É quase parte do senso comum acreditar que a criança precisa de contato com a tecnologia para se preparar para o futuro. Mas há polêmica: educadores e pais de vários países estão questionando a crença na “educação tecnológica”. Dados contundentes mostram que o uso de computadores e iPads individuais por crianças do ensino fundamental piorou — e muito — a aprendizagem.
Para aprender, crianças precisam de vínculo, olhar, corpo, diálogo, pausa, repetição, frustração e superação. Dificuldade e “chatice” são parte necessária da experiência: é justamente pelo esforço que o cérebro assimila e aprende. E a tecnologia, por definição, torna tudo mais fácil e rápido, sem atrito. Isso prejudica a aquisição de habilidades essenciais: atenção, memória, linguagem, paciência e autonomia.
De acordo com Peter Horvath, autor do livro “A Ilusão Digital”, os estudos mostram que compreensão e memorização caem abruptamente quando o estudante lê o texto numa tela. E mesmo na era tecnológica, o conhecimento armazenado em nosso cérebro, e não na nuvem, é a base para a criação, raciocínio e pensamento crítico.
Os computadores ou tablets individuais estão em 88% das escolas públicas americanas, e essa expansão maciça vem sendo acompanhada por uma queda preocupante no aprendizado de leitura e matemática. Os estudiosos afirmam que já não se pode atribuir tudo a pandemia — ela apenas agravou o quadro.
Noruega e Suécia apostaram fortemente em iPads e materiais digitais. A partir de 2016, ano em que se adotou a distribuição de tablets para crianças norueguesas (aos 5 anos), as habilidades de leitura entraram em colapso. Por isso, ambos os países estão reintroduzindo livros impressos e escrita manual. A digitalização escolar foi implantada como um experimento educacional maciço, ótimo para um mercado explosivo de plataformas e grupos educacionais, mas sem evidências de que melhoraria a aprendizagem.
O principal problema é a distração. Um aparelho individual é uma máquina de delícias, um cassino. Mesmo com bloqueios e vigilância, os alunos escapam e acessam vídeos, jogos, mensagens, pornografia e inteligência artificial. Nos Estados Unidos, a cada hora de estudo, um aluno passa em média 38 minutos fora da tarefa.
Leitura e escrita à mão estão ameaçadas. Ler em tela favorece a “varredura” rápida e a fragmentação. O livro impresso, ao contrário, exige continuidade e atenção sustentada, sem competição com distrações. Para escrever, o aluno precisa selecionar, organizar e conectar áreas cerebrais motoras e de raciocínio. Escrever menos implica em pensar menos.
A “gamificação” do ensino é outro problema grave. Plataformas educacionais prometem que a diversão, as medalhas, rankings e recompensas melhoram o aprendizado. Mas a criança foca no jogo e nas recompensas, não no conteúdo. O joguinho gera pequenas doses de dopamina rápida, e o aluno se desabitua ao esforço.
A recompensa saudável surge do esforço: estudar e ir bem na prova, escrever um texto, ler um livro. aprender um instrumento. E fortalece funções executivas, como perseverança e autonomia.
A tecnologia na escola deve ser intencional, ativa e crítica. Crianças e adolescentes precisam aprender a pesquisar, checar fatos, se proteger, analisar criticamente, criar com ferramentas digitais. Ela pode ser usada para ampliar uma experiência, gerar colaboração e debate. Mas não pode substituir o professor, o livro, a escrita, o diálogo e o pensamento. Entregar um aparelho individual cheio de distrações desde cedo é a pior opção.
A educação é um encontro humano. Um professor que olha nos olhos, escuta, provoca, exige e acolhe continua sendo seu personagem central.
A melhor preparação para um futuro tecnológico é uma infância mais analógica. Antes da máquina, a criança precisa aprender a usar a própria mente.