A taxa de desemprego no país no terceiro trimestre do ano foi a menor para o período de toda a série histórica. Também houve marcas históricas na massa de rendimentos e no número de pessoas ocupadas. Ainda que não desfaçam a percepção de acomodação do mercado de trabalho, os dados merecem observação e mostram que a desaceleração pode acontecer de forma mais lenta que a esperada. No jogo de forças que afetam o emprego estão, de um lado, os estímulos do governo dados nos últimos meses da corrida eleitoral e, do outro, a desaceleração em curso da economia e o alto endividamento das famílias.
A taxa de desemprego no país caiu para 5,2% no terceiro trimestre, o menor para o período de toda a série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012. O resultado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ficou abaixo do observado no segundo trimestre (5,4%) e também de igual período de 2025 (5,6%). No trimestre encerrado em agosto, a taxa foi de 5,3%.
A taxa de 5,2% do terceiro trimestre ficou em linha com a mediana das expectativas de 21 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo VALOR DATA, que apontava para uma taxa de 5,2% no terceiro trimestre. As projeções eram de 5,2% ou 5,3%.
Para Leandro Padulla, do ASA, o mercado de trabalho continua bastante resiliente, com nova queda da taxa de desemprego e avanço da população ocupada. Embora o ritmo de geração de vagas permaneça moderado na margem, o movimento recente é de reaceleração, observa.
Segundo a Pnad, o número de pessoas ocupadas no terceiro trimestre teve alta de 0,6%, para um novo recorde, de 103,6 milhões, em um movimento típico deste período do ano, mas as eleições presidenciais podem ter influenciado para que esse crescimento não tenha sido tão significativo.
Para William Kratochwill, analista do IBGE, em um ambiente com candidatos com diferenças fortes, tomadores de decisão podem ter aguardado o desfecho do pleito para eventuais novas contratações. “O terceiro trimestre é um trimestre onde historicamente a ocupação aumenta. É o momento de início de aquecimento para a atividade econômica de fim de ano, que é maior. Houve um aumento na ocupação, mas marginal, não estatisticamente significativo”, afirmou.
Nove dos dez grupamentos de atividades acompanhados pelo IBGE registraram elevação no número de ocupados, mas em apenas um deles — construção — o aumento foi expressivo. Nos demais, a variação não foi estatisticamente significativa.
O nível de ocupação no Brasil, que é a parcela da população em idade de trabalhar que está ocupada, cresceu no terceiro trimestre para 59%, renovando também o patamar recorde da Pnad. Com o resultado, o patamar do indicador repete o do trimestre encerrado em novembro de 2025. “É um nível de ocupação realmente elevado. Estamos muito próximos do que acontece em outros países”, afirma Kratochwill.
Os dados de setembro mostram que a desaceleração pode ser mais gradual do que a esperada, avalia Luis Otávio Leal, economista-chefe do G5 Partners. Em meados do ano, lembra, parecia que o mercado de trabalho brasileiro, apesar de apertado, estava em processo de acomodação. A taxa de desemprego com ajuste sazonal praticamente estável desde o início do ano, a desaceleração do crescimento da renda e o aumento da taxa de informalidade corroboravam essa percepção, diz.
“O número de setembro adiciona certa incerteza a esse cenário. A taxa de desemprego ajustada pela sazonalidade voltou a cair, a renda real subiu de uma maneira mais forte e a informalidade recuou na margem”, observa. “Nesse contexto, será necessário analisar com cuidado os próximos números, para verificar se essa dinâmica recente é perene ou não.” A taxa de desemprego com ajuste sazonal recuou para 5,3% no trimestre encerrado em setembro, ante 5,4% nos três meses até agosto.
Para Leal, o processo de acomodação do mercado de trabalho brasileiro está em curso. A variação da população ocupada, nota, tem se aproximado do breakeven, o ponto de equilíbrio pelo qual a economia cria apenas a quantidade mínima de novas vagas para manter a taxa de desemprego estável.
Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), diz que a decomposição mensal da taxa de desemprego trimestral divulgada pelo IBGE permite observar o processo de acomodação. Por essa decomposição feita pelo FGV Ibre, diz, o mês de julho “foi bom para o mercado de trabalho”. “Em agosto realmente ficou no zero a zero e em setembro, mensalmente, ficou negativo. Então, na verdade, estamos caminhando marginalmente para um momento que não é de reversão, mas de acomodação do mercado de trabalho.
Essa acomodação, observa, se dá com taxa de desemprego baixa. Ou seja, com mercado de trabalho ainda aquecido. “É uma situação inusual que pressiona preços.” Para ele, há também o efeito das medidas de estímulo dadas pelo governo nos últimos meses da corrida eleitoral à presidência, que podem ainda dar fôlego para a economia em outubro e novembro.
Também no terceiro trimestre o mercado de trabalho brasileiro registrou a maior massa de rendimentos e o terceiro maior rendimento médio do trabalhador em toda a série histórica.
A massa de rendimentos real habitualmente recebida por pessoas ocupadas (em todos os trabalhos) cresceu 1,5% no terceiro trimestre, ante o segundo, e atingiu R$ 387,5 bilhões. O número aponta alta de 4,7% frente a igual período de 2025.
A renda média dos trabalhadores avançou 1% no terceiro trimestre, ante o segundo trimestre, para R$ 3.790. A diferença é de R$ 37 a mais. O rendimento médio real habitual dos trabalhadores considera a soma de todos os trabalhos.
Para Padulla, a melhora dos rendimentos e da massa salarial torna a composição dos dados de setembro mais favorável e sugere que segue o impulso do mercado de trabalho para o consumo.
Duque nota que o rendimento médio ainda está aumentando um pouco, embora de forma mais desacelerada. Ele lembra que esse costuma ser o último indicador que é afetado em contexto de acomodação do mercado de trabalho. “Porque enquanto o mercado estiver aquecido, os rendimentos vão estar pressionados. Há ainda uma situação de disputa por trabalhadores.” As pessoas, explica, ainda conseguem buscar ofertas de melhores salários. O contraponto disso para o consumo das famílias, diz, é o atual nível alto de endividamento, que pode fragilizar o consumo das famílias.