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sexta-feira, junho 5, 2026

Crítica | Mestres do Universo (2026) – Plano Crítico

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Há algo de inevitavelmente estranho em tentar levar Mestres do Universo a sério sem trair aquilo que sempre tornou a franquia tão particular. Entre guerreiros musculosos, castelos mágicos, tigres falantes, feiticeiras cósmicas, vilões de caveira e nomes que parecem brinquedos gritando sua própria função, o universo de He-Man sempre habitou uma zona delicada entre o épico sincero e o ridículo absoluto, como na clássica série animada entre 1983 e 1985. O grande mérito do novo filme dirigido por Travis Knight é compreender que essa tensão não deve ser resolvida, mas abraçada com o tom camp, diferente do péssimo filme de 1987. O longa não tenta transformar Etérnia em uma fantasia sombria envergonhada de suas origens, nem mergulha completamente na paródia autoconsciente. A obra se equilibra, nem sempre com perfeição, entre aventura nostálgica, mitologia pulp e blockbuster contemporâneo, na mesma linha da também boa Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes.

A trama segue um caminho bastante tradicional de retorno do herói. Adam (Nicholas Galitzine), criado na Terra após fugir de Etérnia ainda criança, precisa reencontrar sua origem, aceitar a Espada do Poder e assumir o destino de He-Man para enfrentar Esqueleto (Jared Leto), agora tirano de um planeta devastado. É uma estrutura simples, bem arquetípica, e o filme sabe disso. Em vez de complicar demais sua premissa, Knight aposta na clareza: um príncipe exilado, um reino usurpado, uma herança mágica, aliados improváveis e um vilão que encarna a corrupção do poder. Há algo de genérico nessa construção, claro, mas é como se o roteiro buscasse recuperar um tipo de aventura juvenil que Hollywood parece ter desaprendido a fazer sem ironia excessiva ou cinismo de marca registrada.

Essa simplicidade, porém, também é um dos limites da obra. O roteiro, assinado por uma verdadeira colcha de retalhos criativa, carrega a sensação de projeto longamente remendado. Vemos ideias de origem, comédia terrestre, fantasia épica, guerra de resistência, romance, fan service e construção de franquia convivendo em um mesmo corpo narrativo nem sempre harmonioso. A jornada de Adam funciona em linhas gerais, mas frequentemente parece apressada em seus desenvolvimentos emocionais. O filme quer que sintamos o peso do retorno a Etérnia, um certo humor satírico entre os universos, o trauma da separação, a jornada triunfal de ação, entre outros elementos, mas nem sempre oferece tempo suficiente para que essas relações e elementos funcionem.

Ainda assim, Nicholas Galitzine funciona melhor do que o receio inicial poderia sugerir. Seu Adam não é apenas uma figura física; há nele um senso de deslocamento que combina com a ideia de alguém dividido entre dois mundos. O ator acerta especialmente quando trabalha a insegurança do personagem antes da transformação, evitando fazer de He-Man apenas uma pose heroica. Claro, quando o filme exige grandiosidade, o registro se torna mais convencional, mas Galitzine encontra certa doçura e bom humor no protagonista, algo fundamental para que a mitologia não se transforme apenas em desfile de músculos, armaduras e frases de efeito.

Camila Mendes, como Teela, dá ao filme uma energia mais direta e terrena. A personagem funciona como contraponto ao destino quase messiânico de Adam, ainda que o roteiro, por vezes, a empurre para uma função romântica mais previsível do que deveria. Idris Elba, como Duncan, é praticamente incapaz de não impor presença. Seu personagem “fracassado” tem peso, gravidade e certo humor seco, tornando-se uma das âncoras mais seguras do elenco. Morena Baccarin também traz uma solenidade adequada à Feiticeira, mesmo que sua participação pareça mais funcional do que plenamente dramática.

Mas é Jared Leto quem surpreende como Esqueleto. Em um papel que facilmente poderia cair na caricatura vazia, o ator abraça o exagero sem perder ameaça. Seu Esqueleto é teatral e deliciosamente camp. Há prazer na maldade, vaidade na fala, ressentimento no corpo e um senso de tragédia deformada por trás da caveira. O filme entende que Esqueleto precisa ser vilanesco num campo hiperbólico, e Leto entrega exatamente isso. A obra ganha sempre que ele aparece, não apenas pelo design visual do personagem, mas porque sua presença parece trazer consigo um pouco da insanidade colorida que Mestres do Universo precisa para existir.

Visualmente, o filme é irregular, mas geralmente interessante. A direção de Travis Knight demonstra carinho pelo material, principalmente na maneira como busca texturas físicas para Etérnia. Os cenários, figurinos e armaduras carregam uma mistura de fantasia bárbara, ficção científica retrô e brinquedo de luxo. Existe uma artificialidade assumida nesse mundo, e isso é positivo. Etérnia não deveria parecer “realista” demais. Deve parecer um planeta saído de uma imaginação infantil alimentada por espadas, lasers, criaturas impossíveis e capas dramáticas balançando contra céus alienígenas. Quando o filme abraça essa iconografia, funciona muito bem.

O problema surge quando o excesso digital pesa e também pelo simples fato da obra não ser exatamente memorável. Algumas sequências de ação são bem coreografadas, especialmente nos confrontos mais físicos, mas outras se perdem numa saturação de efeitos, criaturas, raios e destruição sem muita geografia visual. Knight tem um olhar mais apurado do que muitos diretores de blockbuster, mas nem sempre consegue impedir que a escala engula a clareza. O clímax, embora divertido, sofre um pouco desse problema: muita coisa acontecendo, mas pouco sendo efetivamente mostrado.

A trilha de Daniel Pemberton, com colaboração de Brian May, é um dos elementos mais fortes da produção. Há nela um senso de aventura roqueira, quase glam, que combina muito bem com o absurdo nobre da franquia. A música ajuda a dar identidade ao filme, principalmente quando mistura fanfarra heroica com guitarras e texturas mais cósmicas. É uma escolha inteligente porque evita tanto a solenidade genérica quanto a nostalgia preguiçosa. A trilha entende que He-Man precisa soar como mito, mas também como brinquedo ganhando vida no quarto de uma criança.

Tematicamente, o filme não reinventa nada, mas encontra força na ideia de aceitar o ridículo como parte da grandeza, por vezes flertando com uma autoparódia curiosa. Ainda assim, o humor é instável. Algumas piadas funcionam, especialmente aquelas derivadas do choque entre Adam e a grandiloquência de Etérnia. Outras parecem concessões óbvias ao blockbuster moderno, como se o roteiro tivesse medo de permanecer sério por mais de alguns minutos. Esse medo é compreensível, mas desnecessário. O filme é melhor quando confia na própria estranheza e pior quando tenta se justificar com tiradas fáceis.

No saldo final, Mestres do Universo é uma boa surpresa dentro de suas limitações. Não é a grande fantasia épica que talvez a franquia pudesse render em uma abordagem mais ousada, mas também está longe do desastre artificial que um projeto tão remendado poderia ter se tornado. Travis Knight encontra um caminho digno entre nostalgia e atualização, entre reverência e energia de aventura. O roteiro é irregular, o ritmo tropeça em alguns momentos e certos personagens mereciam mais desenvolvimento, mas há imaginação visual, boas atuações e uma sinceridade rara em blockbusters baseados em propriedades antigas.

Mestres do Universo (Masters of the Universe – EUA, 2026)
Direção: Travis Knight
Roteiro: Chris Butler, Aaron Nee, Adam Nee, David Callaham
Elenco: Nicholas Galitzine, Camila Mendes, Alison Brie, James Purefoy, Morena Baccarin, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Kristen Wiig, Jared Leto, Idris Elba
Duração: 140 min.



[Fonte Original]

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