiato entre uma fala e outra, no pensamento que te faz refletir, no choro que a terapeuta sabe de onde vem porque te acompanha há anos e no abraço de um amigo que diz que vai dar tudo certo. A intimidade não se faz juntando dados.

Por isso que eu acho que é quase impossível a IA substituir algumas carreiras, como por exemplo a dos atores. E o que mais me tranquiliza: a IA nunca saberá o tempo exato de fazer uma piada. Ela jamais vai te fazer gargalhar! Porque o humor vem da falha. Enquanto o ChatGPT só pensa em se aprimorar, eu quero mais é errar.

Se quiserem usar inteligência artificial pra me fazer voar ou realizar qualquer coisa que preserve meu joelho, sou super a favor dos avanços tecnológicos. Todo o resto eu prefiro descobrir vivendo.

[Fonte Original]

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