Justin Gray e Jimmy Palmiotti chegaram ao Novos 52 com 70 edições de Jonah Hex na bagagem, série que rodou de 2005 a 2011 e reafirmou o personagem como o anti-herói mais brutal e consistente das publicações de faroeste da DC. Quando o megareboot de 2011 colocou tudo de cabeça para baixo, a dupla recebeu a missão de pegar o mesmo Hex, caçador de recompensas desfigurado pela traição apache e ex-soldado confederado, e jogá-lo em Gotham City, ao lado de Amadeus Arkham, o futuro fundador do manicômio homônimo. Aqui, a ótima arte é de Moritat, que vinha de uma passagem por The Spirit e, antes disso, por Elephantmen, um artista com veia real para atmosferas urbanas carregadas. Este compilado de Grandes Astros do Faroeste reúne as seis primeiras edições da série de 2011, e a Gotham que aparece aqui é um lugar em construção, sujo, barulhento, com uma elite em jantares de gala que usa anéis de caveira enquanto, dois quarteirões abaixo, mulheres são assassinadas violentamente e crianças pobres são roubadas de suas famílias.
A narrativa do arco tem basicamente uma história que se entrelaça em outra. Hex chega a Gotham atrás de uns foragidos, mas logo descobre que existe um assassino em série à solta, um exterminador de prostitutas, e uma coisa vai aumentando a gravidade da outra. A busca pelos fugitivos se expande para a investigação do serial killer, que por sua vez revela que a Religião do Crime, uma sociedade secreta infiltrada nas camadas mais altas da cidade, e é numa festa do prefeito Theodore Cobblepot que Hex e Arkham percebem que praticamente toda a elite gothamita usa o anel de caveira da organização. Quando esse bloco de histórias se encerra, outro começa: crianças desaparecidas que, como se descobre, estavam sendo escravizadas nos esgotos de Gotham ainda em construção. Corrupção policial, crimes contra mulheres, trabalho infantil forçado, sequestro, facções criminosas e Estado como cúmplice: todos esses temas que o leitor já associa à Gotham contemporânea aparecem aqui um século antes, uma indicação de “origem perdida” para algumas coisas que seriam importantes nessa fase da DC.

Internamente, o que fortalece a história de uma maneira inesperadamente cômica é a parceria entre Hex e Arkham. Hex é um sociopata funcional com um código moral tortuoso, e Arkham é um homem de ciência tentando catalogar o crime numa era em que a psiquiatria forense nem tinha esse nome ainda. O diálogo entre os dois dá muito certo porque Arkham, aqui, ainda é o homem meio ingênuo e de boas intenções que Grant Morrison desmontou completamente em Asilo Arkham: Uma Séria Casa em um Sério Mundo. Aqui, os dois se odeiam, mas precisam um do outro, o que acaba formando uma das duplas mais improváveis e estranhamente mais divertidas da antiga Gotham. Gray e Palmiotti são muito precisos nos diálogos, conseguem manter uma lógica geral e, mesmo passando de forma um pouco reticente de um bloco de histórias para outro, conseguem criar, a longo prazo, um sentido sólido na narrativa.
Tanto a cidade de Gotham como muitas de suas figuras de maior destaque público são o tema desse arco, que mostra interesses macabros e nebulosos, em termos de motivação, se enraizando às escondidas. A ideia de que aquela cidade carrega seus problemas desde antes de qualquer herói chegar para tentar resolvê-los, de que a corrupção, a violência institucional e a exploração dos mais vulneráveis são estruturais, é o que faz essa primeira fase de Grandes Astros do Faroeste ter mais peso do que uma aventura de weird western (sim, porque temos, em dado momento da trama, um encontro com um gigantesco morcego pré-histórico e a aparição da misteriosa tribo indígena dos subterrâneos, os Miagani) pareceria prometer. Moritat entrega páginas com rigor histórico elogiável, que vai dos figurinos à arquitetura, fazendo do cenário uma camada narrativa por si só. É uma saga que, a despeito de seus poucos tropeços no emaranhado das aventuras que a compõem, diverte imensamente o leitor.
Grandes Astros do Faroeste – Vol.1: Armas e Gotham (EUA, novembro de 2011 a abril de 2012)
Contendo: All-Star Western – Vol.3, #1 – 6: Guns and Gotham
Roteiro: Justin Gray, Jimmy Palmiotti
Arte: Moritat
Arte-final: Moritat
Cores: Gabriel Bautista
Letras: Rob Leigh
Capas: Moritat, Rafael Garres, José Ladrönn
Editoria: Joey Cavalieri, Kate Durré
No Brasil: Panini (agosto de 2012)
Tradução: Levi Trindade, Paulo França
180 páginas