Para uma economia emergente, a capacidade de atrair investimentos diretos estrangeiros é certamente uma medida de seu fôlego para corresponder aos interesses duradouros do investidor. Desde 2005, o Brasil foi o destino de US$ 88 bilhões, dispersos em 122 projetos produtivos e de infraestrutura formulados por empresas de um país que, embora sólido na posição de segunda economia mundial, se apresenta como um emergente. A cifra injetada pela China conferiu ao país, em 2025, a quarta colocação entre os seus destinos estratégicos.
A posição brasileira é superada pelos US$ 208,4 bilhões direcionados aos Estados Unidos, líder na recepção de investimentos chineses nas duas últimas décadas, pela Austrália e pelo Reino Unido. Mas não deixa de ser notável o fato de o Brasil sobrepor-se a parceiros da China na Ásia, na União Europeia e na América Latina quando se trata de decisões estratégicas de empresas estatais e privadas do país.
Os dados do China Global Investment Tracker (CGIT), uma plataforma do think tank American Enterprise Institute (AEI), mostram que, no processo contínuo de internacionalização de suas empresas, a China despejou em 133 países um volume de US$ 2,6 trilhões — valor ligeiramente superior ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2025. No Brasil, assentou 3,38% dessa cifra, sobretudo no setor de energia.
“A parceria bilateral em investimentos é extremamente importante, principalmente no sentido da China para o Brasil. Envolve áreas que o país necessita desenvolver ou modernizar e que geram retornos seguros às companhias estrangeiras”, afirma Welber Barral, sócio-fundador da consultoria BMJ e ex-secretário de Comércio Exterior. “Mas temos de ser realistas. A China não chegou nem perto dos investimentos prometidos ao Brasil nos acordos bilaterais assinados desde o início do século.”
Seja como for, a China parece longe de alcançar a marca dos Estados Unidos, a principal fonte de investimentos diretos estrangeiros no Brasil. Até o fim de 2024, o estoque total no país atingiu US$ 1,14 trilhão, dos quais US$ 232,8 bilhões de empresas americanas, conforme dados do “Relatório de Investimento Direto” do Banco Central, publicado no ano passado. A China figurou na sexta posição, com US$ 40,3 bilhões. Há clara disparidade entre a metodologia de cálculo do AEI, que se baseia em anúncios das companhias, e a do Banco Central (BC), que considera o investimento que garanta voto igual ou superior a 10% em empresa sediada no Brasil.
De acordo com estudo elaborado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o Brasil foi o emergente que mais atraiu investimentos chineses em 2024. A cifra de US$ 4,2 bilhões alavancou o país ao terceiro lugar entre os destinos de capital produtivo da China. Os dados do CGTI indicam a injeção de US$ 7,4 bilhões no ano passado. Em ambos os cálculos, os setores elétrico e de petróleo prevaleceram como os principais alvos.
De acordo com o CGTI, o estoque de investimentos chineses no setor de energia brasileiro, de 2005 a 2025, alcançou US$ 61 bilhões — 69% do total. Três projetos anunciados no ano passado pela State Grid, especializada em redes de transmissão de altas voltagens em longas distâncias e presente no Brasil desde 2010, resultaram no aporte inicial de US$ 2,17 bilhões, o equivalente a 29% do somatório de investimentos chineses no ano.
Cláudia Trevisan, diretora-executiva da entidade, avalia que as necessidades brasileiras de geração de energias renováveis, de exploração de petróleo e de expansão e modernização de seu sistema de transmissão de eletricidade convergem com os interesses da China. Sobretudo de suas empresas altamente especializadas nesses campos, das importadoras de petróleo e das exportadoras de tecnologias.
“Os investimentos nos setores agrícola, de mineração e de petróleo no Brasil podem estar ligados, em parte, ao interesse de fornecimento à China. Mas não necessariamente”, avalia Trevisan. “Em boa medida, as empresas chinesas são atraídas pela dimensão e pelo potencial do mercado brasileiro.”
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De fato, o último investimento autenticamente agrícola de empresas chinesas no Brasil registrado pelo CGIT ocorreu em julho de 2017. Os negócios vinculados à segurança alimentar do país estão consolidados. Isso não impede a injeção de capitais em segmentos laterais, como fez a Cofco ao anunciar em janeiro de 2025 o investimento de US$ 130 milhões na compra de 23 locomotivas e 979 vagões para atender ao aumento de demanda do terminal do porto de Santos, que arrematou em leilão há quatro anos.
Em outro tópico relacionado ao suprimento do outro lado do mundo, os minerais críticos e estratégicos tendem a atrair investidores chineses atentos à demanda crescente de fabricantes de bens de alta tecnologia e para a transição energética, bem como para a área de defesa — justamente dois setores que o governo chinês pretende estimular até 2030. No ano passado, a Minmetals anunciou a aquisição das operações de níquel da Anglo American, enquanto a CMOC comprou uma mina de ouro da canadense Equinox Gold.
Nenhum exemplo de que o mercado brasileiro vai muito além de seus recursos naturais e sua produção agropecuária, mostra-se tão evidente como o ingresso recente de empresas automotivas chinesas. O estímulo do governo federal para atraí-las ao território nacional, na forma de isenção de tarifas de importação de veículos elétricos e híbridos, esgotou-se em janeiro passado. Antes disso, boa parte já iniciara seus investimentos em linhas de montagem.
Entre as “newcomers”, a Great Wall Motor (GWM) completou três anos de comercialização de veículos no Brasil. A empresa tem uma unidade em Iracemápolis (SP) e está em “fase de refinamento” de um projeto de instalação de outra fábrica em Aracruz (ES), segundo Ricardo Bastos, diretor de assuntos institucionais da GWM.
Conforme explica, a estratégia da GWM não se resume a atender à demanda brasileira, mas também do restante da América Latina. Para tanto, a empresa prepara sua cadeia de fornecedores nacionais, o meio essencial para atingir as exigências de conteúdo local que constam de acordos comerciais firmados pelo Brasil com a vizinhança.
“A GWM pensa no Brasil como um hub para a América Latina. Nossa proposta é produzir no Brasil e exportar para toda a região”, explica Bastos, que preside a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Na leitura do embaixador do Brasil em Pequim, Marcos Abbott Galvão, a expansão do investimento chinês em hubs produtivos e exportadores no país fará todo sentido. Conforme explica, o crescimento anual da economia da China nos últimos anos, em torno de 5% e abaixo do padrão do passado, tem impulsionado as companhias chinesas a buscar negócios e produção no exterior. Como a perspectiva oficial é de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 4,5% a 5% nos próximos anos, a internacionalização das empresas tende a ter continuidade.
“Essas empresas têm muita capacidade instalada: física, humana e tecnológica. É nesse contexto que elas estão expandindo e diversificando seus investimentos no exterior”, afirma. “O Brasil é um país que apresenta oportunidades para as empresas chinesas, que se sentem confortáveis nos ambientes legal, econômico e regulatório nacionais”, completa o diplomata.
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Muito além das searas dos investimentos iniciais no Brasil, Galvão aponta novas áreas de interesse chinês, como as de plataformas de serviços de entrega, que anunciaram ampliações e novos investimentos no ano passado — de fato, a DiDi Chuxing, dona da 99, prometeu US$ 190 milhões, e a concorrente Meituan Keeta, US$ 200 milhões, em 2025. Injeções de capital em hospitais inteligentes também estão no radar da embaixada em Pequim, assim como a instalação de data centers supridos com energias renováveis.
Por “oportunidade” pode-se entender também a perspectiva de retorno econômico. Conforme o mesmo relatório do Banco Central, a renda do investimento direto no país (IDP) alcançou US$ 86,9 bilhões, o maior valor da série iniciada em 2010. Salvo em 2020, o auge da pandemia, houve oito anos seguidos de elevação nesse parâmetro central de qualquer estratégia corporativa. O cálculo do Banco Central considera os capitais produtivos provenientes de todos os investidores estrangeiros no Brasil — não apenas da China.
O acadêmico José Medeiros, diretor do Centro de Estudos do Brasil da Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang, ressalta a visão de longuíssimo prazo dos chineses, que, se em um primeiro momento focaram-se nos Estados Unidos e na Europa, voltaram-se ao Brasil nos últimos anos por enxergá-lo como parceiro de Pequim — não só em oportunidades econômicas, como também para a organização de um mundo mais estável, previsível e em paz.
Há sintonia entre os dois países em torno da preservação e do fortalecimento do multilateralismo e da agenda climática global. Além disso, para ambas as economias, muito interessa um mundo em paz. No caso da China, disso depende o sucesso de um dos principais tópicos do Plano Quinquenal 2026-2030, o desenvolvimento de setores de altíssima tecnologia e a produção de bens com elevada qualidade.
“Pequim não vê apenas o mercado brasileiro para suas fábricas de carros e a instalação de linhas de transmissão elétrica ou como fonte de abastecimento de produtos agropecuários”, afirma Medeiros, morador no país há mais de 20 anos. “Avalia-o também como chave para a modernização da China, que é um projeto em franca construção. As empresas estão cientes disso. Cabe ao Brasil olhar para o que a China será em 10 ou 15 anos para não chegar lá passivo ou reativo.”
Conforme explica Medeiros, está presente na equação das empresas chinesas, neste momento, a incerteza sobre até que ponto os Estados Unidos pretendem executar a nova doutrina de Donald Trump para a América Latina. As guerras em curso na Ucrânia e no Oriente Médio trazem dúvidas adicionais. Mas, como responde o embaixador Marcos Abott Galvão sobre tais inquietações, esta não é a primeira vez que a parceria Brasil-China atravessa situações internacionais tensas.
“A relação bilateral não voa apenas em céu de brigadeiro. Ambos os lados têm pilotos experientes”, acrescenta Galvão.