A leitura mais forte do que o esperado para o “payroll” — o relatório oficial de empregos dos EUA — para o mês de maio reforça o argumento dos membros mais conservadores (“hawkish”) do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de que o balanço de riscos está pendendo para o lado do combate à inflação. Essa é a visão do economista sênior para Estados Unidos da Mizuho, Alex Pelle.
O “payroll” mostrou a criação de 172 mil empregos nos EUA em maio, acima do consenso de 80 mil. A taxa de desemprego, medida a qual o Fed tem dado maior atenção na definição da política monetária americana, ficou estável em 4,3% e em linha com as estimativas.
“O sinal dos dados é que o mercado de trabalho está estável, com um aperto gradual em um nível consistente com o pleno emprego. Em contraste, a inflação está elevada e acelerando para longe da estabilidade de preços”, disse Pelle, em relatório enviado aos clientes.
Pelle também acredita que, para o Fed, a principal consideração não é apenas o avanço dos preços da energia, devido à questão do Irã, pesando para o mandato de inflação. “Os dados indicam que não há bons motivos para afirmar que a postura geral da política macroeconômica seja restritiva.”
“O debate no Fed provavelmente se tornará mais ‘hawkish’ [favorável ao aperto monetário], com uma postura mais explicitamente centrada entre manter ou aumentar as taxas de juros”, ponderou Pelle.
A avaliação do economista vai de acordo com a precificação da política monetária pelo mercado e com os discursos de membros do banco central americano. Após a divulgação do “payroll”, os futuros dos Fed Funds passaram a mostrar uma probabilidade de alta nos juros de 67,9% até o fim do ano, de acordo com os dados da ferramenta FedWatch, do CME Group.
Há alguns dias, a presidente da distrital do Fed de Dallas, Lorie Logan, reconheceu os riscos de uma alta nos juros até o fim deste ano. Ela argumentou que a inflação está demorando mais do que o esperado para retornar para a meta e o mercado de trabalho parece estável. “Estou cada vez mais preocupada com a possibilidade de que juros mais altos sejam necessários ainda neste ano para restaurar plenamente a estabilidade de preços.”
Um posicionamento semelhante foi visto pela presidente da distrital de Cleveland, Beth Hammack, há poucos dias. A dirigente defendeu a manutenção dos juros pelo banco central americano no nível atual, mas reconheceu os riscos crescentes em torno de um aperto adicional na política monetária caso o cenário inflacionário atual permaneça por mais tempo. Ela também constatou receios de que a política monetária pode não ser “suficientemente restritiva para reduzir a inflação para 2%.”
Vale relembrar que ambas as dirigentes votaram a favor da retirada do viés de flexibilização (“easing bias”) da última decisão de política monetária, o que levou a uma maior dissidência em uma votação do Fed desde 1992. O termo indica que a próxima movimentação do banco central americano seria em direção a um corte dos juros.
Até membros que adotaram posturas mais flexíveis (“dovish”) no passado recente, como o diretor Christopher Waller, têm sinalizado um viés mais conservador, o que indica uma mudança de humor dentro do comitê de política monetária. Waller defendeu, no fim de maio, a retirada do viés de flexibilização da comunicação da autoridade monetária, embora também tenha afirmado que não enxerga a necessidade de elevar os juros no curto prazo.
O presidente da distrital de Nova York, John Williams, foi em uma linha similar, ao dizer que não acredita que o Fed precise mudar as taxas de juros de curto prazo, apesar dos riscos inflacionários. O diretor Michael Barr também constatou que o atual nível da política monetária está bem posicionado para avaliar os desdobramentos do choque do petróleo.