A estreia mundial em Berlim de Michael – a nova cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua e estrelada por Jaafar Jackson no papel principal – reuniu milhares de fãs do “Rei do Pop” do lado de fora do cinema, com aplausos entusiasmados a cada número musical e elogios à atuação principal. O que ficou de fora do filme e do tapete vermelho, porém, foram quaisquer menções às acusações de abuso sexual que complicam seu legado. Ainda assim, o produtor Graham King admitiu estar “nervoso e ansioso” para ver a reação do público.
“Muita coisa aconteceu neste filme que me faz questionar como e por quê”, disse King, que também produziu Bohemian Rhapsody. “Eu costumava dizer que Freddie Mercury colocava obstáculos no meu caminho. Michael fez o mesmo. Então Michael e Freddie devem estar lá em cima rindo juntos agora.”
Com orçamento inicial de US$ 150 milhões (R$ 750 milhões), Michael já era a cinebiografia mais ambiciosa de todos os tempos quando encerrou sua produção inicial em maio de 2024. Isso antes de os executores do espólio descobrirem uma cláusula de um acordo de 1994 com um dos acusadores de abuso infantil de Jackson, que proibia a dramatização da história em tela – tornando inutilizável uma parte significativa das filmagens.
Em vez de um épico de 3h30, a Lionsgate e os cineastas decidiram encerrar o filme no fim dos anos 1980, no auge da carreira de Jackson após Thriller e Bad. O espólio concordou em financiar mais 22 dias de filmagem, a um custo que a Forbes estima em mais deUS$ 25 milhões (R$ 125 milhões), podendo chegar a US$ 50 milhões (R$ 250 milhões).
Agora, Michael precisa arrecadar mais de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) globalmente para dar lucro – marca atingida por apenas um outro filme do gênero, Bohemian Rhapsody. A Lionsgate estaria mirando mais de US$ 700 milhões (R$ 3,5 bilhões), incluindo receitas posteriores de streaming, para aprovar uma sequência que abordaria a segunda metade da vida do artista com material já filmado. Como co-investidor, o espólio de Jackson pode perder milhões se o filme não se pagar, mas também pode lucrar ainda mais caso o longa alcance o patamar de um blockbuster como Bohemian Rhapsody (que superou US$ 900 milhões – R$ 4,5 bilhões – em 2018).
Além de cerca de US$ 10 milhões (R$ 50 milhões) já recebidos pela coprodução e licenciamento musical, a participação estimada de 25% nos lucros pode render mais de US$ 40 milhões (R$ 200 milhões) extras no melhor cenário. Isso sem contar o impacto esperado nas vendas do catálogo musical de Jackson, um espetáculo do Cirque du Soleil em Las Vegas, musicais da Broadway e outros negócios que renderam ao espólio cerca de US$ 105 milhões (R$ 525 milhões) em 2025 – valor que deve crescer este ano.
Analistas de bilheteria estão otimistas com Michael, especialmente em sua versão sem controvérsias e focada na música. A previsão é de arrecadação superior a US$ 65 milhões (R$ 325 milhões) no fim de semana de estreia nos EUA, superando Bohemian Rhapsody (US$ 51 milhões / R$ 255 milhões) e Straight Outta Compton (US$ 60 milhões / R$ 300 milhões), de 2015. Isso sugere um total potencial acima de US$ 200 milhões (R$ 1 bilhão) apenas na América do Norte.
O espólio de Michael Jackson já viu o impacto de um filme de sucesso. Quando morreu, em junho de 2009, aos 50 anos, o artista enfrentava dificuldades financeiras, com pelo menos US$ 450 milhões em dívidas – incluindo US$ 40 milhões devidos à promotora de shows AEG Live – além de uma reputação abalada por controvérsias.
“Ele tinha ativos extremamente valiosos, mas estava queimando caixa”, afirma L. Londell McMillan, que trabalhou com Jackson de 2005 até sua morte. “Se não tivéssemos refinanciado essas dívidas, ele poderia ter perdido tudo.”
Pouco depois de sua morte, uma pequena equipe que incluía o coexecutor do espólio de Jackson, John Branca, seu empresário Frank DiLeo, o contador Michael Kane e o então CEO da AEG Live, Randy Phillips, se reuniu para discutir como “ganhar o máximo de dinheiro possível com quaisquer [ativos que o espólio] tivesse”, segundo documentos judiciais. Eles tiveram a ideia de transformar em documentário as imagens dos ensaios de shows enquanto ele se preparava para uma nova turnê pouco antes de morrer, e, em outubro de 2009, Michael Jackson’s This Is It surfou uma onda de carinho póstumo e arrecadou mais de US$ 265 milhões nas bilheteiras globais, além de mais de US$ 100 milhões em vendas de DVDs, trilha sonora e merchandising. Os cerca de US$ 200 milhões estimados que o espólio ganhou com o filme não apenas salvaram seu futuro financeiro, como também deram início ao período mais lucrativo da carreira de Michael Jackson.
Fiel à sua promessa original, Branca maximizou os lucros vendendo ativos consideráveis acumulados por Jackson ao longo da vida – incluindo o rancho Neverland para o bilionário Ron Burkle em 2020 por US$ 22 milhões, o catálogo ATV com 4.000 músicas para a Sony Music em 2016 por US$ 750 milhões e metade dos próprios direitos musicais de Jackson para a Sony em 2024 por US$ 600 milhões (R$ 3,3 bilhões) – além de explorar comercialmente sua popularidade duradoura em diversos formatos, incluindo novos álbuns com músicas inéditas, turnês, espetáculos, produções teatrais e agora uma grande cinebiografia de Hollywood.
Desde a morte de Jackson, a Forbes estima que o espólio já tenha arrecadado mais de US$ 3,5 bilhões (R$ 19,2 bilhões), alcançando o primeiro lugar na lista anual de celebridades falecidas mais bem pagas em 13 dos últimos 16 anos.
Grande parte desse dinheiro foi destinada ao pagamento de impostos, quitação das dívidas de Jackson e à resolução de disputas legais quase constantes, começando pela validade do testamento de 2002, que nomeava Branca e o executivo musical John McClain como coexecutores e cotrustees do espólio, destinando 20% da fortuna à caridade e o restante dividido entre sua mãe e seus três filhos, excluindo outros membros da família.
Até mesmo os beneficiários apresentaram queixas. Em 2024, a mãe de Jackson, Katherine Jackson, tentou impedir judicialmente a venda do catálogo musical, sem sucesso, e sua filha, Paris Jackson, move atualmente uma ação contra os executores sobre o valor gasto no filme, um investimento que ela classificou como “altamente especulativo e arriscado”. Ela afirma que eles se beneficiaram com quase US$ 150 milhões (R$ 825 milhões) em compensações e usaram sua posição como produtores para escalar atores que os interpretassem no longa (Miles Teller interpreta Branca em Michael). Os executores respondem dizendo que Paris tem “total falta de compreensão sobre como funciona a indústria cinematográfica” e citam US$ 65 milhões (R$ 357,5 milhões) já pagos a ela – valor que ela contesta.

Enquanto os outros dois filhos de Jackson, Bigi e Prince, compareceram à estreia de Michael em apoio ao filme, Paris continuou a se opor publicamente. “A questão dessas cinebiografias é que é Hollywood. É um mundo de fantasia. Não é real. Mas é vendido como se fosse”, escreveu no Instagram em setembro. “A narrativa está sendo controlada. E há muitas imprecisões, e muitas mentiras descaradas. No fim das contas, isso não funciona para mim.”
Na última década, mais de uma dúzia de artistas levaram suas histórias para o cinema, incluindo Elvis Presley, Elton John, Bob Marley e Bob Dylan. Esses filmes nem sempre resultam em grandes ganhos financeiros, já que o acordo padrão para artistas costuma variar entre US$ 1 milhão e US$ 3 milhões iniciais, além de 5% a 10% dos lucros líquidos posteriores. Em casos de bilheteria global moderada, entre US$ 100 milhões (R$ 550 milhões) e US$ 300 milhões (R$ 1,6 bilhão), os ganhos diretos para os artistas tendem a ficar na casa de poucos milhões. Ainda assim, trata-se de uma ferramenta valiosa de construção de marca.
“Isso definitivamente faz diferença no longo prazo”, diz Tim Hegarty, chefe de fusões e aquisições do Cutting Edge Group, proprietário de um dos maiores catálogos de músicas de filmes do mundo. “Se você tem qualquer filme que ultrapasse US$ 100 milhões (R$ 500 milhões) em bilheteria, isso se torna uma nova fonte de receita sustentável por muito tempo.”
Em 2019, o espólio de Jackson firmou um acordo com o produtor Graham King para coproduzir o filme, na tentativa de replicar o sucesso fora da curva de Bohemian Rhapsody. O longa também deixou de lado aspectos da vida de Freddie Mercury – especialmente sua sexualidade – em favor de extensas cenas de shows celebrando a música do Queen. Foi uma estratégia que funcionou particularmente bem no exterior, onde o filme arrecadou quase US$ 700 milhões (R$ 3,8 bilhões) de seu total de US$ 900 milhões (R$ 4,9 bilhões).
Da mesma forma, This Is It arrecadou US$ 195 milhões (R$ 1.07 bilhão) de seus US$ 268 milhões (R$ 1,4 bilhão) totais fora dos Estados Unidos – o que explica por que, não por acaso, o espólio negociou uma fatia maior dos royalties internacionais da metade restante do catálogo musical de Jackson na venda de 2024, que pode ser impulsionada pelo filme Michael.
“A música é a linguagem internacional”, diz Paul Dergarabedian, analista sênior da Comscore. “E é no mercado internacional que eles obtêm esse retorno sobre investimento.”
Para os integrantes sobreviventes do Queen e o espólio de Mercury, a participação nos lucros do filme (que teve orçamento de apenas US$ 55 milhões) e o impulso em outras áreas do negócio foram transformadores. Segundo registros públicos no Reino Unido, a holding da banda viu sua receita saltar de cerca de US$ 24 milhões em 2017, antes do lançamento do filme, para US$ 94 milhões em 2019, distribuindo mais de US$ 85 milhões em dividendos aos integrantes nos quatro anos seguintes. A receita se manteve elevada quando a banda vendeu seu catálogo e direitos autorais em 2024 para a Sony Music por mais de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,6 bilhões).
“O cenário ideal é que você torne esses artistas culturalmente relevantes novamente, gerando um impacto duradouro na receita, e não apenas um pico momentâneo”, afirma Hegarty. “Você cria um verdadeiro momento cultural para uma nova geração.”
E conquistar fãs nascidos após a morte de Jackson pode significar tanto sucesso de bilheteria quanto a continuidade de um negócio que gera US$ 100 milhões por ano. “Se você conseguir decifrar como empolgar a geração Z com esses artistas, isso é fundamental”, diz Dergarabedian. “Isso é como um infomercial de duas horas sobre tudo relacionado a Michael Jackson.”
*Reportagem originalmente publicada em Forbes.com