Eu começo esse texto dizendo que a frase do título não é minha, mas sim de um cliente das antigas, da minha época de pistão, e ele ainda completou: “Você tinha tudo pra fazer sucesso na prostituição, mas preferiu lacrar voltando a se vestir igual homem. Uma pena… vai deixar de ser uma das tops travestis de Belém para virar uma militante de esquerda”.
Recebi essa mensagem há algum tempo e, quando olho no espelho, sinto que ele tinha certa razão. Antes eu passava 24 horas por dia montada, em cima do salto, com uma calcinha desconfortável, disputando a atenção dos paizinhos de família. O cliente podia surgir a qualquer momento, então eu tinha que estar sempre pronta… e, a hora que o anjo soltava, era o meu momento de glória, o auge do meu dia!
Mas o que aconteceu é que, da época em que a gente se conheceu até hoje, entre outras muitas coisinhas, eu concluí a faculdade, lancei um livro por uma das maiores editoras do país e estrelei um espetáculo no Theatro Municipal de São Paulo. E até passei num concurso público. Ou seja, vivi coisas que me apresentaram um novo horizonte de possibilidades, outras formas de buscar a minha realização pessoal. Detalhe: eu nem preciso mais ficar o tempo todo maquiada, neca aquendada*, de lace, me equilibrando num abatá*.
Quando cheguei na rua, ainda ereia*, as bichas mais antigas me deram conselhos. O principal deles: aproveitar a juventude porque os clientes adoram bichas novinhas sem prótese, mas esse truque não funciona por muito tempo. Logo chegariam musas bem mais novas do que eu, pois todo dia tem uma bicha que faz 18 anos, não é mesmo? Eu tinha que aproveitar que era a novidade e fazer logo o aqüé* do peito e da bombação, para finalmente virar uma travesti completa. Essa é a regra da rua. Lá não existe autoidentificação: “Não se nasce travesti, torna-se travesti”, já disse uma bicha, e esse “tornar-se” passa pelas outras te reconhecerem como igual.
Então, eu media o meu corpo com o das troppo bellas e ia fazendo os procedimentinhos. Assim que consegui, fiz o apeti, montei um pouco o cartão, mas nunca tive coragem de botar óleo*, o que fez com que as monas de Belém me xoxassem perrencas de “gay de peito” e daí pra baixo. Os tempos mudaram e, hoje, com as coisas que conquistei no teatro, é bonito ver essas mesmas manas falarem que agora eu nem preciso mais da bombação, porque pra ser atriz só precisa ser bela, não belíssima.
Como dizia a Thaís Azevedo, militante histórica recentemente falecida: “Antes as travestis eram escravas da beleza, mas hoje elas podem até se dar ao luxo de serem feias”. E eu concordo com ela. Não somos tão desejadas a partir do momento em que começamos a não depender da objetificação cisgênera para sobreviver.
Lia dizia que eu só fazia clientes porque eu era bonita, educada e não dava a Elza, mas, se fosse para eu depender da minha desenvoltura no sexo, eu não batia nem o do lanche. De alguma forma, ela tinha razão. Eu adorava quando apareciam os colocados… a pernoite era gostosa porque eles geralmente não transam, só jogam conversa fora. Tem muita carência nesse meio e, como eu sempre adorei conversar, mesmo com desconhecidos, a minha outra amada amiga, Andreone Medrado, diz que, como puta, eu era uma ótima psicóloga.
E isso a gente tem em comum porque nas palestras da musa ela sempre compara a sua profissão de psicóloga com a de trabalhadora sexual. Trago esse debate para o meu texto porque durante os anos em que me lancei como GP (garota de programa), acho que mais conversei com meus clientes do que transei. Eu sempre fui muito curiosa, adorava dar corda para essa falação deles… as prostitutas sabem de coisas que o restante da sociedade nem sonha! Estar bonita, cheirosa e bem arrumada para essas figuras confusas e carentes era como eu me diferenciava de suas esposas e terapeutas. Sinto que me viam como uma puta de site, moradora das periferias mais distantes, que vivia à espera de uma ligação deles ou que me pegassem nas calçadas nos dias de rua. Mas, a partir do momento que estamos fazendo coisas para além das ruas, a certeza vira dúvida: “Como assim a minha travesti preferida agora não atende mais?”.
E receber a mensagem que recebi é prova disso, porque, além de eles sentirem falta dos nossos serviços, incomoda muito abrirem a rede social de uma boneca e a verem conquistando espaços, descobrindo habilidades novas, construindo carreiras que pareciam não ter sido feitas para nós. Hoje, lembrando das tantas vezes em que clientes me falaram das suas famílias, sinto que o que eles estão me dizendo é: “nós temos e você não”. A filha que passou no vestibular, a viagem pra Disney, o acidente que fez o filho voltar mais cedo pro Brasil e mesmo as reclamações que eles não cansam de fazer, de que não aguentam mais essas famílias, que dariam tudo para poder se relacionar com a gente, mas infelizmente não podem, ou seja, formas de dizer que nada disso é pro nosso bico.
Lembro de ter visto um ser, num fórum de travestis, reclamando que as melhores já não atendiam mais, e outro comentando abaixo que provavelmente casaram com algum europeu rico. Pois é, mas agora não é só pelo casamento que a gente está mudando de vida.
Passei a vida confiando no acaso, me lançando sem medo em abismos, mas, quando finalmente encontrei um lugar para chamar de meu, passei a sentir medo. Antes eu não tinha nada a perder: já me joguei de carro em movimento para fugir de cliente doceiro e já ri com uma arma apontada na minha cabeça (porque eu me sentia tão perigosa e debochada quanto a morte), mas hoje eu sinto medo porque a minha literatura e a minha arte são maiores que eu.
Eu mesma, por mim, nem estaria aqui, mas é estranho pensar que agora me chamam para dar palestras… Eu chego e tem pessoas esperando ansiosas para me ouvir, pessoas que levam a sério as minhas palavras. Para vocês verem: eu nem sabia que existia uma nova geração de travestis na minha cidade no Marajó. E descobri que elas não só existem, como enxergam em mim uma musa inspiradora. Por tudo isso, senhora morte, hoje eu te digo “não”!
Culpa da esquerda? Talvez. Mas, pensando bem, vejo um outro sentido por trás da frase desse cliente. Será que, no fundo, o que ele não está me dizendo é que, agora, o dinheiro dele já não é suficiente para me levar pra cama? É o que parece.
OBS: Pedi para que um amigo designer fizesse uma arte a partir de fotos antigas dos meus anúncios para ilustrar esse texto. Fotos antes usadas para atrair clientes, hoje ganham um novo sentido, ao lado de textos de grandes pensadores e intelectuais.
Olha onde eu vim parar.
Laroyê dona Rosinha Malandra
Isabella Miranda é uma travesti marajoara, escritora, formada em Letras e professora de bajubá.
* Os termos com asterisco vieram do Bajubá (ou Pajubá), uma linguagem cifrada usada pela comunidade LGBTQIA+.