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segunda-feira, maio 4, 2026

Crítica | Aedena e Veneza Celestial – Plano Crítico

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As duas histórias aqui criticadas foram lidas no compilado Moebius Vol.1: Upon A Star, publicado em junho de 1987 pelo selo Epic Graphic Novel, da Marvel Comics. O volume é composto pelas aventuras Os Reparadores e Na Estrela (publicadas aqui no Brasil pela Nemo, no primeiro livro da série O Mundo de Edena) e também pelas histórias que analiso rapidamente abaixo. Além dos quadrinhos, há também alguns textos do autor e breves análises dos editores sobre algumas fases da arte de Moebius.
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Às vezes, achar informações de publicação de algumas obras dá muita dor de cabeça e a gente dessa jornada sai sem nenhum tipo de compensação, como aconteceu comigo quando procurei, até esgotar a minha paciência, detalhes sobre o lançamento original de Aedena. No texto que escreveu para a versão que saiu na Marvel Epic Collection, Moebius disse que publicou essa pequena história na edição de 20º aniversário da revista francesa L’Expansion, mas não cita o ano. No mesmo texto, ele afirma que essa história é um protótipo para as histórias do Ciclo de Edena, que começou a ser publicado num álbum de propaganda que ele fez para a Citroën, em 1983. Cada site que compila essas histórias dá uma data diferente para a origem dessa trama, que Moebius desenhou para acompanhar o roteiro de Jean-Paul Appel-Guéry e Paule Salomon, na linha de conexões e iluminação pessoal que o artista então perseguia. É sempre importante chamar atenção para a separação entre Aedena e as aventuras do Ciclo de Edena, embora haja, realmente, uma grande proximidade em termos de atmosfera e intenções. Quanto à produção/publicação dessa mini saga, fica claro que ela foi concebida antes de Na Estrela, e isso, para efeito de contextualização, nos basta.

A história, infelizmente, não é lá essas coisas. Ela rapidamente cai no poço didático e panfletário da arte, quando os criadores (e aqui, culpo unicamente os roteiristas) têm a intenção de educar, guiar, mostrar de maneira chocante que a vida que se vive é ruim, e que há a necessidade de mudanças imediatas para um verdadeiro crescimento pessoal. Não digo que as ideias espirituais e a proposta de Aedena sejam ruins. Mas ela é muito “na nossa cara“. O texto repete os mesmos conceitos com outras palavras, e embora defenda coisas que a humanidade realmente precisa para evoluir e parar de cavar ainda mais a própria cova, termina ficando chato. A princípio, eu até fiquei animado. A página de introdução é belíssima, com uma nave colossal diante de um enorme planeta e falas de pessoas não identificadas sobre uma tempestade que seu avião enfrentava e, do nada, algo que os levou para um “lugar misterioso“. Desse ponto em diante, o texto fica bobinho. As novidades do novo planeta são recebidas de forma infantil pelos terráqueos e tudo o que os habitantes de Adena fazem com elas vem acompanhado de uma lição de moral tão minuciosa e tão cheia de regrinhas que enjoa e se torna vergonhosa. Ainda gosto muito dos desenhos (embora ali pelo meio da aventura, eles não sejam os melhores de Moebius), mas não tenho simpatia alguma pelo rumo que a história seguiu.

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Não é a primeira vez que Moebius dedica sua arte a lugares específicos, formando uma espécie de mito em torno do espaço geográfico em questão. Nas histórias Ver Nápoles e Morrer e Ver Nápoles (Mourir et voir Naples), de maneira indireta ligadas à saga de Edena, ele mostrou um pouco da magia — ou da ciência oculta — que pode levar as pessoas a vivenciarem e ressignificarem um lugar, um destino de viagem. Algo bem similar a isso acontece aqui em Veneza Celestial, mas o autor expande a mitologia da cidade afirmando que existem muitas outras pelos mundos afora que elas estão prestes a afundar, caso não recebam o “tratamento da alma” correto e necessário. Para mim, existem duas formas de interpretar essa saga, uma mais pessoal e ligada à essência e identidade do Ser (falarei disso mais adiante), e outra mais literal, com o autor versando sobre a preservação de espaços históricos reais e o cuidado que se deve ter com eles para que não sejam comidos pela modernidade e posteriormente abandonados à morte (falta de conservação) quando não fizerem mais sentido para o gostinho da moda vigente. Não creio que esta tenha sido a intenção central do autor com essa história, mas acredito que faz parte de sua pluralidade narrativa uma outra possibilidade de aplicação para texto e arte, de modo que a mais simples e mais óbvia me parece a correta a tomar como real.

A outra maneira de olhar para Veneza Celestial é interpretando-a como sendo as qualidades ou traços de personalidade que todos nós temos e que abandonamos ao longo da vida para nos enquadrar em certos grupos ou para agradar determinadas pessoas. O resultado disso é a morte, o afogamento lento de coisas que eram parte importante da nossa essência. Infelizmente, isso vai acontecendo com diversas áreas da vida, da espiritualidade à maneira de falar, vestir-se, expressar contentamento ou descontentamento. A presente história é um chamado à recuperação de algo que está prestes a se perder. Me faz lembrar bastante das aventuras de Os Consertadores, com destaque especial para O Planeta Ainda…, que é uma belíssima história de conserto e recuperação de algo que quase se perdeu por completo. De uma essência que havia secado e, por isso, estava matando tudo o que restava à sua volta. Veneza Celestial é, portanto, um conceito, a versão livre e nutrida de algo que deve existir para que o equilíbrio maior das coisas seja garantido. É uma peça, uma engrenagem da existência de cada um que deve estar ativa e funcionando bem… para o bem de todos.

Aedena e Veneza Celestial (Aedena / Celestial Venice / Venise Céleste) – França, 1980 – 1984
Roteiro: Jean-Paul Appel-Guéry, Paule Salomon (Aedena) e Moebius (Veneza Celestial)
Arte: Moebius
Cores: Moebius e Marc Bati (apenas Aedena)
Edição lida para esta crítica: Moebius Marvel Epic Collection Vol. 1(1987)
17 páginas



[Fonte Original]

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