37
George Lucas não é, nem nunca foi um grande roteirista ou diretor como seus colegas desbravadores da década de 70. Seu dom está na imaginação e na capacidade de construir mundos sólidos que vão do micro, como em Loucuras de Verão até, claro, sua magnum opus, a franquia Star Wars. Não poderia também deixar de destacar sua obsessão e teimosia em fazer o que ele quer, como ele quer, pois todo seu início de carreira no Cinema foi justamente um choque entre essas suas características – normalmente vistas como negativas – e o que os monolíticos engravatados de Hollywood achavam ser o melhor caminho. Sua história já foi muito bem contada em 2017 na forma de uma biografia literária formal por Brian Jay Jones e, em 2023, a dupla francesa Laurent Hopman e Renaud Roche partiu para contar essa mesma história de vida no formato de quadrinhos, com a graphic novel As Guerras de Lucas, que aborda da juventude do cineasta até o lançamento de Guerra nas Estrelas, em 1977.
Começando com um ataque cardíaco causado pelo estresse da produção do longa que mudaria a vida de Lucas e, de quebra, toda a indústria hollywoodiana, o texto de Hopman rebobina para 17 anos quando ele sofre um grave acidente automobilístico em razão de sua imprudência e usando esse evento traumático como gatilho narrativo para seu caminho pelas artes, seus estudos e seu filme experimental estudantil THX-1138 que lhe abriu as portas para uma profissão dificílima de entrar e ainda mais difícil de ser bem-sucedido. Claro que o foco da HQ de mais de 200 páginas é na criação, produção e lançamento do primeiro longa da franquia, mas Hopman faz questão de empregar um saudável número de páginas a esses primeiros passos da carreira de George Lucas, seu relacionamento e casamento com Marcia Griffin, fundamental para seu sucesso, além da rede de amizades que foi construindo, especialmente com Francis Ford Coppola e Steven Spielberg, o que cria o contexto necessário para quando a narrativa envereda pelas literais “guerras de Lucas” para conseguir colocar seu filme na lata, como se diz no meio.
Tudo funciona com muita fluidez, com cada aspecto mais relevante da produção sendo abordado, seja a entrada de Alan Ladd, Jr., da Fox, como salvador da pátria e o grande responsável pelo filme entre os executivos de Hollywood, seja a necessidade de montar um estúdio de efeitos especiais só para tornar o filme possível, passando pelo desenvolvimento do roteiro que nasceu muito diferente do que chegaria nas telonas e chegando na escalação do elenco e, claro, nas dificuldades das filmagens, da montagem e do lançamento. Hopman é cuidadoso com o passo narrativo e conta uma história fantástica dos bastidores da inclemente Hollywood que é um dos maiores exemplos de sucesso nessa área. Há reverência e admiração à pessoa de George Lucas, mas não a ponto de suas características negativas serem varridas para debaixo do tapete. O Lucas turrão, explosivo, irascível e melindroso está presente com boa constância na história, mas sempre ao lado do Lucas imaginativo, brilhante, destemido e detalhista, com espaço até mesmo para o romance entre Harrison Ford e Carrie Fisher e para as negociações com Alec Guinness.

Por outro lado, tenho para mim que Hopman pecou no lado negocial do drama de Lucas, talvez simplificando demais as estratégias de ambos os lados e perdendo a oportunidade de mostrar como foi justamente aí que George Lucas realmente mudou a Hollywood setentista que caminhava para o lado de produções ousadas e independentes e sua criação máxima, também uma obra ousada e independente, tornou-se o padrão da indústria, por assim dizer, o que é, se pensarmos bem, uma ironia gigantesca. Hopman poderia ter mergulhado mais nesse lado sombrio, por assim dizer, da visão de Lucas, mesmo que esse resultado tenha sido inadvertido e até natural. Um novo modelo de negócio foi criado e Lucas beneficiou-se do pioneirismo em todas as frentes, algo que, arrisco dizer, nenhum outro cineasta conseguiu fazer nessa escala, para o mal ou para o bem.
A arte de Renaud Roche, com rostos expressivos e angulares, além de uso abundante, mas por outro lado pontual de cor é, talvez, a perfeita materialização do texto de Hopman, pois ele consegue trabalhar a passagem de tempo e a progressão narrativa com a devida cadência, sem inventar nas transições e sendo econômico nas páginas de destaque, o que empresta um caráter sóbrio e ao mesmo tempo dinâmico para uma história cheia de personagens que poderia muito bem descambar para a aridez ou para a confusão. O artista sabe lidar com a cor para destacar, para criar tensão, para retornar ao passado e, também, para emocionar e tudo de maneira tão natural que parece até simples, o que seu trabalho está longe de ser. Há uma sincronia cuidadosa entre texto e imagem, com uma distribuição espacial gostosa e prazerosa que torna a leitura fácil e até viciante, com uma página final digna e muito significativa para o que Star Wars seria nas décadas seguintes, com a inevitável promessa de que a história continuará, como efetivamente continuou em 2025, com o lançamento do “Episódio 2” focado em O Império Contra-Ataca.
Laurent Hopman e Renaud Roche capturaram muito bem a magia e a genialidade de George Lucas em começo de carreira, criando uma biografia em quadrinhos que fala do homem, mas que não deixa também de ser uma história de superação e de sucesso, além de obstinação e tensão em uma época na História do Cinema que dificilmente se repetirá. Que as guerras de Lucas continuem!
As Guerras de Lucas (Le Guerres de Lucas – França, 2023)
Roteiro: Laurent Hopman
Arte: Renaud Roche
Editora original: Éditions Deman
Data original de publicação: 04 de outubro de 2023
Editora no Brasil: Comix Zone
Data de publicação no Brasil: 10 de maio de 2024
Tradução: Flávia Yacubian
Páginas: 208