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domingo, junho 7, 2026

Crítica | Spider-Noir – 1ª Temporada – Plano Crítico

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Talvez estejamos mesmo vivendo uma época de completo esgotamento das adaptações audiovisuais dos super-heróis de quadrinhos. É perfeitamente justo afirmar, ainda que eu não exatamente concorde por completo, que o excesso de produções transformou o especial em banal e reduziu a qualidade no geral, com o público espectador fazendo sua parte nesse processo de queda ao se recusar a aceitar de braços abertos o novo e o diferente. Seja como for, havendo ou não esse problema que não é verdadeiramente um problema, tenho para mim que obras como Spider-Noir fazem qualquer fase menos do que ideal mais do que valer a espera. A série, desenvolvida por Oren Uziel a partir do sucesso que o breve uso da voz de Nicolas Cage trouxe ao Homem-Aranha Noir em Homem-Aranha: No Aranhaverso e das HQs que introduziram o Universo Noir da Marvel Comics em 2009, é um daqueles raros exemplares do subgênero que não se importa em quebrar regras e convenções para construir algo de personalidade e mitologia próprias que não só reinventa todo o material original, como consegue melhorá-lo substancialmente.

Spider-Noir não é o que poderia muito facilmente ser, ou seja, meramente uma história protagonizada por uma das centenas de versões do Homem-Aranha que se apropria da atmosfera, estilo e fotografia dos filmes noir dos anos 40 e 50, especialmente aqueles sobre investigadores particulares durões desvendando crimes enrolados. A temporada inaugural, de apenas oito episódios, é como uma aula magna de subversão de expectativas e de uso relevante de personagens coadjuvantes e vilões que ganha outra dimensão quando levamos em consideração a escalação de Cage para ser o protagonista e o que parece ser o emprego de rédeas bem frouxas sobre o que ele deve ou não deve fazer diante das câmeras, ainda que eu tenha a impressão que não deve ser possível limitar esse ator em um set de filmagem. Pensado e filmado originalmente para ser em preto e branco, mas inteligentemente oferecido simultaneamente também em uma versão colorida em uma variação mais sofisticada do que a estratégia que a Disney empregou para as versões de Lobisomem na Noite, já que o Prime Video permite pular de uma versão para a outra a qualquer momento, mesmo no meio de uma cena, o diretor de fotografia Darran Tiernan conseguiu verdadeiramente canalizar a composição visual e a estética noir, com a “colorização” também funcionando de seu jeito, ainda que eu prefira o preto e branco.

No entanto, a belíssima fotografia é a cereja no bolo apenas, devo dizer. Spider-Noir, que se passa nos anos 30 logo após o crash da Bolsa de Valores de Nova York e durante a Proibição, estabelece uma premissa objetiva que coloca rei do crime Finbar “Finn” Byrne, conhecido como Cabelo de Prata (Brendan Gleeson) contratando capangas com superpoderes para protegê-lo de futuros atentados, o que leva o detetive particular Ben Reilly (Cage), deprimido e alcoólatra em razão do assassinato de sua noiva há cinco anos, a retornar, muito a contragosto, a seu manto de O Aranha para abrir espaço para uma história que não abre mão, em momento algum, de ser mais do que apenas mais uma série de super-herói. Com uso de violência na medida certa, tranquilidade plena na abordagem de um protagonista traumatizado e repleto de defeitos, diálogos ferinos com curiosa carga sexual quando o contexto pede e uma muito bem-vinda trama de origem do super-herói que se relaciona com a dos vilões e quem, mais do que isso, é refrescante e surpreendente, com elementos de horror corporal e de clássicos de horror com direito à experiências e laboratórios sinistros, com direito a uso consciente e muito cuidadoso de computação gráfica rejuvenescedora e de efeitos práticos de se tirar o chapéu.

O destaque dado ao elenco que gravita ao redor do protagonista é alvissareiro e não menos surpreendente do que a origem inesperada do Aranha. Joe “Robbie” Robertson (Lamorne Morris), repórter investigativo freelancer que é o único que conhece o segredo de Reilly e Cat Hardy (Li Jun Li), cantora de boate sob a coleira de Cabelo de Prata são dois personagens que tinham tudo para ser meros arquétipos, mas que os roteiros parecem genuinamente interessados em desenvolvê-los com Robbie muito facilmente indo além de sua função de Grilo Falante de Reilly e Cat apenas de femme fatale, cada um com arcos narrativos próprios que afetam e são afetados pela dinâmica entre personagens. O mesmo vale dizer dos supervilões – que aqui permanecerão sem nome para evitar spoilers – vividos por Jack Huston, Abraham Popoola e Andrew Lewis Caldwell, o primeiro integral à trama, o segundo contribuindo esporadicamente e o terceiro, mesmo sendo o menos nuançado, revela-se fascinante em sua literal e deliciosa teatralidade. O Cabelo de Prata de Gleeson não oferece grande novidade para além de ser Gleeso o intérprete, claro, o que é suficiente para diferenciá-lo de gângsteres comuns, o mesmo valendo para o corrupto prefeito de Nova York Alfred Morris, encarnado pelo sempre divertido Michael Kostroff.

E não, caros leitores, eu não me esqueci de Karen Rodriguez no papel de Janet Ruiz, secretária de Ben Reilly. Eu apenas queria dedicar um parágrafo inteiro à atriz e sua inesquecível personagem. A tarefa de Rodriguez era complexa, ou seja, fazer sua personagem pinçada diretamente de Relíquia Macabra (se você viu o filme, você sabe de quem estou falando e, se você não viu, veja agora!) sair das sombras do que poderia tranquilamente ser apenas um mero acessório conveniente e transformá-la no que o roteiro pretendia desde o início, uma quase coprotagonista capaz de rivalizar a presença magnética e mais do que característica de Nicolas Cage. E Rodriguez não só consegue fazer o impossível, como parece alcançar esse objetivo sem fazer o menor esforço, construindo sua Janet a partir do recorte em cartolina da secretária solícita e convertendo-a, quando nem o primeiro episódio chega a seu fim, em um instrumento para o sucesso narrativo da série. Pode ser exagero afirmar que não há Spider-Noir (falo da série) sem Janet, mas no mínimo não haveria essa qualidade toda sem uma personagem desse gabarito que funciona muito bem em todas as suas funções, inclusive e especialmente o de fazer o estranho, o horrível e o bizarro parecer parte do cotidiano, o que imediatamente a torna quase que o fiel da balança em termos dramáticos.

O que, claro, é exatamente o oposto de Nicolas Cage e seu Ben Reilly (ou Peter Parker aos espectadores mais atentos) e seu alter-ego, O Aranha. Na vasta história de escalações inspiradas no meio audiovisual, Cage como um Homem-Aranha bem mais velho, traumatizado, alcoólatra e vestindo preto da cabeça aos pés com direito a óculos de aviador com iluminação própria, chapéu e sobretudo simplesmente precisa estar em uma colocação especial. Mas mais especial ainda é que Oren Uziel parece ter exercitado algo raro na produção de uma série cara dessas: a contenção e a humildade de entender que, se você escala Nicolas Cage, dono de uma carreira enlouquecidamente estranha que vai do (merecido) Oscar de Melhor Ator em Despedida em Las Vegas  a dezenas e dezenas de obras que parecem formar um esquizofrênico quadro de Salvador Dalí ou de Jackson Pollock quando vistas em conjunto, você precisa deixar Nicolas Cage ser Nicolas Cage, especialmente quando essa é a primeira vez em que o ator se aventura no formato serializado. E, não tenham dúvida, pois, sem essas amarras, Nicolas Cage é Nicolas Cage aqui, seja criando uma estupenda amálgama de Humphrey Bogart com James Cagney e Edward G. Robinson envernizada por pinceladas de Jack Nicholson e de Malcolm McDowell, seja sendo puramente Cage em momentos que chegam a ser assustadores e até cômicos de tão singulares, como quando ele se requebra todo tendo “espasmos de aranha” ou seja lá o que tenha sido isso. O mero fato de a produção ter tido coragem de “soltar” Cage para construir essa variação inimitável de uma versão menos conhecida de um dos super-heróis mais populares que existem já seria suficiente para retirar Spider-Noir da vala comum e imediatamente alçá-la às prateleiras especialmente reservadas para as obras incomuns do subgênero como Legion, Patrulha do Destino, Watchmen e Preacher, mas a real medida da qualidade da série é que Cage é apenas um dos vários aspectos que merecem comenda.

Spider-Noir definitivamente não é a série que eu esperava. Não é sequer a série que eu acho que queria. Trata-se de algo tão fora da caixinha e tão ousada que ela praticamente redefine o que eu poderia imaginar que saísse de uma proposta como essa. Sei lá. Nicolas Cage com 60 e poucos anos vivendo a versão live-action do Aranha Noir tinha tudo para dar muito errado, para parecer uma tentativa desesperada de ser diferente, de ser apenas mais um fracasso dentre tantos outros do ator e do subgênero. Mas tudo, improvavelmente, acaba se encaixando de forma tão imperfeitamente perfeita dentro de uma lógica que foge à nossa percepção que a série reescreve o potencial do próprio subgênero, deixando evidente que o que ele precisa para reviver são os choques elétricos proporcionados por produções perigosamente corajosas ou enlouquecidamente arriscadas como essa aqui. Ou, pelo menos, Spider-Noir e outras inesperadas obras que espero que venham por aí tornarão memorável o inevitável arrefecimento e um dia (talvez) o fim de um lucrativo nicho cinematográfico e televisivo.

P.s.: Eu simplesmente adorei como, na primeira linha do monólogo de abertura, toda a pataquada vazia que deixa muita gente obcecada sobre “onde essa série se encaixa no multiverso” é descartada sem cerimônia, quase como se O Aranha estivesse nos dizendo algo como “não me encham a paciência e assistam a minha série sem se preocupar com essas coisas irrelevantes”.

Spider-Noir – 1ª Temporada (Idem – EUA, 27 de maio de 2026)
Desenvolvimento: Oren Uziel
Direção: Harry Bradbeer, Nzingha Stewart, Alethea Jones, Greg Yaitanes
Roteiro: Oren Uziel, Christopher Chen, Megan Liao, Steve Lightfoot, Tori Sampson, Jennifer Frazin, Jack Henderson, Bruce Marshall Romans
Elenco: Nicolas Cage, Lamorne Morris, Li Jun Li, Karen Rodriguez, Brendan Gleeson, Abraham Popoola, Jack Huston, Andrew Lewis Caldwell, Amanda Schull, Lukas Haas, Cary Christopher, Michael Kostroff, Scott MacArthur, Joe Massingill, Richard Robichaux, Amy Aquino, Andrew Robinson, Jack Mikesell, Cameron Britton, Whitney Rice
Duração: 370 min. (oito episódios)



[Fonte Original]

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