Em meio à guerra no Oriente Médio e à pressão sobre os preços de energia, um dos principais riscos para as economias é que o choque atual se transforme em inflação persistente, afirmou, nesta terça-feira (14), o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Pierre-Olivier Gourinchas. Ele alertou, ainda, que, a cada dia de prolongamento do conflito, cresce a probabilidade de um cenário adverso para a economia global, com risco de recessão.
“Não se deve permitir que um choque de energia se transforme em um problema inflacionário persistente”, disse Gourinchas, em coletiva de lançamento da edição de abril do World Economic Outlook (WEO), o principal relatório de perspectivas econômicas do Fundo.
Segundo o economista, embora os bancos centrais não tenham controle sobre o preço do petróleo, podem agir para evitar o surgimento de espirais de salários e preços e para ancorar as expectativas de inflação — lições centrais dos choques do petróleo dos anos 1970.
“Isso não significa que precisem frear bruscamente de imediato”, completou. “Mas, se observarem sinais de que a inflação está se consolidando, de que há espirais de salários e preços, ou de que famílias e empresas passam a esperar uma inflação mais permanente, então será necessário agir.”
As novas projeções do Fundo indicam crescimento global de 3,1% neste ano — revisão para baixo de 0,2 ponto percentual em relação às estimativas de janeiro — em um cenário-base considerado “moderado”, que pressupõe a redução das disrupções provocadas pelo conflito até meados do ano. Nesse contexto, a inflação global deve subir de 4,1%, em 2025, para 4,4%, em 2026.
Gourinchas destacou, no entanto, que, a cada novo episódio de disrupção no setor energético, o mundo se aproxima de um cenário mais adverso, no qual a economia global pode caminhar para uma recessão, com crescimento próximo de 2% e inflação em torno de 6%, caso a guerra se estenda até o próximo ano.
“Caso as condições financeiras se apertem de forma abrupta, como em nosso cenário severo, quando a atividade global se deteriora de forma acentuada, as políticas monetária e fiscal devem estar prontas para se reorientar em apoio à economia e à salvaguarda do sistema financeiro, ao lado de políticas financeiras e de liquidez adequadas”, disse.
Impulso no investimento em energias renováveis
O economista-chefe do FMI ainda chamou atenção para a importância da diversificação energética no cenário atual, afirmando que a melhor estratégia — adotada por vários países já nos anos 1970 e que provavelmente será ampliada agora — é encontrar formas de diversificar as fontes de energia, com maior dependência de produção doméstica.
“Muitas vezes, isso significa investir em energias renováveis, e é provável que vejamos um forte impulso nessa direção”, afirmou.
Por fim, Gourinchas observou que as crescentes tensões na ordem internacional estão impulsionando uma configuração mais multipolar, mas alertou que isso não precisa resultar em maior fragmentação.
“Devemos continuar fortalecendo a cooperação global com as políticas certas, incluindo uma cessação imediata das hostilidades e a reabertura do Estreito de Ormuz”, completou. “Os danos ainda podem ser limitados”.