Mercados de energia sinalizam crise no inverno e alta das taxas de juros

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No universo dos bancos centrais, analisar as margens de lucro das refinarias de petróleo provavelmente nunca foi considerado um fator relevante para a definição das taxas de juros. Até que os mercados de energia voltaram a emitir sinais de forte turbulência.
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Enquanto os contratos futuros do petróleo Brent ultrapassaram US$ 100 por barril nesta semana, os alertas aumentam em relação aos preços dos combustíveis usados para aquecer residências, abastecer a indústria e manter caminhões em circulação pelo mundo.
A pressão sobre esses produtos tem sido ainda maior do que a observada no preço do petróleo e ameaça produzir impactos mais amplos sobre a economia.
Durante boa parte da guerra contra o Irã, os bancos centrais conseguiram desconsiderar os efeitos do conflito sobre a oferta de energia, já que os cenários mais graves não se concretizaram.
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Agora, porém, enquanto o petróleo volta a disparar, os preços do diesel e do gás natural avançam ainda mais rapidamente, em parte porque a guerra entre Irã e seus adversários dá poucos sinais de uma solução. Os dois lados indicam estar se preparando para um conflito prolongado.
O Banco Central Europeu (BCE) destacou a alta dos preços do petróleo e do gás como um dos riscos que podem levar suas projeções de inflação a níveis mais elevados nos próximos meses.
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu: O BCE elevou as taxas de juros pela segunda vez desde o início da guerra contra o Irã, em fevereiro
Liesa Johannssen/Bloomberg
—Seis meses atrás, se eu tivesse conversado com vocês sobre margens de refino, provavelmente nem saberíamos exatamente do que estávamos falando — afirmou na quinta-feira Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), após anunciar uma alta dos juros amplamente esperada.
—Agora, seja qual for o nome — crack spread ou margem de refino —, quando falamos de combustíveis líquidos, todos sabemos do que se trata — acrescentou.
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No início da semana, o presidente do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, deu aos parlamentares britânicos uma verdadeira aula de economia do mercado de petróleo durante uma sessão no Parlamento.
Ele observou que os crack spreads — os prêmios obtidos pelas refinarias ao transformar petróleo bruto em produtos como gasolina e diesel — estão contribuindo para aumentar as pressões sobre os preços. Diante desse cenário, os mercados passaram a projetar duas elevações dos juros até fevereiro como forma de conter a inflação.
Os contratos futuros de diesel já superam US$ 200 por barril em algumas regiões do mundo e, incluindo impostos, alguns consumidores chegam a pagar mais de US$ 300. Na Europa, os preços do gás natural atingiram o maior nível desde o fim de 2022, ano em que a Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia, enquanto os estoques permanecem baixos às vésperas da chegada do clima mais frio. Nos Estados Unidos, os preços do diesel também atingiram um recorde.
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A situação ainda está longe dos cenários de desastre projetados quando o conflito com o Irã começou, no fim de fevereiro. Um dos principais fatores por trás da alta dos preços nas últimas semanas foi a China, mas ainda não está claro se as refinarias do país asiático continuarão mantendo esse ritmo, diante dos custos envolvidos.
Mas a trajetória mais ampla é clara. Operadores e produtores afirmam que o mundo precisará de petróleo à medida que o inverno se aproxima, enquanto a capacidade de refino continua limitada — o que deverá manter a pressão sobre os custos dos combustíveis.
Os ataques da Ucrânia às refinarias russas fizeram as exportações de diesel do país despencarem para o menor nível já registrado, enquanto as unidades de processamento do Oriente Médio ainda se recuperam dos ataques sofridos no início da guerra contra o Irã.
Continua existindo uma diferença entre os fluxos atuais e os registrados antes da guerra pelo Estreito de Ormuz, por onde, antes do conflito, passavam cerca de um quinto de todo o petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo.
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Muitas das alternativas utilizadas pelo mercado de energia para contornar a crise já foram interrompidas. A liberação de reservas estratégicas está desacelerando, enquanto a China vem comprando mais petróleo e os estoques têm diminuído de forma constante.
Militantes houthis do Iêmen também vêm realizando ataques repetidos contra a Arábia Saudita, um dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás. Após vários ataques na quinta-feira, o reino fechou seu oleoduto Leste-Oeste, uma importante alternativa ao Estreito de Ormuz para o escoamento de suas exportações.
O mercado de petróleo dá sinais de forte turbulência. O custo para contratar um superpetroleiro por um único dia pode ultrapassar US$ 1 milhão, enquanto prêmios elevados estão sendo pagos para garantir o fornecimento imediato. Contratos de derivativos que normalmente oscilam alguns centavos por vez estão disparando para níveis recordes, com altas de vários dólares em uma única sessão de negociação.
— Vamos enfrentar um inverno muito difícil no norte da Europa — afirmou nesta semana Shaikh Khaled Al-Sabah, diretor-executivo de marketing internacional da Kuwait Petroleum, durante uma conferência. — Isso é apenas o começo.
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O gás continua, em grande parte, retido na região do Golfo. Operadores europeus estão preocupados com a quantidade que conseguirão garantir para atravessar o inverno, enquanto os estoques estão no menor nível já registrado para esta época do ano.
Governos e empresas adiaram as compras durante o verão, mas grandes bancos e consultorias afirmam que o volume de gás que a região precisará adquirir poderá levar os preços novamente para acima de € 100 por megawatt-hora, cerca de 25% acima dos níveis atuais. Preços elevados do gás acabam atingindo a produção industrial.
— Este é um período difícil — afirmou Evangelos Mytilineos, presidente-executivo da empresa grega Metlen, maior produtora integrada de bauxita, alumina e alumínio primário da União Europeia. — Os preços da eletricidade estão chegando a níveis em que empresas que não estejam adequadamente preparadas não conseguem produzir alumínio.
Evangelos Mytilineos, presidente executivo da Metlen Energy and Metals
Jason Alden/Bloomberg
Nos mercados de petróleo bruto, o principal índice de referência para as transações físicas de barris no mundo atingiu US$ 120 pela primeira vez desde junho. É um sinal de que as refinarias estão pagando mais caro para processar os barris que conseguem obter, enquanto as margens de lucro com a produção de combustíveis, especialmente diesel, permanecem historicamente elevadas.
De fato, os alertas sobre o diesel, em particular, estão se tornando cada vez mais fortes. Os ataques ucranianos às refinarias de petróleo russas reduziram a um fluxo mínimo uma das maiores fontes mundiais de exportação de diesel.
— Todos sabemos que o diesel é utilizado por uma determinada categoria de agentes econômicos — afirmou Lagarde em sua entrevista coletiva nesta semana, na qual indicou que as taxas de juros talvez precisem subir para conter os riscos inflacionários. — E sabemos agora que ele é mais um gargalo.
Em uma conferência sobre petróleo realizada em Cingapura nesta semana, operadores apontaram repetidamente que os mercados globais de combustíveis enfrentam problemas significativos. Em alguns países europeus, como a Itália, já foram adotados cortes de impostos para proteger os consumidores, mas essa pressão persistirá caso os preços do diesel continuem subindo.
Na sexta-feira, a Agência Internacional de Energia (AIE) afirmou que 2026 registrará a maior queda na demanda por petróleo desde a pandemia, à medida que os preços elevados do diesel, em particular, reduzem o consumo.
Segundo a agência, até agora os estoques foram fundamentais para manter os preços sob controle. Mas essas reservas estão diminuindo, enquanto o sistema mundial de refino opera no limite de sua capacidade. Sem avanços nas guerras entre Irã e Israel ou entre Rússia e Ucrânia, os mercados de petróleo podem ficar ainda mais apertados, alertou a AIE.
Isso traz o risco de um inverno potencialmente doloroso, com políticos tendo de adotar medidas para aliviar o custo de vida enquanto os bancos centrais elevam as taxas de juros. Fora do setor energético, os ataques a portos do Mar Negro ajudaram a levar os preços dos alimentos ao nível mais alto em quase quatro anos.
A Hungria anunciou na sexta-feira, por exemplo, que ajudará os proprietários de veículos a arcar com os custos dos combustíveis.
— Há muitas preocupações de que os preços continuem subindo — afirmou Anne-Sophie Corbeau, pesquisadora do Center on Global Energy Policy, da Universidade Columbia. —É provável que os governos sejam pressionados a intervir e proteger os consumidores, mas, é claro, isso dependerá da situação fiscal de cada país.

[Fonte Original]

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