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domingo, maio 3, 2026

Crítica | Skinbreaker – Plano Crítico

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Skinbreaker, minissérie em oito edições que marcou a reunião de Robert Kirkman com David Finch, foi um dos maiores sucessos de venda da Image Comics em 2025, com cada edição sendo simultaneamente lançada também no formato Treasury Edition, de dimensões avantajadas, na primeira vez que isso aconteceu dessa maneira até onde sei. Com infinitas capas variantes e uma blitzkrieg de marketing chamando atenção para os dois grandes nomes por trás da obra e com o uso generoso da arte vistosa para chamar atenção de todos os leitores, além da promessa de uma história original, ou seja, não baseada em nada anterior, as edições de Skinbreaker foram ganhando repetidas reimpressões causadas pela bem-sucedida estratégia de venda. No entanto, todo esse carnaval me deixa extremamente desconfiado e, mesmo gostando das criações de Kirkman e admirando a arte de Finch, encarei a minissérie com hesitação, torcendo pelo melhor, mas esperando o pior.

No final da leitura das oito edições (em formato normal) da minissérie, tenho para mim que é inegável que a dupla jogou seguro, criando uma obra que é formada de denominadores comuns para agradar o maior espectro possível de leitores, defenestrando complexidade narrativa e de desenvolvimento e substituindo isso por imagens cativantes. Faz parte do jogo editorial de quadrinhos, sem dúvida alguma, mas confesso que esperava mais ambição da dupla, ou, pelo menos, mais ambição em termos de conteúdo e não apenas nas vendas. Skinbreaker é, em resumo, um roteiro fraco revestido de belíssima arte que tenta compensar o texto simplista, mas que nem sempre consegue justamente porque Kirkman escreveu algo tão básico que acabou criando uma armadilha visual para Finch.

Apesar de se passar ao longo de algo como 20 anos, Skinbreaker tem como premissa o conflito entre modernidade e tradição, entre força e sabedoria, com o lado progressista representado por Anok, chefe de uma tribo em um planeta sem nome que tenta por em prática ideias para facilitar a vida de seu povo, como usar armadilhas para caçar ou tecnologia para trazer água do rio para o vilarejo, no que sofre a resistência representada por Paca, que luta para que os “métodos antigos” sejam preservados, o que significa caçar no estilo tradicional e fisicamente pegar água todos os dias. Existe, na primeira edição, uma tentativa de passagem de uma geração para a outra, com Enor, chefe anterior a Anok, sendo apresentado com o mesmo tipo de ideias progressistas sendo enfrentado por Thul, pai de Paca, mas a passagem temporal é veloz e furiosa, sem dar tempo de maturação, levando-nos ao presente da narrativa com Anok e Paca já mais velhos, mas não menos aguerridos.

Não existe nenhum tentativa de sutileza por parte do roteiro. Nada fica para o leitor pensar ou maturar, nada fica sem ser repetido ad nauseam ao longo das oito edições. Na cabeça de Kirkan, não basta estabelecer as posturas opostas de Anok e Paca, é necessário reiterá-las verbal e visualmente praticamente a cada página, com a espada feita de um cristal rosa que dá nome à minissérie e que é parte de uma cerimônia de literal “mudança de pele” que marca a passagem dos jovens membros da tribo para a maturidade, parecendo muito mais um penduricalho chamativo que tem pouquíssima função narrativa verdadeira, daquelas que alicerçam e/ou mudam a história. Da mesma forma, o protagonista e o antagonista são recortados em cartolina, sempre monotemáticos e obsessivos naquilo que acham ser o certo para a tribo, protegendo suas posições sem dar qualquer chance para o outro, parecendo muito o que acontece nas nossas redes sociais hoje em dia, aliás.

Com essa abordagem limitada e maniqueísta, a própria mitologia da tribo não ganha maiores desenvolvimentos, pois tudo gira ao redor da temática central e da caçada de um único animal, batizado de Presa de Prata (Silver Fang), que parece ser a única fonte de carne existente, apesar de o vilarejo ser coberto de uma rica floresta que indica haver vida pujante ao redor. Entre embates violentos entre os membros da tribo e entre eles e os enormes animais, as oito edições parecem existir em loop, com o roteiro tendo dificuldade de sair das armadilhas que cria para si mesmo, vivendo de pequenos incrementos, de soluções fáceis que incluem mudanças instantâneas de posicionamento e uma sucessão de outros elementos que parecem congelar a narrativa de tal forma que ela não tem para onde ir.

É por isso que eu disse que a arte de David Finch acaba sofrendo nesse cenário. Seus desenhos são inegavelmente magníficos, com impressionante detalhamento das vestimentas dos nativos e da vida vegetal e animal ao redor da aldeia. Há muita energia nos combates e caçadas, além de uma invejável cinética que transmite com muita eficiência a potência das pancadarias. Poucos artistas atuais são capazes de imprimir tantos detalhes em tão pouco espaço como Finch. O problema é que Finch também trabalha em loop, incapaz de escapar da armadilha do roteiro e, mesmo fazendo esforço para deslumbrar o leitor com páginas inteiras e páginas duplas com arte que dá vontade de arrancar da HQ e enquadrar, como é o caso das duas páginas focadas no rosto de Anok que marcam uma passagem temporal relevante, a repetição é inevitável, cansativa e, talvez pior ainda, pouco memorável quando os olhos finalmente se acostumam com personagens e ambientação e nada mais é efetivamente oferecido.

Skinbreaker é o caso clássico da forma atropelando o conteúdo, do espetáculo visual esmagando a substância, dos fogos de artifício tentando disfarçar o vazio narrativo. É, em poucas palavras, o que Hollywood faz muito mais vezes do que deveria por aí e que artistas como Kirkman e Finch não deveriam imitar. A minissérie em oito edições é inegavelmente linda, mas essa beleza toda cansa quando não há imediatamente abaixo dela que não sejam platitudes genéricas incapazes de desenvolver mitologia e personagens. Mais uma vez, a arte baixou a cabeça para o marketing e o resultado é apenas bonito, mas sem dúvida alguma ordinário.

Skinbreaker (EUA, 2025/26)
Contendo: Skinbreaker #1 a 8
Roteiro: Robert Kirkman
Arte: David Finch
Cores: Annalisa Leoni
Letras: Rus Wooton
Editoria: Sean Mackiewicz
Editora: Image Comics
Datas originais de publicação: 24 de setembro, 05 de novembro, 26 de novembro e 25 de dezembro de 2025; 28 de janeiro, 25 de fevereiro, 25 de março e 29 de abril de 2026
Páginas: 208



[Fonte Original]

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