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sábado, maio 23, 2026

Crítica | Bom Dia, Socorro – Plano Crítico

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Vou dizer uma coisa para vocês: Bom Dia, Socorro me fez rir tanto, mas tanto, que a última vez que cheguei perto de uma crise assim lendo uma HQ foi na minha releitura de O Tesouro de Rackham, o Terrível. Nem as tiradas mais absurdas de Cara-Unicórnio me colocaram numa situação de identificação cômica tão grande, a ponto de ficar com o sorriso aberto do início ao final do quadrinho. Mais uma pedrada do nosso querido paraibano Paulo Moreira, Bom Dia, Socorro é o tipo de história que tocará a todos porque é difícil encontrar, no Brasil, alguém que não esteja num grupo da família ou não tenha um parente, uma amizade mais velha que passa o dia enviando mensagens com imagens cafonas de gatinhos ou paisagens cheias de glitter e um ímpeto quase neurótico para comemorar, no melhor estilo barroco pop, as efemérides mais estapafúrdias da semana. Dos dias santos aos dias de profissões esquecidas, lugares obscuros ou temáticas ocultas, a estética do encaminhamento de imagens via whatsapp irrita e já virou até tema de estudos acadêmicos. Mas o que todo mundo precisa, antes de embarcar em algo mais sério sobre o tema, é ler Bom Dia, Socorro, que mergulha profundamente nesse oceano kitsch.

Beta é uma dona de casa que tenta viver a sua vida tranquilamente, mas é interrompida, ao longo do dia, pelas dezenas (ou centenas?) de imagens que Socorro, sua vizinha há muitos anos, lhe envia. Paulo Moreira faz uma abordagem progressiva do caso, aproximando-se do problema pelas beiradas. Conhecemos um pouco da casa de Beta, seus filhos e seu sobrinho pequeno numa típica casa de rua, daquelas com identidade de casa mesmo, que ainda temos em alguns lugares. Essa exploração do autor para a dinâmica familiar já é um deleite desde a abertura. Eu admiro muito a forma como o autor escreve seus diálogos e como consegue encadear a história. O fato de também fazer tirinhas dá a ele um senso de objetividade e corte narrativo que é de dar inveja, algo que reflete no texto final, e nós percebemos isso. Parece bobagem, mas vejam como a sequência de abertura, quando o bebê Henrique cai de cara no chão e começa a chorar, flui inteligentemente: esse evento banal ajuda a nomear e colocar em cena mais três personagens, além de dar a deixa para a citação a Socorro e suas mensagens. Tudo isso a partir de uma fala que eu poderia ter ouvido de qualquer uma das minhas tias: “Deixaram Henrique sozinho, foooi?“.

Uma vez que o problema é introduzido, o texto vai ficando cada vez mais engraçado. No início, parece uma rixa boba de vizinhas que trocam mensagens pelos zap. Depois, entendemos que é importante para Socorro que Beta a responda, mas a maneira como a irritada mulher resolve fazer isso torna a troca de mensagens provocativa e hilária. Eu, que já estava rindo desde o início da HQ, tive os meus melhores momentos nessa parte da trama, que cresce a ponto de a realidade abrir espaço para a fantasia, e aí, meus caros, a diversão é sem igual. Os desenhos são hilários (e o autor pesa a mão no preenchimento dos quadros, com explosão de cores, muitas flores, gatinhos e feixes de luz) e as referências são maravilhosas. Eu já tinha gargalhado com o fato de a vizinha das protagonistas se chamar Izolda (procurem ler Coelce Natália, o quadrinho que Paulo Moreira fez para um certo áudio/meme. Vocês vão ter um treco). Aí vem a luta, no melhor estilo de anime shounen, e eu não me segurei. O escudo escrito ““; Beta com camiseta de uma loja de material de construção; as interrupções externas à luta fantasiosa; o infame “dale dale último gás pra chegar o final de semana” (com uma surpresinha interpretativa, claro); a referência ao “patriota do caminhão” e mais um monte de outros detalhes fizeram com que eu tivesse os melhores momentos da minha semana lendo essas páginas.

Para além da cômica realidade, é possível utilizar Bom Dia, Socorro para discutir esse apego que muitas pessoas (homens e mulheres) têm ao whatsapp e à síndrome do compartilhamento compulsivo, que é menos perigosa quando está no campo dos “bons dias“, mas ganha outra cara quando entra na esfera da política, da ciência, da educação, das liberdades individuais e das notícias. Como disse, todos nós conhecemos alguém que tem esse hábito, e nem sempre se dá conta do quanto a avalanche de mensagens bregas irrita. Por outro lado, encontramos pessoas que, mesmo se enraivecendo, recusam-se a bloquear o emissor, impedir o download das imagens no celular ou sair do grupo, mesmo quando orientadas a isso, como é o caso de Beta. Esta é uma das mais gratas surpresas que eu tive com quadrinhos brasileiros nos últimos tempos. E, para melhorar, além da história principal, temos extras maravilhosos (na edição da Conrad) e uma pequena crônica, também hilária, posicionando a comunicação entre Beta e Socorro noutro lugar, como um exemplo de bom uso do aplicativo. Temos de tudo, aqui. Como na vida real. Só leiam!

Bom Dia, Socorro (Brasil, 2020)
Roteiro: Paulo Moreira
Arte: Paulo Moreira
Editora: publicado de forma independente em 2020 e pela Editora Conrad em 2022
96 páginas



[Fonte Original]

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