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quarta-feira, junho 3, 2026

Machado de Assis é pop: autor inspira videogame, musical, filme e livro

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Na tela do computador, um detetive noir investiga a morte de Brás Cubas no Rio de Janeiro de 1937. No palco, Bentinho produz, dirige e atua em um musical sobre sua vida. Nas páginas do livro, Sherlock Holmes investiga o suposto adultério de Capitu. Na tela do cinema, Selton Mello assume o papel do Doutor Simão Bacamarte.

Das quatro produções citadas, duas (o jogo “A investigação póstuma” e a peça “Dom Casmurro – Musical inspirado na obra de Machado de Assis”) foram lançadas em 2026 e as outras (o livro “Sherlock Holmes investiga a traição de Capitu” e o filme “O alienista”) chegam no segundo semestre. Em comum, todas adaptam obras de Machado de Assis.

Adaptações das obras do “Bruxo do Cosme Velho” não são novidade. Afinal, ele é um dos maiores autores da literatura brasileira. A concentração simultânea de projetos em diferentes mídias, no entanto, chama atenção e sugere um novo momento de interesse por versões das obras do escritor. Machado de Assis nunca foi tão pop.

Em “A investigação póstuma”, o jogador assume o papel de um investigador que deve, em 24 horas, entrevistar 14 personagens machadianos (como Capitu, Quincas Borba e Simão Bacamarte) para descobrir quem assassinou o protagonista de “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Se falhar, o detetive retorna ao começo do dia.

Entre os loops temporais, o jogador tem breves encontros com Brás Cubas (interpretado pelo ator Rodrigo Lombardi), em que pode conversar com o defunto-autor sobre as provas coletadas ao longo do dia. Lançado em abril, o jogo é um sucesso no cenário independente, com 94% de aprovação do público na plataforma Steam.

Para Felipe Cancian Bertozzo, criador do estúdio Mother Gaia e um dos desenvolvedores do jogo, parte disso é explicado pelo apelo de Machado. O jogo, que começou a ser concebido em 2016, surgiu graças a um edital da Ancine. Inicialmente, ele não tinha qualquer relação com a literatura brasileira.

“Já tínhamos um protótipo de jogo de investigação e, quando vimos o edital, pensamos em dar uma temática brasileira ao jogo”, diz Bertozzo. “O Brasil não é um mercado com tradição em jogos, e é muito difícil ver jogos com temas brasileiros.” Segundo o game designer, a ideia do loop e a conversa com a pessoa assassinada ao final do dia faziam parte do projeto desde o seu início. O encontro com Machado de Assis, então, foi natural.

“Pensamos: quem é o morto mais famoso da cultura brasileira? Brás Cubas. No entanto, vimos mais pontos em comum entre a obra de Machado e a nossa. Assim como nos livros dele, o nosso morto também conversava com o jogador. Havia toda uma temática de mistério, de ironia e de personagens não confiáveis que se encaixavam perfeitamente”, afirma Bertozzo.

“Inicialmente, trabalhamos só com Brás Cubas. Aos poucos, entendemos que podíamos juntar as várias obras dele no mesmo ambiente. Criamos uma espécie de ‘Machadoverso’”, diz. “Sem essa inspiração, nosso jogo não seria tão profundo.”

Já em “Dom Casmurro – Musical inspirado na obra de Machado de Assis”, Bentinho assume as rédeas do espetáculo. Ele não é só o personagem principal, mas também o ator, o dramaturgo, o diretor, o maestro e o figurinista no universo lúdico da peça. “Adaptar Machado de Assis para o teatro não é uma grande novidade”, diz Guilherme Gila, letrista, músico e diretor do espetáculo. “O nosso diferencial é a abordagem: transformar ‘Dom Casmurro’ em um espetáculo estilo Broadway.”

As grandes produções teatrais, como “Cats”, “O fantasma da ópera” e “Os miseráveis”, costumam adaptar clássicos da literatura. A intenção de Gila, que já adaptou outras obras de Machado para o teatro musical, é fazer o mesmo. “Há um escopo de livros brasileiros que poderiam estar no palco, mas não estão. O meu objetivo era colocar a literatura brasileira no palco”, afirma.

Para Davi Novaes, responsável pelo texto e a dramaturgia do espetáculo, o grande desafio da adaptação foi entender “por qual porta nós entraríamos no livro”. O dramaturgo relembra que a dúvida central de “Dom Casmurro” (se Capitu traiu ou não traiu Bentinho) é algo relativamente recente.

“Quando o livro foi lançado em 1899, era tido como uma história sobre adultério. Foi só na década de 60 que a pesquisadora norte-americana Helen Caldwell questionou: ‘e se Capitu não o traiu de fato?’.” Desde então, a dúvida sobre a suposta traição passou a nortear o debate público sobre o romance.

Ao apostar em um Bentinho que atua não só como personagem principal, mas responsável pelos bastidores do musical, Novaes e Gila escancaram a ideia do narrador não confiável. “Se você vai transportar uma obra de um suporte artístico para outro, é interessante que você traga um frescor para a história. Um clássico é um livro que não se esgota.”

Para Nádia Battella Gotlib, pesquisadora, professora e escritora que organizou o livro “25 contos de Machado de Assis” (Autêntica, 2019), o que torna Machado tão genial e, consequentemente, tão difícil de adaptar é o poder da linguagem exercida pelo autor. “De um lado, ele propõe fatos com data e hora marcada, local definido e ação explícita. Do outro, preenche o fio narrativo com pinceladas de ironia e de sugestão, que descolam o leitor do seu lugar de certeza e conforto.”

“Uma das grandes sacadas da literatura machadiana”, diz a tradutora Flora Thomson-DeVeaux, “é o não dito. O livro com lacunas que o leitor é obrigado a preenchê-las. Muitas adaptações pecam ao deixar tudo ‘legendado’ e ‘mastigado’. Machado jamais abre todo o jogo, isso é difícil de se replicar”, afirma a pesquisadora americana, responsável pela tradução para o inglês de “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Sobre o apelo de Machado ao público atual, ela diz: “O marco de todo clássico é a capacidade infinita de inspirar releituras e adaptações, de ser recontextualizado e reinterpretado em diferentes formatos”.

Além da ambiguidade proposta por Machado, as temáticas que abordou também seguem ecoando na atualidade. “Machado foi um crítico arguto do seu tempo”, diz Gotlib. “E a sociedade brasileira do nosso século infelizmente carrega ainda o peso de distorções dos oitocentos, como desigualdades sociais, racismo, machismo, patriarcalismo.” Thomson-DeVeaux brinca: “No dia em que Machado for menos atual, o Brasil será um país melhor”.

Não é de surpreender que suas obras continuem gerando interpretações tão diversas. Para Pedro Bandeira, que prepara o livro “Sherlock Holmes investiga a traição de Capitu”, Machado jamais buscou retratar o seu tempo, mas sim falar sobre a condição humana do passado, do presente ou do futuro.

O autor, responsável pela série “Os karas”, afirma que os sentimentos retratados por Machado são os mesmos em qualquer época. “Quer seja o amor impossível, a ambição, a dúvida, a velhice abandonada, o ciúme, a situação de inferioridade da mulher, a ânsia pelo poder, a traição, o golpismo, isso tudo sempre existirá”, diz. “Machado continua perfeito depois de mais de 100 anos e nada pode aparecer que o relegue ao limbo.”

[Fonte Original]

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