Por que o câncer de intestino está aumentando entre os jovens?

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

Durante décadas, câncer de intestino parecia pertencer a outra fase da vida. Aos 30 ou 40 anos, sangue nas fezes era mais facilmente atribuído a uma hemorroida, uma mudança intestinal ao estresse e uma dor abdominal à alimentação. Mas alguma coisa está mudando. Em vários países, o câncer colorretal vem aumentando justamente entre adultos jovens. E talvez a parte mais inquietante seja esta: ainda não sabemos exatamente por quê.

O câncer de cólon e reto continua sendo muito mais frequente depois dos 50 anos. O que chamou a atenção dos pesquisadores foi outra coisa: enquanto as taxas entre pessoas mais velhas vêm caindo em alguns países, entre os mais jovens elas seguem na direção contrária.

Uma revisão publicada em agosto deste ano na Nature Reviews Clinical Oncology mostrou que o aumento global da doença tem sido impulsionado de forma importante pelos casos diagnosticados antes dos 50 anos. Estudos populacionais identificaram ainda um “efeito de geração”: pessoas nascidas nas décadas mais recentes parecem apresentar risco maior do que as gerações anteriores.

Isso oferece uma pista. Nossos genes não mudam tão rapidamente. Se a doença está se tornando mais frequente em poucas décadas, provavelmente alguma coisa no ambiente e no estilo de vida também participa dessa história.

O problema é que não existe um único culpado. Obesidade, síndrome metabólica, diabetes tipo 2, sedentarismo, tabagismo, álcool e uma alimentação rica em carnes processadas, produtos refinados e bebidas açucaradas aparecem associados ao risco. Pesquisadores também investigam o microbioma intestinal, o conjunto de microrganismos que vive no intestino e participa do metabolismo e da regulação do sistema imunológico.

Dieta, medicamentos, antibióticos e outras exposições ao longo da vida são capazes de modificar esse ecossistema. Uma das hipóteses é que algumas dessas mudanças favoreçam inflamação e criem um ambiente mais propício ao câncer. É uma área fascinante, mas ainda cheia de perguntas. Seria precipitado dizer que já descobrimos a causa desse aumento.

A genética também importa. Síndromes hereditárias, como a síndrome de Lynch, podem aumentar bastante o risco, mas explicam apenas uma parte dos casos. A maioria dos jovens que desenvolve câncer colorretal não pertence a uma família com uma síndrome hereditária conhecida.

Talvez, por isso, o problema mais imediato não seja apenas descobrir a causa, mas reconhecer que a doença pode acontecer nessa idade.

Sangramento nas fezes é um dos sinais mais frequentes. Dor abdominal persistente, mudança do hábito intestinal, diarreia ou constipação que não melhoram, anemia por deficiência de ferro sem explicação e perda de peso involuntária também merecem atenção.

Aos 30 anos, uma hemorroida é muito mais provável do que um câncer. E geralmente é. O erro está em transformar essa probabilidade em certeza. Atribuir automaticamente todo sangramento a uma causa benigna pode atrasar o diagnóstico.

Estudos mostram que pacientes com câncer colorretal de início precoce podem passar mais tempo entre os primeiros sintomas e a confirmação da doença. Em uma análise, a mediana foi de 128 dias entre os jovens, contra 79 dias nos mais velhos. Parte desse atraso pode vir da ideia, compartilhada por pacientes e profissionais, de que aquela pessoa é “jovem demais para ter câncer”.

Isso não significa que todo jovem com dor abdominal precise de colonoscopia, nem que pessoas saudáveis devam viver procurando sinais de doença. Rastreamento de quem não tem sintomas e investigação de quem apresenta sinais de alerta são situações diferentes.

Para quem não tem sintomas e tem risco habitual, o rastreamento começa aos 50 anos no SUS, embora algumas sociedades médicas recomendem iniciar aos 45. Quem tem história familiar importante pode precisar começar antes. E sinais de alerta, como sangramento, anemia sem explicação, mudança persistente do hábito intestinal ou perda de peso, devem ser avaliados em qualquer idade.

A medicina passou décadas ensinando que determinadas doenças pertencem principalmente aos mais velhos. Isso continua verdadeiro para o câncer de intestino. Mas estatística não é certificado de imunidade.

Ser jovem reduz a probabilidade de câncer. Não a reduz a zero.

[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img