Crítica | Noturno: O Demônio Interior – Plano Crítico

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A ótima contradição para o terror que Kurt Wagner carrega sempre me agradou: mutante católico e ex-seminarista, o personagem tem, ainda por cima, a cara de demônio, apesar do coração de um homem comum. Nessas seis edições do arco O Demônio Interior (com duas histórias pequenas emendadas), Roberto Aguirre-Sacasa e Darick Robertson tiraram Noturno da ficção científica dos X-Men e o transformaram num investigador do sobrenatural em Nova York. Ainda na primeira edição, com a cena em que Kurt tenta consolar Seth Walker, único sobrevivente de um massacre de crianças num hospital, a tal contradição entre “demônio-e-salvador“, relacionada ao personagem, aparece na história — e nela fica até o final. A vilania, no primeiro bloco do volume, está no Edifício Dakota, onde uma elite rica e respeitável sacrifica órfãos em troca de poder (aliás, a escolha do prédio é uma homenagem direta a O Bebê de Rosemary, que usa a mesma fachada para abrigar um culto satânico de vizinhos endinheirados). Pois bem, esse enredo envolvendo a morte das crianças e a invocação de demônios começa muito interessante. Colocar Noturno para fazer essa investigação foi um bom acerto, assim como seu contato com Ororo ao longo de todo o bloco, algo que segue para a segunda parte do grande arco, já envolvendo os fantasmas dos trabalhadores e uma outra discussão em cena.

Boa parte desse começo promissor vem da maneira como Aguirre-Sacasa pensa o mistério, com horários bem definidos nos depoimentos e uma sala trancada por dentro, um verdadeiro flerte com os romances policiais, embora se distancie deles rapidamente. Aqui, os desenhos de Robertson dão um grande peso aos corpos e às cenas de horror, com destaque para as cenas em que os demônios realmente aparecem. Logo depois, infelizmente, o roteirista interrompe a investigação para longas conversas no Limbo com Amanda Sefton, que repetem uma porção de coisas e sugerem ações de peso que nunca acontecem de verdade. Daí Kurt passa a depender de outros personagens para avançar: Fera analisa as fichas médicas, Amanda decifra a magia e ele só leva o material de um lado para o outro, como um estagiário. Até o indutor de imagens, que lhe dá um rosto humano quando volta a visitar Seth, contorna de modo meio bobinho o conflito que a própria série montara no hospital. Logo, não é de espantar que a história dos demônios vá se tornando burocrática, e o atrativo, que vinha de um ótimo suspense, se perca quase por completo.

Esse esvaziamento fica evidente no desfecho do primeiro enredo. O Dr. Louis Childs, médico do hospital e líder do culto, chega a dizer que muitos amigos e vizinhos dele aceitaram sacrificar crianças para ter um demônio a seu serviço, expondo com crueza a naturalidade com que os ricos do Dakota tratam a vida dos pobres. Só que o próprio vilão mina essa ameaça quando age de maneira totalmente incoerente com o “homem controlador” das primeiras edições, e o culto vira um grupo de amadores endinheirados, sem a ambiguidade que tornaria a acusação mais perturbadora. O paralelo entre Seth e a infância de Kurt no circo, onde ele também era visto como criatura do diabo, é sugerido, mas logo esquecido. E a batalha final segue o mesmo caminho: Pazuzu (o demônio de O Exorcista) sai do corpo do menino com a ajuda da intangibilidade de Kitty Pryde, daí mata Childs e os outros 14 demônios acabam presos, em pouquíssimas páginas, dentro de estatuetas de argila que o garoto vinha moldando. Não há perdas legítimas, e a conclusão sai insossa até mesmo em seu aspecto visual.

Quando chega a história dos fantasmas, o leitor já não espera mais tanta novidade, e isso, pelo menos, ajuda a não elevar a expectativa. O segundo drama, em duas edições, usa a véspera do centenário do metrô para levar Kurt aos túneis da cidade, onde espíritos de operários do começo do século XX assustam condutores e passageiros, e a investigação fala que 17 trabalhadores soterrados num desabamento foram deixados para morrer atrás das paredes para que a obra não atrasasse. Aqui, o mal deixa de morar num prédio de luxo e passa a estar na própria história da cidade, que apagou os mortos da construção em nome do progresso. O protagonista observa que certos mistérios dependem menos de resolver um enigma e mais de trazer uma verdade à tona, e o autor leva essa premissa a sério, apesar de repetir os atalhos do arco anterior, com Fera examinando ossos, Amanda resolvendo tudo com um feitiço e um prefeito que concede rapidamente um enterro digno aos operários. A estrutura em dois blocos independentes, que mal conversam entre si, reforça a sensação de aleatoriedade e também não ajuda muito. Mas penso que a segunda história entende melhor o personagem, porque existe uma plausibilidade maior na organização e no encerramento da trama, por mais terrível que seja a sua origem, onde o lucro a todo custo, mais uma vez, falou mais alto.

Noturno: O Demônio Interior (Nightcrawler Vol.3: The Devil Inside) — EUA, setembro de 2004 a fevereiro de 2005
Roteiro: Roberto Aguirre-Sacasa
Arte: Darick Robertson
Arte-final: Wayne Faucher
Cores: Matt Milla
Letras: Cory Petit, Chris Eliopoulos
Capas: Greg Land, Matt Ryan, Justin Ponsor
Editoria: Stephanie Moore, Sean Ryan, Mike Marts
No Brasil: Os Heróis Mais Poderosos da Marvel, n° 58 (Salvat, maio de 2017)
Tradução: Ben Santana
184 páginas



[Fonte Original]

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