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sábado, abril 25, 2026

Chernobil, 40 anos depois: como um teste de segurança virou o pior desastre nuclear da história

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Neste domingo (26), completam-se 40 anos de uma madrugada que mudou para sempre a vida de milhares de pessoas nas pequenas cidades de Pripyat e Chernobil na então União Soviética. Enquanto dormiam, um tremor rompeu o silêncio, um sinal ainda incompreensível do desastre que viria a seguir. A explosão do reator de número quatro da usina nuclear de Chernobil provocou um incêndio que se arrastou por nove dias, lançando material radioativo na atmosfera e contaminando a Europa. O episódio entrou para a história como o mais grave desastre nuclear já registrado.

Dois funcionários da usina morreram na explosão daquela noite e outros 29 operadores e bombeiros nos meses seguintes ao acidente devido à exposição direta às partículas radioativas no ar, segundo a Associação Nuclear Mundial (WNA, na sigla em inglês). Eles ficaram expostos, enquanto atuavam para apagar o incêndio, a uma radiação de até 20 mil mSv por hora (taxa de exposição à radiação). A exposição natural da população mundial é de apenas 2 mSv por ano. Para se ter ideia, um raio-x de corpo inteiro gera em torno de 1 mSv por exame.

Apesar dos estragos, não se sabia ao certo a gravidade da situação, o que atrasou a tomada de medidas necessárias para proteger habitantes do entorno da usina, apontam os registros históricos. Uma das sobreviventes, que morava perto da usina na época, disse em entrevista à National Geographic em 2023 que as evacuações só começaram 28 horas depois da primeira explosão. Cerca de 200 mil pessoas deixaram a região.

Como e por que o acidente aconteceu?

A usina nuclear de Chernobil era composta por quatro reatores (tipo RBMK-1000), projetados pela União Soviética em meio à Guerra Fria, segundo a WNA. A explosão e o incêndio foram causados por uma série de reações químicas após um erro, segundo especialistas, dos técnicos que faziam um teste irregular naquela madrugada.

A sala de controle altamente contaminada do Reator nº 4 é vista dentro da usina nuclear de Chernobil, na Ucrânia, em 10 de novembro de 2000. — Foto: Efrem Lukatsky/AP

Na noite do acidente, foi iniciado um teste para comprovar a eficiência das turbinas com a falta de energia principal, conforme explica Carlo Alberto Brayner, professor do Departamento de Energia Nuclear da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretor do Centro Regional de Ciências Nucleares do Nordeste (CRCN/NE). Para isso acontecer, porém, os funcionários da usina tomaram a “decisão errônea” de desligar sistemas de segurança.

“O reator utilizado em Chernobil era diferente por ter grafite como moderador nuclear, isto é, substância para reduzir a velocidade dos nêutrons da divisão do núcleo atômico”, diz Brayner.

Em outros projetos — como Angra 1 e 2, no Rio de Janeiro — usa-se água e o elemento químico boro. Sendo altamente inflamável, foi o grafite que sustentou o incêndio ao longo de nove dias em Chernobil.

Além dessa diferença principal para as outras usinas utilizadas até hoje, continua o professor, “Chernobil tinha uma falha técnica grosseira, que era o coeficiente do vazio”. Coeficiente do vazio é uma característica do reator de Chernobil que funcionava ao contrário do esperado. Ao invés de o vapor diminuir a capacidade do reator, ele aumentou.

Durante o teste, segundo o professor, a água nos canais de refrigeração ferveu mais rápido do que o costume, criando bolhas de vapor. Normalmente, o vapor deveria diminuir a reação nuclear, mas naquele reator fez com que aumentasse.

Tanto vapor fez com que a tampa superior do reator explodisse, como uma panela de pressão mal utilizada, e isso expôs o núcleo radioativo.

Restos do teto desabado da usina nuclear de Chernobil, em 13 de outubro de 1991 — Foto: Efrem Lukatsky/AP
Restos do teto desabado da usina nuclear de Chernobil, em 13 de outubro de 1991 — Foto: Efrem Lukatsky/AP

O vapor chegou às varetas de combustível do reator, que “soltaram” gás hidrogênio quando a água bateu nelas. A reação química causou uma segunda explosão na usina, enquanto ao mesmo tempo blocos de grafite ejetados pelo reator entraram em combustão ao ar livre.

Brayner explica ainda que, em Chernobil, as barras de controle, presentes nas usinas para conter processos que estão dando errado, tinham pontas de grafite na composição. “Ao invés de conter a explosão, ajudaram a gerá-la ainda mais”, afirma o especialista.

O acidente produziu o incêndio que durou nove dias e, nesse tempo, liberou a maior quantidade de substâncias radioativas nunca antes registradas em uma operação civil, com destaque para iodo e césio-137, explica Brayner.

A exposição a iodo causa náuseas, vômito e inchaço na tireoide. Como é absorvido pela glândula que regula o metabolismo, pode causar câncer de tireoide nos casos graves. O césio-137, por sua vez, causa queimaduras, vômito e morte em poucos dias após a exposição. A longo prazo, aos sobreviventes, pode causar câncer e mutações genéticas.

Impactos na saúde e no meio ambiente

A primeira manifestação de preocupação com a saúde da população veio em 1989, três anos após o acidente, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que, na época, incentivou a União Soviética a pedir avaliações internacionais sobre as consequências das radiações para Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Foi então, em 1991, que a AIEA publicou um relatório explicando que a exposição à radiação ionizante na região trouxe e ainda traria impactos a centenas de milhares de pessoas.

Além das milhares de pessoas que se mudaram devido à proximidade com a usina após o acidente, mais de 600 mil ajudaram na limpeza da radioatividade do local, chamado de “liquidadores”. Desse número, cerca de mil foram expostos ao mais alto nível de radiação nos primeiros dias após o acidente, informa a WNA.

Cerca de 1.350 helicópteros militares soviéticos, ônibus, tratores, caminhões-tanque, transportadores, carros de bombeiros e ambulâncias, todos altamente contaminados por radiação, estão abandonados em um ferro-velho em Chernobil, após terem sido usados ​​nas operações de limpeza que se seguiram à explosão de 1986 na usina nuclear  — Foto: Efrem Lukatsky/AP
Cerca de 1.350 helicópteros militares soviéticos, ônibus, tratores, caminhões-tanque, transportadores, carros de bombeiros e ambulâncias, todos altamente contaminados por radiação, estão abandonados em um ferro-velho em Chernobil, após terem sido usados ​​nas operações de limpeza que se seguiram à explosão de 1986 na usina nuclear — Foto: Efrem Lukatsky/AP

As maiores preocupações na saúde desses liquidadores se davam pela síndrome aguda da radiação (SAR), que pode levar a pessoa à morte devido à grande exposição do corpo humano à radiação e que afeta os sistemas nervoso central, gastrointestinal e células sanguíneas.

Um relatório publicado, em 2018, pelo Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica (UNSCEAR), informou que, entre os anos de 1991 e 2015, cerca de 20 mil pessoas que tinham menos de 18 anos na época do acidente foram diagnosticadas com câncer na tireoide.

Uma profissional de saúde atende uma jovem de 17 anos que se recupera de uma cirurgia para remover um tumor cancerígeno na unidade de terapia intensiva do Instituto de Endocrinologia em Kiev, Ucrânia, em 30 de novembro de 2000, quase 15 anos após a explosão e o incêndio na usina nuclear de Chernobil — Foto: Efrem Lukatsky/AP
Uma profissional de saúde atende uma jovem de 17 anos que se recupera de uma cirurgia para remover um tumor cancerígeno na unidade de terapia intensiva do Instituto de Endocrinologia em Kiev, Ucrânia, em 30 de novembro de 2000, quase 15 anos após a explosão e o incêndio na usina nuclear de Chernobil — Foto: Efrem Lukatsky/AP

Ao contrário do que se imaginava, os filhos dessa população exposta à radiação, chamados de “Filhos de Chernobil”, não foram tão afetados. Um estudo publicado na revista Science pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos em 2021 explicou que não houve aumento das mutações genéticas nas novas gerações.

Além disso, a AIEA diz em seu site que os impactos psicológicos do acidente “foram e continuam sendo amplos e profundos, resultando, por exemplo, em suicídios, problemas com álcool e apatia”.

Entre os impactos no meio ambiente, animais e plantas foram mortos pela radiação da explosão. Os que eventualmente sobreviveram foram caçados por soldados soviéticos que visavam deter a radiação nas regiões próximas ao reator.

Além disso, a surpreendente imagem de uma floresta vermelha presente na Zona de Exclusão de Chernobil (ZEC), área mais crítica e que ocupa cerca de 2,8 mil km², é o resultado da radiação na vegetação local.

Como está Chernobil atualmente?

O que aconteceu com a usina: Após a tragédia envolvendo o quarto reator da usina nuclear de Chernobil, os outros reatores foram gradualmente desativados nos 12 anos seguintes. Um projeto chamado Novo Confinamento Seguro (NSC, na sigla em inglês) protege o que sobrou da usina por meio de uma estrutura de confinamento nuclear que impede nova liberação de material contaminado na atmosfera, segundo explica o Instituto de Engenharia Civil. Esse dispositivo colabora com um programa de destruição de equipamentos e reatores da usina até 2064 pelo governo da Ucrânia.

Novo Confinamento Seguro protege o que sobrou da usina de Chernobil por meio de uma estrutura de confinamento  — Foto: Efrem Lukatsky/AP
Novo Confinamento Seguro protege o que sobrou da usina de Chernobil por meio de uma estrutura de confinamento — Foto: Efrem Lukatsky/AP

O que aconteceu com as cidades próximas: Chernobil e Pripyat se tornaram “cidades-fantasma”, pois não são habitadas até hoje. A Zona de Exclusão de Chernobil permanece em 30 km ao redor da usina, mas 90% da zona, hoje, tem acesso limitado a turistas e trabalhadores. A Zona Vermelha segue altamente radioativa e de acesso proibido.

Carrinhos de bate-bate em um parque infantil na cidade deserta de Pripyat, Ucrânia, em 27 de novembro de 2012, que antes abrigava pessoas cujas vidas estavam ligadas à usina nuclear — Foto: Efrem Lukatsky/AP
Carrinhos de bate-bate em um parque infantil na cidade deserta de Pripyat, Ucrânia, em 27 de novembro de 2012, que antes abrigava pessoas cujas vidas estavam ligadas à usina nuclear — Foto: Efrem Lukatsky/AP

O que aconteceu com o meio ambiente na região: a realidade da fauna e da flora na região foi tomando outra forma. Em uma região abandonada pelos seres humanos, a população de animais selvagens e plantas raras aumentou nos últimos 40 anos. Segundo um estudo publicado na Current Biology, em 2015, o aumento dessa população selvagem é equivalente ao de quatro reservas naturais na região e, dentro das espécies, a população de lobos é sete vezes maior. Essa adaptação na região foi classificada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) como “o refúgio inesperado para a vida selvagem”. O programa informa ainda que a Zona de Exclusão de Chernobil representa a terceira maior reserva natural da Europa continental.

Um alce visto na cidade abandonada de Pripyat, perto da usina nuclear de Chernobil — Foto: Gleb Garanich/Reuters
Um alce visto na cidade abandonada de Pripyat, perto da usina nuclear de Chernobil — Foto: Gleb Garanich/Reuters

“Dark Tourism” é o nome da modalidade de turismo a lugares ligados a histórias trágicas. Chernoybl se tornou um ponto de referência desses viajantes, e o lugar da tragédia a ao redor se tornou um “parque temático”. Em torno de 100 mil turistas visitavam a região mais próxima da usina (cerca de 300 metros de distância do reator) até 2022, quando a Ucrânia foi invadida pela Rússia na guerra que ainda não acabou.

Turista fotografando nível de radiação na cidade de Pripyat, cidade mais próxima de Chernobil — Foto: Vincent Mundy/Bloomberg
Turista fotografando nível de radiação na cidade de Pripyat, cidade mais próxima de Chernobil — Foto: Vincent Mundy/Bloomberg

*Estagiária sob supervisão de Diogo Max

[Fonte Original]

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