Aos 40 anos, Maria Rita Spina Bueno decidiu fazer uma pausa. Começou a trabalhar ainda na faculdade, nas empresas da família, e construiu uma carreira nas áreas financeira e de operações. Gostava do que fazia, mas o ritmo intenso deixava pouco espaço para a vida pessoal.
— Era um trabalho muito demandante, sobrava pouco tempo para mim. Cheguei a um ponto em que aquilo já não me supria — conta.
A saída foi tirar um ano sabático. As viagens e as saídas para jantar diminuíram, mas nada disso fez falta. A decisão mudou sua relação com o trabalho e, principalmente, com o dinheiro.
Hoje, aos 62 anos, Maria Rita vê aquela escolha como um divisor de águas.
— O dinheiro passou a ser um meio para ter uma vida satisfatória, com propósito. Mesmo com boletos para pagar.
Quando se fala em planejamento financeiro, a primeira ideia costuma ser acumular patrimônio: poupar, investir, comprar um imóvel e garantir uma aposentadoria confortável. Tudo isso importa, mas as finanças também podem ser uma ferramenta para conquistar autonomia sobre o próprio tempo.
Essa organização pode viabilizar uma mudança de carreira, uma jornada de trabalho menor, uma casa mais perto do emprego ou a contratação de serviços que aliviem a rotina. Também pode garantir uma reserva para enfrentar imprevistos sem precisar aceitar qualquer oportunidade por necessidade.
— O dinheiro é basicamente o que ele faz. Pode se transformar em tempo e em liberdade de escolha — explica Vera Rita de Mello Ferreira, primeira latino-americana a presidir a Associação Internacional de Pesquisa em Psicologia Econômica (IAREP).
Segundo ela, essa relação nem sempre é evidente. O dinheiro pode ser convertido em produtos e serviços, mas o valor dos momentos dedicados à família, ao lazer ou a um projeto pessoal não cabe numa conta. Essa percepção depende das circunstâncias e das prioridades de cada pessoa.
A experiência de Maria Rita mostra como essa perspectiva pode transformar decisões. Depois do período sabático, ela voltou ao mercado de trabalho na Anjos do Brasil, organização sem fins lucrativos que conecta startups a investidores privados. Assumiu a direção e passou a se dedicar a temas como empreendedorismo e diversidade.
Há quatro anos, fez outra transição. Deixou a função executiva e passou a atuar em conselhos de organizações sem fins lucrativos e a prestar consultorias. Com isso, ganhou maior controle sobre a própria agenda. Agora avó de um menino de 2 anos, consegue participar mais da rotina da família.
O desafio é equilibrar as necessidades do presente com os recursos destinados ao futuro, sem transformar o planejamento financeiro numa sucessão de renúncias.
Para Vera Rita, uma boa organização financeira deve contemplar diferentes necessidades. Uma delas é a reserva de emergência, destinada a cobrir despesas inesperadas ou períodos de perda de renda. Outra é a reserva para objetivos específicos, como uma viagem, um curso ou uma mudança de casa. A terceira olha para o longo prazo, especialmente para a aposentadoria.
A longevidade torna esse cuidado ainda mais importante: viver por mais anos significa precisar de recursos por um período maior.
Isso não significa, porém, deixar o lazer sempre para depois. A especialista defende que ele também tenha lugar no orçamento, ainda que por meio de uma pequena quantia mensal para fazer algo prazeroso. O importante é reconhecer que a vida não começa apenas quando todas as metas financeiras estiverem cumpridas.
Conversar sobre dinheiro em família também ajuda. Compartilhar prioridades, limites e projetos permite alinhar expectativas e tomar decisões mais conscientes.
Maria Rita aprendeu isso ao interromper uma carreira que seguia seu curso natural. Anos mais tarde, voltou a fazer escolhas que lhe permitiram estar mais perto das pessoas que ama. Não deixou de trabalhar nem de se preocupar com o futuro, mas passou a considerar as horas disponíveis como parte da riqueza que queria construir.
— É importante colocar o dinheiro dentro de um contexto mais amplo e pensar no que realmente queremos — resume.
Planejar as finanças, portanto, não significa apenas preparar-se para o futuro. Também é abrir espaço, no presente, para as experiências e as pessoas que dão sentido à vida.
Três frentes para organizar as finanças
O planejamento financeiro pode ajudar a conciliar segurança, projetos pessoais e qualidade de vida. Veja três pontos importantes:
1. Prepare-se para imprevistos
Mantenha uma reserva de emergência para lidar com despesas inesperadas ou períodos sem renda.
2. Dê espaço aos seus projetos
Planeje recursos para objetivos específicos, como fazer uma viagem, estudar ou mudar de casa.
3. Pense no longo prazo sem esquecer o presente
Reserve recursos para a aposentadoria e inclua o lazer no orçamento, respeitando suas possibilidades.
O dinheiro é basicamente o que ele faz. Pode se transformar em tempo e em liberdade de escolha
— Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica