A reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), já no primeiro turno projetada na noite deste domingo pelo Datafolha era temida há meses pela campanha de Fernando Haddad (PT) por um fator inédito na disputa paulista. Conhecido pela profusão de lideranças, o estado dessa vez teve apenas duas candidaturas de partidos expressivos, enquanto o xadrez eleitoral sempre contou com três e até quatro candidaturas competitivas na primeira rodada desde a retomada do voto direto para o cargo, em 1982.
É a primeira vez que a eleição em São Paulo é resolvida no primeiro turno desde 2014. Para além da derrota a nível regional, a campanha de Haddad buscava forçar o segundo turno para evitar que o presidente Lula ficasse sem palanque no estado em um possível embate contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno.
Com a reeleição, Tarcísio está disponível para mergulhar de cabeça na campanha do filho 01 de Jair Bolsonaro em São Paulo, embora ainda não haja certeza tanto no entorno do governador quanto na equipe de Flávio sobre o grau de engajamento do governador, que mira uma candidatura presidencial em 2030.
Além de Haddad e Tarcísio, concorreram ao Palácio dos Bandeirantes os nanicos Carlos Machado (PCB), Vera Lúcia (PSTU) e Vivian Mendes (ParP). Outras duas candidaturas nanicas foram indeferidas pela Justiça Eleitoral: Izadora Dias (PCO) e Policial Edjane (Agir).
São partidos sem representação no Congresso Nacional e tempo de TV e rádio. Por lei, não recebem recursos do fundo eleitoral e, além disso, as emissoras não são obrigadas a convidá-los para os debates.
Por esse motivo, na prática, a configuração da eleição estadual representou uma antecipação do segundo turno em São Paulo, já que Tarcísio, que liderou as pesquisas durante todo o ciclo eleitoral, precisou garantir 50% dos votos válidos mais um para ser reeleito com a vantagem de estar no controle da máquina pública e o apoio da maior parte dos prefeitos do estado.
Na pesquisa Datafolha divulgada no sábado, o instituto projetou que Tarcísio receberia 60% dos votos válidos contra 35% do petista, confirmando a tendência dos últimos levantamentos.
Vera Lúcia marcou 2%, seguida de Machado (2%) e Vivian (1%). Porém, os três não pontuaram na pesquisa espontânea, quando nenhum candidato é apresentado ao entrevistado – neste recorte, Tarcísio teve 38% das menções e Haddad, 21%. Historicamente, as intenções de voto em candidatos nanicos na pesquisa estimulada acabam dispersas entre as candidaturas de partidos maiores e com projeção no Congresso e no horário eleitoral.
Embora não admita publicamente, a campanha do PT contava com a candidatura ao governo de Kim Kataguiri (Missão), liderança do Movimento Brasil Livre (MBL) cujo eleitorado também se enquadra no campo da direita. Mas o deputado federal desistiu da empreitada e disputou a reeleição. Em menor grau, também havia expectativa em torno da federação PSDB–Cidadania na figura de Paulo Serra, que concorrerá a uma vaga na Câmara.
Os dois pontuaram 5% cada na última pesquisa Datafolha que os incluiu na relação de pré-candidatos, divulgada em março passado. Kataguiri e o Missão se mantiveram neutros na corrida, enquanto Serra apoiou Tarcísio à revelia dos tucanos.
Trata-se de um cenário completamente adverso no histórico paulista. Nos últimos 44 anos, sempre houve pelo menos um candidato viável além dos dois primeiros colocados, mesmo antes do segundo turno ser instituído pela Constituição de 1988.
O padrão se manteve mesmo quando o PSDB, que comandou São Paulo entre 1995 e 2023, tinha predomínio absoluto sobre a política paulista. Além disso, outras candidaturas periféricas, mas com votações medianas, ajudaram a forçar uma definição na segunda rodada.
Na eleição mais recente, a de 2022, Tarcísio e Haddad também se enfrentaram e levaram a eleição para o segundo turno. Na primeira etapa, superaram o então governador, Rodrigo Garcia (PSDB), Vinícius Poit (Novo) e Elvis Cezar (PDT), além de vários outros nanicos. O padrão se repete nas últimas quatro décadas.
Em 1982, quando Franco Montoro (PMDB) foi eleito derrotando Reynaldo de Barros (PDS), a dupla enfrentou outros dois candidatos de peso: Lula (PT) e o ex-presidente Jânio Quadros (PTB). Já em 1986, Orestes Quércia (PMDB) venceu a disputa e superou Antônio Ermínio de Moraes (PTB), mas Paulo Maluf (PDS) e Eduardo Suplicy (PT) também tiveram resultado expressivo.
Na primeira eleição a ter a previsão legal de segundo turno, em 1990, Luiz Antônio Fleury (PMDB) derrotou Maluf em uma votação apertada. Na primeira rodada, porém, os dois enfrentaram rivais fortes: Mário Covas (PSDB) e Plínio de Arruda Sampaio (PT).
Quatro anos depois, Covas levou a disputa no segundo turno contra Francisco Rossi (PDT), mas antes enfrentaram José Dirceu (PT) e Barros Munhoz (PMDB). Em 1998, o tucano foi reeleito contra Maluf. No primeiro turno, a dupla contou com três rivais de peso: Marta Suplicy (PT), Rossi e o ex-governador Quércia.
Já em 2002, Geraldo Alckmin (PSDB) bateu José Genoíno (PT). Maluf ficou de fora do segundo turno com mais de 20% dos votos válidos seguido de um pelotão que somava quase 1,4 milhão de eleitores: Carlos Apolinário (PGT), Lamartine Posella (PMDB), Carlos Pitolli (PSB) e Antônio Cabrera (PTB).
Na eleição seguinte, o tucano José Serra foi eleito em primeiro turno. Apesar disso, Aloizio Mercadante (PT) teve quase 7 milhões de votos, enquanto o ex-governador Quércia, Plínio de Arruda Sampaio e Apolinário somaram quase 2 milhões de eleitores.
Em 2010, outra disputa decidida já na primeira rodada. Alckmin voltou ao Bandeirantes, mas enfrentou quatro candidatos com votação expressiva: Mercadante, Celso Russomanno (PP), Paulo Skaf (PSB) e Fábio Feldmann (PV). O governador foi reeleito em 2014 no primeiro turno contra dois rivais também muito votados: Skaf (agora no PMDB) e Alexandre Padilha (PT).
Com a onda ultraconservadora que levou à eleição de Jair Bolsonaro como presidente em 2018, São Paulo teve o segundo turno mais apertado da história. João Doria (PSDB) superou Márcio França (PSB) por apenas 741 mil votos.
Antes, enfrentaram Skaf, Luiz Marinho e uma fila de candidatos do Novo, PDT, PSOL, DC e PRTB que somaram quase 3 milhões de votos.
O histórico demonstra que, mesmo com o apoio do presidente incumbente e a passagem pela prefeitura da capital há dez anos, as chances de Haddad forçar um segundo turno sempre foram diminutas.