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quarta-feira, abril 29, 2026

Diante do choque do petróleo, cautela deve ser a tônica dos BCs

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Os principais bancos centrais das economias desenvolvidas e o do Brasil estão sem os principais dados que precisam ter em mãos para decidirem os rumos da política monetária — não sabem, nem poderiam, a magnitude do choque de energia que enfrentarão nem a duração da interrupção da oferta que a guerra dos EUA e Israel contra o Irã provocou. O Banco do Japão, um dos candidatos a ser o primeiro a elevar os juros, diante de uma inflação em alta, os manteve ontem. O presidente do BC japonês, Kenzo Ueda, sintetizou sua posição, que resume o dilema de outros banqueiros centrais. Disse que, com as incertezas da guerra, “a probabilidade de acertarmos nossas previsões declinou”.

EUA, Israel e Irã firmaram uma trégua tensa, que interrompeu a destruição de vidas e da infraestrutura crítica de petróleo na maior região produtora do mundo. Depois de o Irã ter interrompido o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, por onde são transportados 20% da oferta global — antes da guerra, de 103 milhões de barris diários —, o presidente Donald Trump também resolveu fechar Ormuz. A escaramuça verbal entre os negociadores iranianos e americanos prossegue, enquanto a situação de abastecimento se deteriora. As cotações ultrapassaram os US$ 100 o barril do tipo Brent e ontem fecharam a US$ 111,4, em tendência de alta gradual, mas constante.

Não é possível saber até onde irá a escalada dos preços do petróleo nem sob quais condições será feito um acordo para pôr fim à guerra. Trump já deu vários sinais de que quer sair da enrascada em que se meteu e que não tem ideia de como isso poderá ser feito sem que isso seja interpretado como derrota.

Os efeitos sobre inflação e crescimento são impossíveis hoje de mensurar, embora o Fundo Monetário Internacional tenha esboçado cenários. Com o conflito terminando até o fim do semestre, e rápido restabelecimento da oferta de óleo, a economia global cresceria 3,1%. No cenário mais extremo, de continuidade do conflito por meses, a expansão global cairia a 2%, com possibilidade de recessão em alguns países. A inflação seguiria rumo contrário, de 4,4% em cenário base para 5,8% na pior perspectiva.

Os BCs enfrentam o fogo cruzado desse choque, que eleva simultaneamente as chances de redução do crescimento e de alta do nível de preços. Em situações assim, é inútil elevar imediatamente os juros para combater a elevação dos preços provocadas por escassez de oferta, mas é importante fazê-lo se os preços de energia disseminarem uma inflação persistente nos preços, que então se autoalimenta.

O BC japonês projeta inflação de 2,8%, e manteve juros básicos de 0,75% ao ano, mas quer ter certeza do rumo da economia antes de apertar a política monetária, para não provocar grande queda da atividade. O Banco Central Europeu, que se reúne na quinta, é um dos poucos que levaram a inflação à meta (ao redor de 2%), e reduziu os juros. Os investidores, porém, apontam a probabilidade de duas altas das taxas até o fim do ano. A direção do BCE deve esperar mais para agir.

Nesse ambiente de incertezas, há poucas dúvidas sobre a decisão do Federal Reserve hoje: manutenção da taxa entre 3,5% e 3,75%. Esta deve ser a última reunião em que Jerome Powell presidirá o banco, pois seu mandato expira em maio. Seu sucessor indicado, Kevin Warsh, deve ser aprovado pelo Senado esta semana, depois que a condição do republicano Thom Tillis para que a votação da indicação ocorresse foi aceita: o Departamento de Justiça desistiu do processo contra Powell pelo aumento de gastos nas reformas das instalações do Fed. Tillis viu acertadamente na ação de Trump uma ameaça à independência do banco central.

A inflação americana já estava em alta pelo choque tarifário de Trump em abril de 2025, cujos efeitos ainda não haviam se dissipado quando os preços do petróleo explodiram. O mercado de trabalho estagnado, preocupação do Fed para cortar juros, não se deteriorou nem a taxa de desemprego subiu. A inflação voltou a preocupar — ela se mantém acima da meta de 2% há cinco anos. Powell só subirá os juros quando tiver certeza de que os riscos de inflação persistentemente alta suplantar os de uma recessão. Vai ganhar tempo.

O BC do Brasil, que não atinge o centro da meta desde 2021, mal iniciou o ciclo de redução dos juros e foi abalroado pelos aumentos do petróleo, fertilizantes e outros insumos. As projeções de inflação voltaram a crescer (4,86% no último Focus), mesmo com um juro real próximo a 10%. Forçado a manter uma política monetária contracionista para conter os efeitos do expansionismo fiscal, o BC assiste a uma piora do endividamento de famílias e empresas, em especial da agricultura e construção civil.

Diante de um cenário absolutamente turvo, a autoridade monetária tem o dever de ser cautelosa. Se suas projeções técnicas indicarem algum espaço para novo corte de 0,25 ponto na Selic, o Banco Central deve fazê-lo. Se ele não existir, terá de interromper o ciclo de cortes, até nova oportunidade para retomá-lo.

[Fonte Original]

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