A retirada de pauta do projeto de regulamentação do trabalho por aplicativos na Câmara confirmou ontem um risco que já vinha sendo aventado por quem acompanha a discussão do tema: a ameaça de a proposta emperrar em meio a um cabo de guerra dentro do próprio governo.
Enquanto o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, apostava no consenso e em três anos de negociação a fio, Guilherme Boulos desembarcou no Palácio do Planalto com a promessa de resolver o tema em 60 dias e imprimindo uma guinada na discussão.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência se colocou como um dos principais defensores do piso de R$ 10 para entregadores, acima dos R$ 8,50 propostos no relatório do deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE).
Segundo interlocutores, a movimentação de Boulos incomodou Marinho pelo potencial de desorganizar um acordo costurado a duras penas e que vinha sendo calibrado com o Congresso. E não foi a única pasta a dar sinais de que o texto poderia ser levado à votação.
Pessoas a par das tratativas avaliam que há uma disputa de protagonismo que pode travar de vez a discussão, ainda mais em ano eleitoral.
Na Secom, também existe uma preocupação com o projeto, sobretudo com os últimos resultados das pesquisas eleitorais que mostram crescimento de Flávio Bolsonaro (PL).
O timing tornou o debate ainda mais delicado, e já há quem sentencie reservadamente o fim do projeto.
O relator da matéria lavou as mãos. Diz Coutinho:
— À medida que ele (Boulos) inviabilizou o andamento do projeto que estava tramitando, cabe ao governo mandar um projeto para Câmara com o que ele está sugerindo no GT: os R$ 10 mais 2,50 por quilômetro. Cabe a ele e ao governo justificar aos consumidores o aumento de preço que vai haver.
Sem estimar prazos, o deputado colocou na conta do governo.
— O governo inviabilizou a Previdência que estava bem formatada no projeto. (Boulos) Não falou em nome do governo? Agora, em nome do governo, mande a sua proposta. Estou aguardando.