Crédito, Getty Images
- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
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A expectativa de interlocutores do senador é que a viagem ocorra entre terça-feira (26/5) e quinta-feira (28/5), embora ainda não haja confirmação oficial de que o encontro com Trump vá acontecer.
Nos bastidores, assessores e parlamentares próximos ao senador afirmam que o convite a Flávio teria sido feito pela Casa Branca após contatos intermediados pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos desde o ano passado.
A BBC News Brasil entrou em contato com a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil e a Casa Branca, mas não obteve retorno.
Enquanto a comitiva de Flávio Bolsonaro se prepara para o possível encontro com Trump, o presidente Lula, que também é pré-candidato à Presidência, adota cautela diante de um encontro cujo resultado, que segundo um alto oficial do governo, pode ser imprevisível.
Apesar da recente aproximação entre o petista e Trump, parte do governo Lula expressa desconfiança sobre se o governo norte-americano vai manter sua neutralidade ao longo das eleições deste ano.
Um interlocutor do presidente Lula afirmou à BBC News Brasil em caráter reservado que a gestão do petista não pretende criar obstáculos à eventual visita de Flávio a Trump ou cobrar explicações da Casa Branca sobre o evento.
A avaliação de interlocutores do governo Lula é de que a ida de Flávio a Washington é uma tentativa da sua pré-campanha de mudar o foco das suspeitas sobre seu vínculo com Vorcaro e produzir alguma agenda positiva. Apesar disso, o governo deverá acompanhar o encontro à distância e avaliar os sinais enviados por Trump durante e após a reunião.
Só então, a BBC News Brasil apurou, o governo vai estudar se adotará algum posicionamento.
A crise de Flávio
A crise que abalou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro começou na semana passada, depois que o portal The Intercept divulgou mensagens e um áudio do senador para Daniel Vorcaro em que ele chama o banqueiro de “irmão” e pede dinheiro para o suposto financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.
Documentos apontam que pelo menos R$ 61 milhões foram transferidos de uma empresa ligada a Vorcaro para a produtora do filme.
Segundo ele, o pedido fez parte do trabalho de captação de investidores privados para o filme e que, à época, novembro de 2025, ele não teria conhecimento das suspeitas sobre Vorcaro.
“É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, disse Flávio em uma nota divulgada na quarta-feira (13/05)”, disse Flávio em nota.
Em resposta, Flávio disse que sua ida à casa de Vorcaro, em São Paulo, foi uma tentativa de dar um “ponto final” à negociação de patrocínio do filme.
“Ele não poderia sair da cidade de São Paulo, e eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, dizer que se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco”, disse Flávio.
Após essas revelações, a Polícia Federal passou a investigar a possibilidade de que os repasses feitos por empresas ligadas a Vorcaro tinham como objetivo financiar despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O ex-parlamentar, no entanto, negou ter se beneficiado direta ou indiretamente de recursos oriundos de Vorcaro ou de empresas vinculadas a ele.
Desde a revelação dos contatos entre Flávio e Vorcaro, no entanto, pesquisas como as da Atlas/Intel e do Datafolha apontam queda nas intenções de voto de Bolsonaro e crescimento de Lula.
A mais recente, divulgada pelo Datafolha, aponta que uma queda de 45% para 43% de Bolsonaro contra um crescimento de 45% para 47% de Lula. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais.
A crise fez com que o comando da pré-campanha de Flávio Bolsonaro trocasse o seu marqueteiro, Marcello Lopes. Em seu lugar, entrou o publicitário Eduardo Fischer.
Inversão de papéis e atenção

Crédito, Reuters
O encontro entre o senador e Trump deverá acontecer três semanas depois de Lula ser recebido pelo presidente norte-americano na Casa Branca, no dia 7 de maio.
Na ocasião, segundo pesquisas de intenção de voto, era Lula quem vinha em viés de baixa e a oposição alegava que sua ida a Washington tinha o objetivo de garantir uma agenda positiva ao cenário em que Flávio Bolsonaro liderava, numericamente, as simulações para segundo turno.
A reunião entre Lula e Trump tinha previsão de durar uma hora, acabou se alongando por três e terminou sem entrevista coletiva ou anúncios de acordos. Apesar disso, Lula classificou o encontro como positivo.
“Olha para a minha fisionomia. Você acha que eu estou otimista, ou pessimista? Eu estou muito otimista”, disse Lula a jornalistas após o encontro.
Trump também avaliou o encontro positivamente. “Tivemos uma ótima reunião com o presidente do Brasil. Fazemos muito comércio e vamos ampliar esse comércio. Falamos sobre tarifas. Falamos também que eles gostariam de algum alívio nas tarifas. Mas foi uma reunião muito boa. Ele é um bom homem. É um sujeito inteligente”, disse Trump a repórteres em Washington.
A BBC News Brasil apurou que o governo Lula, a princípio, não vê o encontro entre Flávio e Trump como um problema ou uma ingerência do governo Trump no processo eleitoral brasileiro.
Um interlocutor do presidente disse, no entanto, que será necessário avaliar o resultado da reunião para fazer uma análise mais precisa sobre a disposição de Trump ou de parte de seu governo de interferir nas eleições deste ano.
Há alguns dias, integrantes do governo Lula vinham afirmando em caráter reservado que não descartavam a possibilidade de algum tipo de tentativa de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.
Segundo eles, a imposição do tarifaço de 50% a produtos brasileiros em julho do ano passado e a vinculação da medida ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) já era uma demonstração de que o governo Trump teria os meios e a disposição de interferir na política doméstica brasileira.
Eles afirmam, contudo, que após a aproximação entre Trump e Lula e a queda de parte das tarifas, os contatos entre os dois nos últimos meses eram uma forma de dificultar a atuação de uma suposta ala mais radical dentro do governo Trump ligada a bolsonaristas como o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o jornalista Paulo Figueiredo, ambos vivendo nos Estados Unidos.

Crédito, Ricardo Stuckert
A avaliação de parte do governo Lula é de que apesar do tom amistoso do encontro mantido entre os dois em maio, isso não significa, porém, que o Palácio do Planalto veja neutralidade absoluta nos Estados Unidos e que setores do governo norte-americano prefeririam um governo brasileiro mais alinhado a Washington, especialmente em temas como China, minerais críticos, big techs e política externa.
Auxiliares do presidente Lula avaliam, porém, que há dúvidas sobre até que ponto Flávio e seus aliados explorariam um apoio explícito de Trump na campanha brasileira. A razão, segundo ele, é que Trump teria uma alta rejeição em parte da opinião pública brasileira.
Além disso, existiria a avaliação na direita brasileira de que o tarifaço imposto por Trump ao Brasil no ano passado ajudou a aumentar, ainda que temporariamente, a popularidade de Lula.
Na avaliação desse integrante do governo, um gesto de Trump poderia animar setores da direita, mas também dar munição ao discurso de defesa da soberania nacional e de crítica ao alinhamento automático com os Estados Unidos feito por Lula durante o tarifaço.